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A Venezuela caiu da 7ª para a 52ª posição entre os maiores destinos de produtos brasileiros nos 12 anos de governo de Nicolás Maduro, capturado no sábado por tropas de elite norte-americanas em Caracas. As exportações despencaram de US$ 4,8 bilhões em 2013 para US$ 751 milhões em 2025, refletindo o colapso econômico do país vizinho.
Quando Maduro assumiu a presidência da Venezuela em 2013, após a morte de Hugo Chávez, o país comprou US$ 4,8 bilhões em mercadorias. Foi o sétimo principal destino das exportações brasileiras, atrás apenas de China, Estados Unidos, Argentina, Países Baixos (Holanda), Japão e Alemanha.
Em 12 anos, a crise socioeconômica venezuelana reduziu as exportações brasileiras para o país a uma fração do volume anterior. De janeiro a novembro de 2025, a Venezuela foi apenas o 52º importador do Brasil, com US$ 751 milhões em compras, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
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Agronegócio concentrava mais da metade das vendas
A maior parte das compras venezuelanas do Brasil é de produtos do agronegócio. Em 2013, o setor representou US$ 2,6 bilhões das vendas brasileiras para a Venezuela — 54% do valor total. Os dados são do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).
O comércio entre os dois países no setor atingiu seu auge no ano seguinte, quando o mercado venezuelano importou quase US$ 3 bilhões, chegando a ser o quarto principal destino das exportações agropecuárias, atrás apenas de China, Estados Unidos e Rússia.
As exportações brasileiras de proteína animal despencaram. Entre 2013 e 2025, as vendas de carnes, animais vivos e laticínios para o país vizinho caíram de 364,3 mil toneladas para 5,2 mil toneladas — retração de 98,6%. O valor total das exportações de carnes em 2024 (US$ 13 milhões) representou apenas 1% das receitas de 2014 (US$ 1,3 bilhão) — ano de pico das vendas do agronegócio brasileiro para a Venezuela.
O colapso atingiu todos os segmentos:
- Carne de frango: recuo de 200 mil toneladas (2014) para 927 toneladas (2024) — queda de 99,5%.
- Carne bovina: de 160,3 mil toneladas para 723 toneladas no mesmo período, com retração idêntica.
- Animais vivos: de 248,3 mil toneladas para apenas 25 toneladas (-99,9%).
- Leite e derivados: de 39,2 mil toneladas para 2,2 mil toneladas (-94,3%).
Produtos básicos ganham espaço na pauta
Enquanto produtos de maior valor agregado desabaram, commodities menos processadas ganharam espaço na pauta.
As exportações de produtos básicos (com menor processamento industrial) dispararam: é o caso dos cereais (+162,5%), óleo de soja (+718%) e preparações à base de cereais (+183,6%), três dos principais itens enviados pelo Brasil à Venezuela atualmente.
O colapso comercial, porém, é bilateral. Se o Brasil vendeu menos para a Venezuela, também comprou muito menos do país vizinho — refletindo a derrocada da capacidade produtiva venezuelana.
Importações brasileiras encolhem 64%
O valor total de compras brasileiras de produtos venezuelanos despencou de US$ 1,18 bilhão (2013) para US$ 422 milhões (2024), queda de 64,2%, segundo o MDIC.
Fertilizantes substituem petróleo na pauta
Os principais itens que o Brasil comprava eram produtos do petróleo e seus derivados, que correspondiam a 78% de todo o fluxo do comércio, somando US$ 925,8 milhões em 2013.
Já em 2024, os principais produtos venezuelanos importados pelo Brasil foram fertilizantes, que somaram US$ 168,1 milhões em compras, alumínio e seus produtos (US$ 105,3 milhões) e álcoois e derivados (US$ 67,8 milhões).
A Venezuela é dona da maior reserva comprovada de petróleo do mundo, mas a falta de investimentos em infraestrutura ao longo das últimas décadas fez com que a produção sofresse um colapso — explicando por que o Brasil deixou de importar derivados venezuelanos e passou a comprar fertilizantes.
Entre 2005 e 2008, o país produzia 3,4 milhões de barris por dia. O volume caiu para a mínima histórica de 664,8 mil barris diários em 2021. Desde então, o volume cresceu para 960 mil barris diariamente em 2024, nível 64,3% inferior ao registrado em 2014 (2,7 milhões de barris por dia).
A derrocada econômica venezuelana, contudo, não é a única explicação para o encolhimento do comércio bilateral.
Mudança política em Brasília afetou comércio Brasil-Venezuela
Além do agravamento da crise no país de Maduro, o afastamento de Brasília e Caracas no campo comercial também é atribuído por analistas à mudança no governo brasileiro a partir do impeachment de Dilma Rousseff, que deu fim a um período de 14 anos de mandatos do PT, aliado da ditadura chavista.
Durante anos, o comércio bilateral funcionou por meio do Convênio de Pagamentos e Créditos Recíprocos (CCR), um acordo entre países latino-americanos que permite transações sem uso de dólares. Na prática, os bancos centrais compensam as dívidas entre si, evitando que cada país precise ter grandes reservas em moeda estrangeira. Quando um país não paga no prazo, o CCR aciona o Programa Automático de Pagamento (PAP), um parcelamento emergencial que divide a dívida em quatro parcelas mensais.
"Com a mudança de governo no Brasil, em 2016, houve também alterações nos acordos comerciais com a Venezuela, afetando diretamente os resultados comerciais", explicam os pesquisadores Pedro Silva Barros, Raphael Camargo Lima e Helitton Christoffer Carneiro, em artigo publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), braço do Ministério do Planejamento.
"A primeira delas foi a redução dos contatos bilaterais político-diplomáticos com o país. A segunda, derivada da anterior, foi a redução da tolerância brasileira com relação às dívidas da Venezuela com o Brasil, em especial pelo Banco Central (BC) e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)."
Calotes levaram Brasil a abandonar acordo regional
Em 2017, durante o governo Michel Temer (MDB), o Banco Central suspendeu as operações com a Venezuela no CCR devido aos sucessivos atrasos nos pagamentos. Entre 2017 e 2018, o Tesouro Nacional teve um déficit de R$ 1,38 bilhão ao acionar o Fundo Garantidor de Exportações (FGE), um seguro público que protege empresas brasileiras quando compradores estrangeiros não pagam. No caso, o fundo cobriu os calotes venezuelanos.
Em abril de 2019, já no mandato de Jair Bolsonaro (PL), o BC tomou uma decisão de política externa inédita, quando se retirou de forma unilateral do CCR. "Entre as razões apresentadas, a Venezuela foi o motivo primordial", citam os autores do artigo do Ipea.
Para entender a dimensão do colapso que levou a essa ruptura comercial, é preciso olhar para a trajetória venezuelana nas últimas duas décadas.
Crise começou com Chávez e explodiu com Maduro
A crise venezuelana já vem do início dos anos 2000, ainda na gestão de Hugo Chávez, mas agravou-se a partir de 2015 com uma redução na produção de petróleo, base da economia do país, por falta de manutenção e investimento e da queda na cotação do produto.
Apesar de a Assembleia Nacional ter declarado crise humanitária de saúde em 2016, o governo negava o problema e reprimiu violentamente a oposição, levando a um saldo de 5.287 homicídios pelas Forças de Ação Especial do país até 2017, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). As violações contribuíram para o endurecimento de sanções internacionais que isolaram economicamente o regime.
Além da violação de direitos humanos, o regime, sob acusações de impor uma assembleia constituinte controlada pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e tomar poderes do Congresso, além de antecipar eleições presidenciais consideradas ilegítimas, passou a sofrer sanções internacionais, principalmente dos Estados Unidos.




