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Inteligência artificial com alma. O conceito pode soar estranho à primeira vista, mas é justamente assim que o professor João Furlan, pesquisador em Inteligência Artificial e Neurociências aplicadas à Gestão de Pessoas e Aprendizagem Corporativa, descreve a nova fronteira do relacionamento entre máquinas e seres humanos. Pós-graduado em IA e Machine Learning para Data Science pelo MIT e em Liderança de Inovação por Stanford, o pesquisador sustenta que a tecnologia só cumprirá um papel transformador se for projetada para refletir valores éticos e humanos.
João afirma que quando fala em uma IA ‘com alma’, “me refiro à capacidade dela transmitir valores humanos em suas interações. Não é consciência como a nossa, mas sim um design que permite à IA responder com empatia, respeito e transparência”. Para ele, ainda não é viável falar em máquinas conscientes, mas sim em sistemas capazes de simular empatia. “Essa simulação ocorre a partir de escolhas de linguagem, frameworks éticos e modelos de interação que colocam o ser humano no centro”, pontua. E explica que “programar consciência é impossível no estágio atual da tecnologia, mas conseguimos simular empatia de forma convincente”.
Frameworks éticos
Um dos maiores desafios, destaca João, é garantir que a IA não reproduza vieses e desigualdades já presentes na sociedade. Para isso, ele defende que os frameworks éticos sejam construídos de maneira colaborativa. “Precisamos garantir dados representativos, revisar constantemente os algoritmos e criar instâncias de governança que envolvam diferentes áreas do conhecimento, da ciência de dados à filosofia. Só assim frameworks éticos se tornam realmente robustos”, observa.
De acordo com o professor, na prática, cientistas de dados, engenheiros e designers compartilham a missão de dar “alma” à tecnologia. Cada papel contribui para transformar valores em código. João explica que cientistas de dados cuidam da qualidade da informação; engenheiros estruturam a segurança e a integridade; designers transformam a tecnologia em experiências acessíveis e respeitosas. “É nesse trabalho conjunto que os valores humanos deixam de ser discurso e passam a fazer parte do código”, acentua.

Propósito social
Uma IA desenhada com responsabilidade e propósito também pode contribuir para enfrentar questões complexas como a crise climática e a desigualdade social. João cita exemplos já em curso como modelos preditivos que ajudam a otimizar consumo energético e reduzir desperdícios na indústria. Na educação e saúde, a IA pode democratizar o acesso, reduzir custos e oferecer soluções personalizadas que atacam desigualdades históricas.
Além de impacto prático, o pesquisador acredita que a relação cotidiana com sistemas mais éticos e empáticos pode moldar o comportamento humano. “Quando a tecnologia se apresenta de forma mais empática, nossa relação com ela passa a ser colaborativa. Isso também influencia como interagimos entre nós: se uma IA reforça valores como escuta ativa, transparência e respeito, ela nos inspira a resgatar esses comportamentos em nossas próprias relações”, conclui.
XVIII CONPARH
Organizado pela Associação Brasileira de Recursos Humanos – ABRH-PR, o XVIII CONPARH tratou com profundidade da relação da inteligência artificial e as relações interpessoais. O professor João Furlan, em sua palestra, trouxe reflexões sobre o tema alinhadas ao propósito do evento em mostrar tudo o que só o humano pode fazer.
