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Em alta, carros chineses enfrentam teste decisivo no pós-venda à medida que envelhecem

Carros chineses Brasil
Carros chineses podem enfrentar demora nos reparos e perda de valor com o envelhecimento da frota. (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

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A presença dos carros eletrificados de marcas chinesas no mercado brasileiro cresceu rapidamente nos últimos anos e já ultrapassou a marca de um milhão de veículos em circulação.

A frota, porém, ainda é jovem: segundo levantamento da K. Lume Consultoria Automobilística, a idade média era de 3,3 anos em junho de 2026, enquanto quase 70% dos veículos tinham sido incorporados ao país desde 2024. É justamente o envelhecimento dessa frota que deve colocar à prova um dos principais desafios das fabricantes: o pós-venda.

De acordo com o estudo, o avanço dos carros chineses no Brasil deve continuar. As marcas, que respondiam por 17,5% das vendas de automóveis e comerciais leves entre janeiro e julho, podem chegar a 40% do mercado brasileiro em 2032.

O avanço coloca uma questão prática para quem compra um carro chinês hoje: como será a manutenção desses veículos daqui a cinco ou dez anos? Enquanto a frota permanece concentrada em veículos novos e ainda cobertos pela garantia, a demanda de pós-venda está mais ligada a revisões e manutenção preventiva. Com o passar dos anos, porém, devem ganhar espaço reparos fora da garantia, peças de desgaste, problemas eletrônicos e intervenções mais complexas.

Futuro das baterias preocupa, mas não é o único ponto de atenção

Nas buscas do Google nos últimos cinco anos, o termo relacionado a baterias de carros elétricos despertou significativamente mais interesse do que pesquisas sobre manutenção, software e hardware, segundo levantamento no Google Trends. Enquanto o termo “bateria carros elétricos” registrou picos de interesse de até 100 pontos, as pesquisas por manutenção, software e hardware ficaram próximas de zero na maior parte do período.

Apesar de a preocupação com a durabilidade das baterias aparecer entre as principais dúvidas de quem considera comprar um veículo elétrico usado, para Milad Kalume Neto, especialista em mercado automotivo e autor do estudo sobre a presença dos carros chineses no Brasil, o receio pode ser maior do que o problema efetivo.

Segundo ele, baterias bem cuidadas podem ter uma vida útil superior ao ciclo de utilização do próprio veículo, e a existência de um laudo que ateste a saúde do conjunto tende a ganhar importância no mercado de seminovos.

O risco pode estar menos na degradação natural da bateria e mais na velocidade de evolução da tecnologia. Um veículo usado pode perder valor caso surjam baterias com maior autonomia, recarga mais rápida ou novas arquiteturas elétricas.

"A velocidade de desenvolvimento dos carros chineses é tão surpreendente que uma tecnologia hoje pode ser obsoleta em três anos", diz.

A questão também se estende a outros sistemas. Evoluções em gerenciamento térmico, assistência ao motorista, conectividade e software podem fazer com que um veículo tecnicamente conservado tenha uma experiência tecnológica inferior à de modelos mais novos. Para o consumidor, portanto, a desvalorização não deverá depender apenas da idade e da quilometragem. O preço de um modelo novo equivalente, a evolução tecnológica, o estado da bateria, a disponibilidade de peças e a própria permanência da fabricante no país também podem influenciar o valor de um usado.

Futuro carros chinesesVolume de buscas no Google por baterias domina interesse do consumidor em relação aos carros elétricos (Foto: Google Trends)

Falta de peças pode deixar carros chineses mais tempo na oficina

É no pós-venda, entretanto, que está um dos principais pontos de atenção para os próximos anos. Dados de estudos internacionais citados pela K. Lume indicam que veículos eletrificados podem apresentar frequência de passagem pelas oficinas semelhante à dos modelos a combustão, mas permanecer por mais tempo em reparo.

No Brasil, os primeiros sinais também apontam para uma diferença no tempo de atendimento. Entre o primeiro trimestre de 2025 e o segundo trimestre de 2026, as ordens de serviço de carros chineses cresceram 106%, ante 7% entre marcas tradicionais.

A frequência de passagem pelas oficinas foi semelhante, mas o tempo médio de reparo foi de 8,25 horas nos chineses, contra 4,64 horas nos tradicionais. O intervalo entre a entrada e a entrega também foi maior: 85 horas, ante 30,4 horas.

A análise aponta disponibilidade de peças e dificuldade de diagnóstico como alguns dos principais gargalos. Para Milad, o desafio não está apenas em quanto custa uma peça, mas em saber se ela está disponível, onde está e quanto tempo estará disponível.

Futuro da fabricante também pesa

O valor de revenda também pode ser afetado pela continuidade da fabricante no país. O setor automotivo chinês passa por um processo de consolidação, marcado por excesso de capacidade, margens menores e reorganizações empresariais. Uma eventual mudança de estratégia no Brasil pode afetar a disponibilidade de peças, serviços e atualizações, embora não signifique necessariamente a saída da marca do mercado.

O especialista considera que o risco é maior entre empresas menores que ainda estão em processo de internacionalização e dependem do apoio de suas matrizes. Segundo ele, o risco é menor em operações maduras de grandes grupos.

A preocupação com a continuidade também está relacionada ao avanço tecnológico. Os carros atuais dependem cada vez mais de software, aplicativos, sistemas operacionais, conectividade e atualizações. Com isso, a manutenção de um veículo ao longo de sua vida útil deixa de ser exclusivamente mecânica.

Um carro com dez anos de uso pode estar em boas condições mecânicas, mas ter sistemas digitais desatualizados ou deixar de receber suporte para determinadas funções.

O que a experiência internacional ensina sobre o futuro dos carros elétricos

A experiência de outros países também ajuda a antecipar alguns desafios, mas não permite simplesmente projetar os mesmos resultados para o Brasil. O mercado brasileiro entrou mais tarde na eletrificação e, na avaliação de Milad, pode se beneficiar dos problemas enfrentados em países onde os veículos eletrificados chegaram antes.

Na China, estudos recentes apontaram desvalorização mais acelerada dos elétricos. Em cinco grandes mercados europeus analisados pela Agência Internacional de Energia (IEA), a retenção de valor dos veículos elétricos a bateria caiu de aproximadamente 50% em 2022 para 35% em 2025, enquanto o mercado geral passou de cerca de 60% para 50%, segundo dados apresentados pelo especialista.

O comportamento brasileiro, contudo, ainda dependerá da evolução do mercado local. Por enquanto, a principal incógnita não é apenas quanto um carro chinês valerá daqui a cinco ou dez anos, mas como será mantê-lo.

A reputação das fabricantes, segundo Milad, será construída justamente quando esses veículos deixarem de ser novos e começarem a enfrentar situações mais complexas de manutenção, colisões e substituição de componentes. "Agora as marcas precisarão mostrar que sabem também sustentar carros mais velhos", diz.

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