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A Diocese de Jundiaí, no interior de São Paulo, confirmou a excomunhão do padre Rodrigo de Oliveira Silva após ele aderir à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), instituição tradicionalista radical que desafiou a autoridade do papa Leão XIV ao ordenar quatro bispos sem permissão do pontífice, em julho. A decisão foi comunicada pelo bispo diocesano de Jundiaí, dom Arnaldo Carvalheiro Neto, em nota pastoral publicada na última quinta-feira (6).
“O Rev.mo. Pe. Rodrigo de Oliveira da Silva, por sua adesão à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, encontra-se, em razão dos atos acima referidos, em situação de cisma e de excomunhão, assim como todos os ministros sagrados vinculados à mesma Fraternidade”, afirmou o bispo.
Em julho, a FSSPX ordenou quatro de seus presbíteros “sem o mandato apostólico e em desobediência aberta à vontade do Santo Padre”. O Dicastério para a Doutrina da Fé reagiu e decretou a excomunhão da instituição da Igreja Católica.
Segundo dom Arnaldo, em razão da excomunhão, os atos realizados pelo padre Rodrigo em seu ministério “são ilícitos”. Além disso, “no que tange aos sacramentos da Penitência e do Matrimônio, tanto a absolvição sacramental por ele concedida quanto os casamentos por ele assistidos carecem de validade e são nulos”, disse.
O bispo alertou que as celebrações litúrgicas e outros atos realizados no novo espaço de culto coordenado pelo sacerdote são irregulares, pois não estão “em comunhão com o Romano Pontífice nem com o Bispo Diocesano de Jundiaí”. “Os fiéis devem evitá-los terminantemente, dada a gravidade do risco de aderência progressiva ao cisma e à excomunhão”, afirmou o bispo, lembrando que os fiéis leigos que aderirem formalmente à Fraternidade Sacerdotal São Pio X “incorrem igualmente na pena de cisma e excomunhão”.
Quem é o padre Rodrigo de Oliveira Silva
Rodrigo de Oliveira Silva nasceu na cidade de Cajamar (SP) e foi ordenado padre em 2011. Em 2017, ele assumiu a paróquia de Santo Antônio de Pádua, no bairro de Ivoturucaia, em Jundiaí. Em fevereiro deste ano, o padre se afastou do cargo para se dedicar à FSSPX.
“Aquele que critica de forma negativa esse tipo de decisão é porque se faz um perfeito ignorante do momento em que vivemos e da crise atual da Santa Igreja. Para estes, resta muito pouco, além da nossa oração”, disse o padre Rodrigo, em vídeo divulgado após o afastamento. “A todos aqueles que nos apoiam, que estão de fato com a sua fé católica renovada pela tradição, meu muito obrigado”, acrescentou. Ele passou a atuar em Campo Limpo Paulista, onde começou a celebrar missas tridentinas (seguindo o missal de 1962, anterior à reforma litúrgica de 1969) em um imóvel alugado.
No vídeo, o padre relata que foi questionado sobre a possibilidade de voltar a atuar regularmente na Igreja Católica. “Com toda a sinceridade, eu preferiria mil vezes estar numa paróquia, estar com meu povo, mas, infelizmente, o estado atual de crise tornou as paróquias em propagadoras de doutrinas ou de realidades que não são mais católicas”, justificou. “Sabemos que a imensa maioria dos católicos hoje estão em um liberalismo inconsciente, são católicos liberais, condenados já por São Pio X e, pior ainda, modernistas: a mãe de todas as heresias”, disse.
Em março, o padre abriu uma “vaquinha” com o objetivo de arrecadar R$ 190 mil para comprar a casa onde realizava as missas em Campo Limpo Paulista. Ele já conseguiu mais de R$ 70 mil em doações.
A Gazeta do Povo não conseguiu contato com o padre Rodrigo de Oliveira Silva até a publicação deste conteúdo, mas o espaço segue aberto para manifestações.
O que é a Fraternidade Sacerdotal São Pio X
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X é uma comunidade fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre (1905-1991), com sede na Suíça. O grupo rejeita o Concílio Vaticano II (1962–1965) e a reforma litúrgica de 1969, que publicou um novo missal, com a permissão para as celebrações nas línguas locais.
A FSSPX é contra o diálogo inter-religioso, rejeita a separação entre Estado e Igreja e as reformas pastorais adotadas nos últimos anos. O grupo também defende a celebração exclusiva da missa tridentina; alguns de seus integrantes mais radicais defendem que os católicos fiquem em casa aos domingos, se não tiverem alguma missa tridentina a que possam ir.
Lefebvre e o bispo brasileiro Antônio de Castro Mayer foram excomungados pelo papa João Paulo II em 1988, após ordenarem quatro bispos sem autorização papal. Os quatro ordenados (Richard Williamson, Alfonso de Galarreta, Bernard Fellay e Bernard Tissier de Mallerais) também foram excomungados na mesma ocasião, mas em 2009 eles tiveram a excomunhão revogada pelo papa Bento XVI (Lefebvre e Castro Mayer já haviam falecido). Mesmo assim, a FSSPX nunca voltou a ter status canônico regular dentro da Igreja.
Em fevereiro deste ano, a FSSPX anunciou que ordenaria mais quatro bispos, também sem a permissão do papa Leão XIV. Fellay e Galarreta ordenaram os padres Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier no início de julho, e no dia seguinte o Vaticano publicou o decreto de excomunhão de todos eles. A ordenação episcopal sem autorização do papa é considerada um ato cismático, ou seja, de desobediência explícita.
Apesar de ser o maior grupo católico tradicionalista, a FSSPX não é o único. A Fraternidade de São Pedro, o Instituto Bom Pastor e o Instituto Cristo Rei estão em situação canônica regular, ou seja, em comunhão com o papa, e seus padres celebram a missa tridentina com a autorização dos bispos locais. No Brasil, ainda existe a Administração Apostólica São João Maria Vianney, sediada em Campos (RJ) e com bispo próprio, também dedicada à celebração da missa tridentina.




