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Com antecedência calculada, Fernando Haddad anunciou que deixará o Ministério da Fazenda até, no máximo, fevereiro. Uma tentativa de reduzir a incerteza – algo que não conseguiu entregar ao longo de sua gestão. O ministro planeja focar na campanha eleitoral.
Em férias desde 22 de dezembro, Haddad retornará ao trabalho em 12 de janeiro, o que significa que ficará no cargo por apenas algumas semanas até sua saída.
A declaração de que deixará a Fazenda, feita em entrevista de fim de ano a jornalistas que cobrem a pasta, deu previsibilidade à transição, afastou o risco de sobressaltos imediatos no mercado e explicitou o reposicionamento político do ministro, que confirmou a intenção de atuar diretamente na campanha do presidente Lula à reeleição.
Ainda assim, a sucessão se impõe como um novo teste de credibilidade para o governo. As atenções se voltam agora para quem herdará um mandato marcado por altos e baixos na relação com o Congresso, embates com os próprios correligionários e um arcabouço fiscal cumprido aos trancos e barrancos.
A dúvida é se os nomes naturais da fila – como o secretário-executivo da Fazenda, Dario Durigan, preferido de Haddad, e o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron – têm força política e autonomia suficientes para sustentar o legado de Haddad em um ano eleitoral.
Carlos Henrique, CEO da fintech Sttart Pay, considera que o nome escolhido dará o tom do que esperar da política econômica. "Em um Brasil que já definiu suas principais âncoras, arcabouço fiscal e reforma tributária, o desafio agora é menos formular novas regras e mais executar com consistência", afirma.
Embora afirme que deixa a pasta tendo entregado o que prometeu, Haddad tem uma avaliação controversa. "Seu balanço é misto: atuou em um ambiente político complexo, reconstruiu canais com o Congresso, estruturou o arcabouço e manteve a política econômica dentro de limites reconhecíveis para o mercado", diz Henrique. "Mas não é um símbolo absoluto de ajuste fiscal."
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O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, aponta que a mudança de comando terá impacto nulo na prática. "Do ponto de vista econômico, não muda nada."
Segundo ele, transições desse tipo costumam elevar ao posto um substituto focado em gerenciar o cotidiano sem grandes rupturas. O novo ministro enfrentará um "prazo supercurto" para novas medidas, pois a máquina pública tende a paralisar devido às eleições. Portanto, o cenário será de manutenção do que já foi contratado.
A política econômica para 2026 já está desenhada e aprovada pelo Congresso, lembra Thiago Sbardelotto, analista da XP Investimentos. As regras para programas sociais e as isenções do Imposto de Renda já estão dadas. Mudanças significativas na estratégia econômica são improváveis ao longo do ano.
Quem herda a Fazenda em ano eleitoral
O substituto de Haddad enfrentará uma máquina pública paralisada pelo processo eleitoral. O prazo para novas medidas será curto e limitado à gestão do orçamento. Nesse cenário, a prudência fiscal torna-se um desafio diante das pressões políticas por gastos típicas de anos de votação.
Alex Agostini, economista-chefe da Austin Ratings, expõe com clareza sua preferência. "O perfil de um ministro da Fazenda agora, em que as contas fiscais estão nos holofotes há algum tempo, pede alguém com uma postura mais fiscalista e com bom, ou o melhor possível, trânsito junto ao Congresso Nacional", afirma.
"[Dario] Durigan, que é o secretário de Política Econômica, seria, teoricamente, o primeiro na linha de sucessão. Mas, por uma questão de postura mais fiscalista, tem se ventilado também a possibilidade, e eu acho que é o melhor nome, de Rogério Ceron."
Durigan possui perfil jurídico e atuará como um gerente do cotidiano administrativo. Esse modelo de sucessão repete a transição de Henrique Meirelles para Eduardo Guardia em 2018. Portanto, o mercado espera uma condução estritamente técnica e sem rupturas.
Para o economista Alexandre Manoel, sócio da consultoria Global Intelligence and Analytics, a sucessão de Haddad não precisa seguir automaticamente a linha hierárquica do Ministério da Fazenda. Embora reconheça os nomes de Durigan e Ceron, ele faz ressalvas.
No caso de Ceron, Manoel pondera que o arcabouço fiscal, sua principal marca, sofreu sucessivas exceções e continua sendo flexibilizado, o que poderia expô-lo ainda mais caso assumisse o comando da Fazenda. Durigan, por ter sido o número dois de Haddad, tenderia, em sua avaliação, a reproduzir o mesmo grau de dependência política.
Para Manoel, o critério central deveria ser o mérito. "Se fosse pegar pelo mérito, quem cumpriu o seu papel?", questiona. Nesse sentido, ele cita o trabalho do secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, que conseguiu elevar a arrecadação e executar a política tributária definida pelo governo.
Manoel também cita o nome do secretário de Reformas Econômicas, Marcos Barbosa Pinto, como um candidato com condições de atuar como um "ministro tampão". "Marcos Pinto tem a cabeça fiscal organizada, entregou a agenda microeconômica ao longo do mandato e conduziu reformas relevantes."
Critério político deve prevalecer
Outro nome lembrado é o de Bernard Appy, ex-secretário especial da Fazenda, figura central na aprovação da reforma tributária. "Olhando para o estágio atual da economia brasileira, entendo que o nome que melhor sintetiza o tipo de sinal de que o país pode se beneficiar em 2026 é Bernard Appy", afirma Carlos Henrique, da Sttart Pay.
"Não por ser o mais óbvio politicamente, mas por representar uma ancoragem estrutural de longo prazo. Appy carrega credibilidade transversal: é respeitado pelo mercado, pelo Congresso e pelo núcleo político do governo, além de estar diretamente associado à reforma mais relevante em curso no país."
Para Manoel, no entanto, o critério político tende a prevalecer. A decisão final vem do Planalto, e o técnico, por mais preparado que seja, depende do respaldo político para conseguir implementar qualquer medida. "Mais do que continuidade administrativa, a sucessão de Haddad escancara o limite da autonomia técnica no atual governo, em que a palavra final permanece concentrada nas mãos do presidente Lula", avalia.
Fabrizio Velloni, economista-chefe da Frente Corretora, faz um contraponto. "Por pior que seja a postura do ministro Haddad, ele ainda tentou estabelecer algum ajuste fiscal e, por isso, esbarrou muito em aliados do Planalto para conseguir implementar algumas medidas", afirma. "Um nome com menos força política e muito associado à base do governo pode comprometer ainda mais a credibilidade fiscal."
Haddad: indisposição para as urnas
Haddad deixa o cargo apostando que os efeitos da isenção do Imposto de Renda, principal bandeira econômica de Lula para 2026, comecem a aparecer já em janeiro. Embora negue qualquer plano eleitoral próprio, nos bastidores não se descarta que ele acabe convocado a disputar o governo de São Paulo como fiador da campanha presidencial. Apesar do visível cansaço após a empreitada, a avaliação é que ele dificilmente negaria um pedido de Lula.
A falta de disposição de Haddad se explica não apenas pelo desgaste acumulado à frente da Fazenda, mas por uma longa sequência de derrotas eleitorais e embates internos que começou ainda em 2016.
Naquele ano, em meio ao avanço da Lava Jato e ao início do colapso do PT, Haddad tentou a reeleição à Prefeitura de São Paulo e obteve apenas 16% dos votos. João Doria venceu no primeiro turno, com 53%, em um resultado que escancarou a rejeição ao petismo na capital.
Dois anos depois, com Lula preso, Haddad virou candidato presidencial quase por inércia partidária. Recebeu a "bênção" do padrinho político dentro da cela da Polícia Federal, em Curitiba, e entrou na campanha rotulado pelos adversários como o "poste do Lula". Perdeu para Jair Bolsonaro, mas fez algo improvável: levou o PT ao segundo turno apenas dois anos após o impeachment de Dilma Rousseff e com seu principal líder na cadeia.
Em 2022, voltou ao campo de batalha, agora na disputa pelo governo de São Paulo. O ambiente seguia hostil, sobretudo no interior do estado. Haddad perdeu para Tarcísio de Freitas, ex-ministro de Bolsonaro, mas sua candidatura teve papel estratégico na apertada vitória de Lula no plano nacional. O prêmio veio depois: o comando da Fazenda no terceiro mandato do petista.
Uma missão inglória na Fazenda
Nos últimos três anos, Haddad ocupou a cadeira mais sensível da Esplanada. Tocou uma agenda econômica que nunca empolgou o mercado, mas foi tratada como exitosa pelo Planalto. Governou sob fogo cruzado: enfrentou resistências no Congresso, críticas da militância e, dentro do próprio governo, teve em Rui Costa, da Casa Civil, seu antagonista mais frequente.
Também virou alvo do PT. Sob a presidência de Gleisi Hoffmann, o partido chegou a classificar como "austericídio" a política de reequilíbrio fiscal defendida pelo ministro, com metas de déficit zero e contenção de gastos. Hoje à frente do Ministério das Relações Institucionais, Gleisi mudou o discurso e passou a operar a favor dele.
Haddad também acabou assumindo papel de articulador político. Tornou-se interlocutor da Câmara quando Arthur Lira rompeu com Alexandre Padilha e, mais recentemente, ajudou a reaproximar Lula de Hugo Motta, o que destravou votações da agenda econômica no fim do ano.
No caminho, atravessou crises como a do Pix, a derrubada do decreto do IOF e ataques vindos de todos os lados, do mercado ao PT. Viu ainda esfriar a relação com Gabriel Galípolo, seu ex-número dois, hoje presidente do Banco Central, em razão da manutenção dos juros elevados.
Apesar disso, deixou marcas: armou o arcabouço fiscal, aprovou a reforma tributária, garantiu a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e, nos estertores do ano legislativo, emplacou o aumento da taxação das bets e das fintechs dentro de um projeto que corta 10% dos benefícios fiscais. O resultado é um governo que entra em 2026 sem grandes bombas econômicas no Congresso.
São Paulo: o pedágio eleitoral
A dívida pública ainda assusta a Faria Lima e a fama gastadora do PT persiste. Mas o desemprego está no menor patamar da história recente, a inflação voltou para dentro da banda da meta e o preço dos alimentos deixou de corroer a popularidade do presidente. São esses trunfos que Lula pretende levar para a campanha da reeleição.
A pressão para voltar às urnas em São Paulo cumpre várias funções. O palanque paulista em 2026, seja como candidato ao Palácio dos Bandeirantes, seja ao Senado, atende à necessidade de uma chapa forte no estado e pode incluir, conforme o cenário, o reposicionamento de Geraldo Alckmin nesse tabuleiro.
Além disso, coloca Haddad como plano B do governo. Se a saúde de Lula, hoje aos 80 anos, sofrer uma reviravolta inesperada, Haddad é o nome pronto no banco de reservas.
Na última entrevista coletiva do ano, o presidente afirmou que Haddad "tem maioridade e biografia" para decidir seu futuro. Em seguida, deixou clara sua preferência: "Eu gostaria que ele fosse candidato."
Nos bastidores de Brasília, circula ainda um cenário alternativo: Haddad fora do governo agora e de volta em 2027 como chefe da Casa Civil, em um eventual Lula 4. Seria o trampolim definitivo para a sucessão presidencial em 2030. Mas, para chegar lá, muitos avaliam que ele ainda terá de pagar mais uma vez o pedágio e encarar outra pedreira eleitoral em São Paulo.





