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Pautas-bomba

Derrotas em série no Congresso encurralam governo, que espera socorro do STF

Lula STF
Derrotado no Senado, governo Lula busca no STF uma saída para barrar pautas que ameaçam contas do Executivo (Foto: Ilustração Gazeta do Povo - com DALL-e)

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Após uma sequência de derrotas no Senado em propostas de alto impacto fiscal, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a lançar mão da estratégia usual do terceiro mandato: contar com o Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar frear medidas que não conseguiu impedir no Congresso.

A iniciativa foi confirmada poucas horas depois de o Senado aprovar, nesta quarta-feira (10), o projeto de renegociação das dívidas rurais e avançar em comissões com outras duas propostas classificadas pela equipe econômica como "pautas-bomba": a criação de um piso salarial nacional para médicos e dentistas e a aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias.

O recurso à judicialização já era sugerido pela sequência dos acontecimentos em Brasília. Na terça-feira (9), Durigan procurou o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), numa tentativa de conter o avanço das pautas que a Fazenda considera ameaças à sustentabilidade fiscal, mas não teve sucesso.

Em meio ao desgaste entre Alcolumbre e o Planalto após a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF, o presidente do Senado não segurou as votações.

No mesmo dia, já apareceram indícios de articulação do governo com a Suprema Corte. O ministro Gilmar Mendes publicou uma mensagem nas redes sociais alertando que "o Congresso não pode criar despesas para estados e municípios sem indicar a correspondente fonte de custeio".

Após o avanço das propostas no Senado, Durigan revelou ter conversado por telefone com o decano do Supremo sobre o tema, admitindo a possibilidade de judicialização ou mesmo veto presidencial. Na sequência, Gilmar voltou a se manifestar publicamente, citando o precedente do piso nacional da enfermagem, cuja implementação foi suspensa pelo STF até que fossem apresentadas fontes de financiamento.

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As pautas que acenderam o alerta da Fazenda

A principal derrota do governo ocorreu com a aprovação do chamado "Desenrola Rural", cujo impacto fiscal é estimado pela Fazenda em R$ 140 bilhões ao longo dos próximos dez anos. O projeto permite refinanciar dívidas de produtores afetados por eventos climáticos extremos e outros choques econômicos.

Segundo o Senado, o alcance da medida varia entre R$ 170 bilhões e R$ 180 bilhões em débitos elegíveis. O texto prevê financiamentos de até R$ 10 milhões por produtor e de até R$ 50 milhões para cooperativas e associações, com juros reduzidos.

Para o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), Ingo Plöger, a proposta não representa perdão de dívidas nem anistia para produtores rurais. A medida, em sua avaliação, tem caráter emergencial e busca evitar o colapso financeiro de produtores afetados por catástrofes climáticas, especialmente no Rio Grande do Sul. Como foi alterado pelos senadores, o projeto retorna agora à Câmara dos Deputados.

O segundo revés da equipe econômica foi a aprovação, pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), do projeto de lei que cria um novo piso salarial para médicos e dentistas.

A proposta eleva a remuneração mínima da categoria de R$ 3,6 mil para R$ 13,6 mil em jornadas de 20 horas semanais, além de prever reajuste anual pelo IPCA, adicional noturno de 50% e pagamento de horas extras com acréscimo de 50%. O impacto fiscal estimado é de R$ 8,1 bilhões já em 2026.

No mesmo dia, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) aprovou a proposta de aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias, com custo estimado em cerca de R$ 30 bilhões ao longo de dez anos.

O texto estabelece idade mínima de 57 anos para mulheres e 60 anos para homens, desde que comprovados 25 anos de contribuição e de exercício na atividade, prevendo regras de transição.

Aumento de gastos e redução de receitas

As três iniciativas têm potencial para agravar a situação das contas públicas, mas o temor da Fazenda vai além das votações desta semana.

Durigan tem apontado uma série de projetos que podem reduzir receitas ou ampliar despesas nos próximos anos. Entre eles está a proposta que amplia o teto de enquadramento do Simples Nacional, com custo estimado em cerca de R$ 50 bilhões. Outra preocupação envolve a ampliação dos benefícios tributários para entidades religiosas.

Segundo o ministro, a medida poderia elevar em aproximadamente um ponto percentual a alíquota do futuro Imposto sobre Valor Agregado (IVA) criado pela reforma tributária.

Ele afirma que a expansão simultânea de gastos obrigatórios e renúncias tributárias aumenta a percepção de risco sobre a trajetória da dívida pública, pressiona as expectativas fiscais e pode tornar o país "ingovernável" a partir do próximo mandato.

Na véspera das votações, o ministro chegou a afirmar que a aprovação das medidas fortalece os argumentos daqueles que defendem a manutenção de juros elevados e compromete os esforços do governo para estabilizar as contas públicas. "Aprovar pauta-bomba agora joga mais lenha nessa fogueira de quem pede juros mais altos", afirmou o ministro.

Analistas do mercado financeiro, no entanto, observam que o embate também expõe uma contradição. Enquanto a Fazenda tenta conter iniciativas do Congresso por seus efeitos sobre as contas públicas, o próprio Planalto tem patrocinado medidas de estímulo econômico, subsídios e desonerações tributárias com potencial impacto fiscal, em meio à aproximação do ciclo eleitoral.

Do Congresso ao STF: um roteiro já conhecido do governo

O histórico da atual gestão Lula, de recorrer ao STF para tentar reverter decisões do Congresso, tem alguns exemplos emblemáticos.

O primeiro ocorreu em abril de 2024, quando a Advocacia-Geral da União (AGU) acionou a Corte contra a prorrogação da desoneração da folha de pagamentos aprovada pelos parlamentares.

O ministro Cristiano Zanin suspendeu trechos da lei, desencadeando uma crise entre Executivo e Legislativo que acabou sendo resolvida por meio de uma negociação intermediada pelo próprio Supremo.

A Corte também se tornou peça central nas disputas envolvendo a execução e a transparência das emendas parlamentares, além de controvérsias relacionadas ao Orçamento e a mecanismos de compensação fiscal. Em diferentes momentos, ministros do STF acabaram funcionando como árbitros desses conflitos.

A disputa aberta nesta semana ainda deve ter um longo percurso institucional. A renegociação das dívidas rurais retorna agora à Câmara dos Deputados, onde o governo enfrentará uma nova batalha política.

O foco de atenção passa a ser o comportamento do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Aliado do Planalto, ele enfrentará pressão para frear uma proposta considerada fiscalmente insustentável.

Por outro lado, terá de lidar com a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), uma das bancadas mais organizadas e influentes do Congresso, diretamente interessada na aprovação do projeto.

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