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15º Plano Quinquenal

Como plano da China de reduzir importações afeta diretamente agro brasileiro

Em seu 15º Plano Quinquenal (2026-2030), China prioriza segurança alimentar, estabelecendo entre suas diretrizes redução nas importações, o que afeta diretamente o Brasil
Em seu 15º Plano Quinquenal (2026-2030), China prioriza segurança alimentar, estabelecendo entre suas diretrizes redução nas importações, o que afeta diretamente o Brasil (Foto: Imagem criada utilizando ChatGPT Images/Gazeta do Povo)

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Um dos grandes responsáveis pelo avanço das exportações e pelo crescimento do próprio agronegócio brasileiro nas últimas décadas, a China anunciou uma mudança em seu modelo econômico que inclui a redução das importações de alimentos em busca da autossuficiência.

A nova estratégia representa um risco estrutural relevante para o Brasil. No ano passado, as exportações para o mercado chinês chegaram a US$ 55,3 bilhões em produtos, o equivalente a 32,7% de todas as vendas externas do país.

A China é o principal destino dos produtos brasileiros, absorvendo 71% de toda a soja exportada pelo Brasil e mais da metade da carne bovina nacional vendida ao exterior, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Consolidada ao longo dos últimos anos, a parceria comercial se alinhava à estratégia econômica da ditadura de Xi Jinping prevista no 14º Plano Quinquenal (2021-2025). Entre suas diretrizes, o plano estabelecia a garantia da segurança alimentar básica e a abertura a novos mercados.

Iniciados em 1952, com base no modelo soviético, os Planos Quinquenais orientam o planejamento macroeconômico do sistema político chinês. Eles direcionam a atuação de ministérios, agências, províncias e municípios ao longo de cinco anos.

O 15º Plano Quinquenal (2026-2030), aprovado em outubro passado, na 4ª Sessão Plenária do 20º Comitê Central do Partido Comunista, no entanto, reflete uma visão mais pessimista de Pequim em relação ao cenário internacional, considerado instável e suscetível a interrupções comerciais. A resposta estratégica do país, nesse contexto, foca o fortalecimento da segurança nacional e a estabilização de suas fronteiras e de sua economia.

Como consequência, a segurança alimentar foi elevada à condição de prioridade de Estado para o horizonte de 2035. A definição inclui grãos básicos (arroz e trigo), culturas destinadas à ração animal (como soja e outras oleaginosas), proteínas animais (especialmente carne suína) e a exploração de recursos florestais e oceânicos.

As prioridades para 2026 foram detalhadas no Documento Central nº 1, publicado em 3 de fevereiro deste ano, que estruturou as ações em seis áreas principais:

  1. ampliação da capacidade produtiva e da qualidade da agricultura;
  2. assistência para consolidação do combate à pobreza extrema;
  3. promoção do crescimento estável da renda dos agricultores;
  4. desenvolvimento de infraestrutura e melhorias de habitabilidade no campo;
  5. fortalecimento da inovação institucional; e
  6. reforço da liderança do Partido no setor agrícola.

Plano inclui desenvolvimento de biotecnologia para aumento de produção interna

A China concentra cerca de 20% da população global, mas dispõe de apenas 9% das terras aráveis e 6% dos recursos hídricos mundiais. Diante dessas restrições físicas, o 15º Plano Quinquenal estabelece que a agricultura deve ser gerida como um moderno sistema industrial de base tecnológica, o que inclui:

  • desenvolvimento de variedades nacionais de alto rendimento e resistentes a pragas e estresses climáticos, reduzindo a dependência de tecnologias estrangeiras e o pagamento de royalties;
  • uso de inteligência artificial, big data, sensores de monitoramento e maquinário automatizado para aumentar a eficiência operacional e compensar a migração da mão de obra rural para as cidades;
  • redução das perdas pós-colheita por meio da modernização da cadeia de frio e dos sistemas de armazenamento e processamento;
  • manutenção da "linha vermelha" de aproximadamente 120 milhões de hectares de áreas cultiváveis e fomento à recuperação de solos salino-alcalinos, além do aproveitamento de pastagens e recursos florestais.

A nova estratégia marca o encerramento de um ciclo de crescimento virtualmente ilimitado das importações agropecuárias por parte de Pequim. O deslocamento do foco para segurança alimentar, resiliência nacional e autossuficiência biotecnológica limitará gradualmente as exportações brasileiras de commodities.

Novas barreiras regulatórias e fitossanitárias, além de cotas de importação, já sinalizam o início dessa desaceleração.

China já começa a criar dificuldades para exportadores brasileiros

Em março, cerca de 2,5 mil caminhões de soja que seguiriam para a China foram barrados no Porto de Paranaguá (PR) devido à presença de sementes de plantas daninhas quarentenárias nas cargas. O volume registrado em apenas 15 dias representou mais da metade do total de ocorrências de todo o ano de 2025, quando 4,1 mil cargas precisaram retornar.

Embora o Brasil tenha negociado uma flexibilização temporária com Pequim para permitir a liberação das cargas, o episódio destacou a vulnerabilidade do escoamento a restrições técnicas.

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No setor de carne bovina, o governo chinês impôs neste ano uma salvaguarda que limita as importações brasileiras com tarifa favorecida a uma cota anual de 1,1 milhão de toneladas. O volume é cerca de 600 mil toneladas menor do que o exportado pelo Brasil em 2025.

Mais de 50% da cota para este ano já foi consumida. O volume que exceder esse limite estará sujeito a uma tarifa de 55%, o que reduz significativamente a competitividade da carne brasileira no mercado local.

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O 15º Plano Quinquenal também estimula o desenvolvimento de tecnologias de proteínas alternativas, incluindo alimentos plant-based, cultivo celular e biotecnologia. Fontes alternativas como essas podem atender entre 35% e 55% da demanda por proteína animal até 2050.

Embora analistas recomendem ceticismo em relação à velocidade de adoção dessas tecnologias, a iniciativa impõe uma barreira adicional ao crescimento de longo prazo do mercado para as carnes tradicionais importadas.

Em outra frente, o governo chinês decidiu restringir suas exportações de fertilizantes fosfatados, pressionando os preços dos insumos no mercado global e impactando diretamente os custos de produção agrícola no Brasil.

A medida foi adotada por Pequim para priorizar o mercado interno diante da possibilidade de escassez de adubos químicos em razão dos conflitos no Oriente Médio.

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Importações de soja brasileira pela China devem cair em até 20 milhões de toneladas por ano

O relatório China's Food Future, elaborado pela Systemiq e pela Gordon and Betty Moore Foundation, aponta que a adoção de metas de autossuficiência pelo país asiático pode reduzir suas importações globais de soja em até 23,5 milhões de toneladas — uma queda de 25% em relação aos níveis atuais.

Até 2030, as projeções do relatório indicam que as vendas do Brasil para a China podem cair entre 10 milhões e 20 milhões de toneladas de soja por ano.

Isso resultaria em uma perda de faturamento estimada entre US$ 5 bilhões e US$ 20 bilhões anuais para o setor brasileiro. Além da queda na demanda, haverá maior competição com produtores dos Estados Unidos e da Argentina, à medida que a China também busca diversificar seus parceiros comerciais.

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Segundo previsões, novo plano pode ter efeito dominó no agro nacional

O China Food's Future prevê que, com a desaceleração das compras chinesas, há uma tendência de impactos em cascata na economia do agronegócio brasileiro.

Com a queda das importações chinesas, a tendência é que o excedente global de grãos pressione para baixo as cotações futuras das commodities em bolsas internacionais, como a de Chicago.

“As consequências dessa transição serão sentidas por todo o sistema alimentar global”, diz o documento. “Países produtores serão os primeiros a sentir os efeitos”, acrescenta o estudo, que cita Brasil, Argentina e Estados Unidos entre os exemplos, por serem grandes fornecedores de soja e carne bovina à economia chinesa.

“Para essas economias, uma contração sustentada na demanda chinesa não reduz apenas volumes, mas coloca em risco simultaneamente queda de preços e receitas de exportação.”

O aumento contínuo dos custos de insumos agrícolas no Brasil, combinado com preços internacionais em queda, deve reduzir ainda mais as margens de lucro dos produtores. Segundo o relatório, ainda é possível que haja uma correção para baixo nos preços das terras, afetando principalmente áreas de expansão recente ou distantes dos portos de escoamento.

Com isso, investimentos em infraestrutura de armazenagem e logística de transporte podem ser revistos, adiados ou cancelados. A compra de maquinário para a modernização do campo também pode desacelerar.

Relatório aponta ações que Brasil deve tomar diante de novo cenário

O relatório da Systemiq também destaca algumas ações consideradas essenciais para a resiliência do setor brasileiro no longo prazo diante desse novo contexto.

Uma delas é reduzir a dependência de um único destino comercial por meio da busca por novos mercados de maior valor agregado e da ativação de acordos estratégicos, como o acordo Mercosul-União Europeia, o acordo com a EFTA (Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein) e o acordo com Singapura.

Outra medida essencial listada no relatório é investir na industrialização local para agregar valor às matérias-primas e posicionar o Brasil como fornecedor de insumos para novas indústrias, como a de proteínas alternativas.

O Brasil também pode buscar outras frentes de parceria com a China. O 15º Plano Quinquenal foca expressamente a transição energética e o desenvolvimento sustentável, o que abre oportunidades para cooperação sino-brasileira em inteligência artificial aplicada à sustentabilidade, biocombustíveis e investimentos em descarbonização.

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