Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Rotas do narcotráfico

PCC e CV expandem para África e Ásia em consórcios criminais transnacionais 

rotas narcotráfico Brasil África e embarcação de cocaína pelos portos
Cooperação entre PCC e CV com organizações africanas, cartéis andinos e máfias europeias aponta para a formação de consórcios criminais transnacionais, capazes de movimentar grandes volumes de cocaína, operar sistemas de lavagem de dinheiro e explorar fragilidades institucionais de múltiplos países. (Foto: Infografia/Gazeta do Povo a partir de imagem de José Fernando Ogura/Governo do Paraná)

Ouça este conteúdo

Primeiro veio a consolidação de parcerias internacionais com cartéis latinos responsáveis pelo fornecimento de entorpecentes para o mercado nacional, a partir dos anos 2000. Depois, foi a sociedade com diversas máfias europeias, como a italiana 'Ndrangheta, para a distribuição das drogas ilegais no Velho Mundo. 

Agora a bola da vez nas rotas de narcotráfico a partir do Brasil é a África, que pelo menos desde 2020 vem se consolidando como um dos mais importantes hubs de redistribuição de cocaína no mundo, desempenhando um papel central no elo entre a produção latino-americana, a logística brasileira e os mercados consumidores da Europa, do Oriente Médio e da Ásia. 

A cooperação entre as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) com organizações africanas, cartéis andinos e máfias europeias aponta para a formação de consórcios criminais transnacionais, capazes de movimentar grandes volumes de cocaína, operar sistemas de lavagem de dinheiro e explorar fragilidades institucionais de múltiplos países. É o que apontam investigações da Polícia Federal (PF) e da Receita Federal em conjunto com a Interpol, e dados oficiais analisados no estudo “Floresta em pó”, do Instituto Fogo Cruzado em parceria com a Iniciativa Negra Por Uma Nova Política de Drogas e a Drug Policy Reform & Environmental Justice International Coalition, além de outras instituições, publicado no final de outubro de 2025.

Golfo da Guiné desponta como corredor para o narcotráfico africano 

Na África, o Golfo da Guiné desponta como o principal corredor contemporâneo do narcotráfico no continente. Portos em Lagos (Nigéria), Tema (Gana) e Abidjan (Costa do Marfim) foram incorporados a redes sofisticadas de logística controladas por facções brasileiras, notadamente o PCC, em parceria com organizações criminosas nigerianas e cartéis colombianos, aponta o relatório internacional.

Nesse circuito, os portos brasileiros de Santos (SP), Paranaguá (PR) e Suape (PE) têm papel central no escoamento de grandes remessas de drogas, com ênfase para cocaína, frequentemente ocultas em cargas de frutas, café, carnes congeladas e produtos industrializados. E esses pontos de partida brasileiros se multiplicam para outros portos.

Do lado de lá do oceano, o estudo aponta que outro eixo fundamental se desenvolve no Atlântico Central, envolvendo Cabo Verde, Senegal e Guiné-Bissau. Nessa rota do narcotráfico Brasil-África, a posição geográfica e a fragilidade institucional são fatores determinantes.

Guiné-Bissau, considerada um narcoestado em relatórios recentes do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), tornou-se ponto de armazenamento e transbordo de cocaína destinada principalmente à Península Ibérica e ao norte da Europa. "Portos como Praia (Cabo Verde) e Dakar (Senegal) recebem cargas provenientes, sobretudo, de Natal (RN), Pecém (CE) e Salvador (BA), o que evidencia a crescente relevância dos portos nordestinos para essa conexão transatlântica”, afirma a análise. 

Portos de Casablanca e Argel funcionam como plataformas de redistribuição para o Mediterrâneo

Nesse contexto, países como Moçambique, África do Sul e Namíbia assumem funções cada vez mais relevantes com interpostos no tráfico de drogas internacional. O porto de Durban, na África do Sul, tornou-se uma plataforma de distribuição para múltiplos destinos, incluindo Europa, Oriente Médio e o sudeste asiático.

Investigações recentes da Polícia Federal, em parceria com autoridades sul-africanas, revelaram esquemas a partir de portos para o envio de cocaína: a partir de Santos, a droga estava camuflada em contêineres de café, evidenciando a crescente integração entre redes brasileiras e operadores africanos.

Além disso, o norte da África vem sendo progressivamente incorporado às rotas globais de cocaína, sobretudo via Marrocos, Argélia e Tunísia. Nessa região, os portos de Casablanca e Argel funcionam como plataformas de redistribuição para o Mediterrâneo, interligando as redes brasileiras a grupos mafiosos europeus, como a 'Ndrangheta italiana, a redes marroquinas especializadas no tráfico de haxixe e cocaína. 

A análise integrada dessas rotas, que têm papel predominante da rede do crime do Brasil, revela que a África deixou de ser apenas um ponto de passagem para se tornar um centro logístico altamente funcional dentro da rede global do narcotráfico, aponta o relatório integrado. Os portos brasileiros, especialmente os do Nordeste, desempenham papel estratégico nesse cenário, fornecendo acesso direto a corredores africanos de baixa fiscalização e alta capilaridade.

"Essa tendência também indica um processo de diversificação dos destinos finais, com a expansão para mercados do Oriente Médio (via Dubai) e da Ásia (via Singapura e Índia), a partir de plataformas africanas consolidadas”, aponta a análise. Para o advogado criminalista Jorge Talarico Junior, presidente da Comissão de Segurança Pública da seção de Pinheiros da Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB-SP), a crescente utilização de rotas africanas como corredor estratégico para o envio de cocaína da América do Sul à Europa constitui preocupação central no que tange à segurança pública e para a atuação coordenada dos estados no combate ao crime organizado transnacional.

VEJA TAMBÉM:

Rotas do narcotráfico Brasil-África escancaram a vulnerabilidade dos controles entre fronteiras

Na avaliação do presidente da Comissão de Segurança Pública da seção de Pinheiros da OAB-PR, tal dinâmica evidencia a vulnerabilidade de sistemas de controle fronteiriço e aduaneiro. "Bem como a necessidade de reafirmação do compromisso internacional previsto em convenções multilaterais, especialmente àquelas relativas ao tráfico ilícito de entorpecentes”, diz.

Neste contexto, o fortalecimento de políticas públicas integradas torna-se imperativo para assegurar a efetividade das respostas estatais. "O surgimento de redes criminais que operam de forma articulada entre grupos sul-americanos, facilitadores africanos e organizações europeias revela um cenário de cooperação ilícita que desafia a capacidade isolada de qualquer nação”, reforça Talarico Junior.

"A natureza transnacional de operações desta natureza demanda não apenas ações repressivas, mas, sobretudo, alinhamento político-institucional, harmonização legislativa e mecanismos de responsabilização capazes de enfrentar estas estruturas - altamente adaptáveis”, aponta ele.

VEJA TAMBÉM:

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.