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Mercado financeiro

Como a vitória de Lula comprometeu as perspectivas econômicas para o Brasil

Com virada de Lula, mercado desfez aposta em mudança de rumo, enquanto dívida elevada, juros altos e novas promessas de gastos aumentam o desafio para o próximo governo
Com virada de Lula, mercado desfez aposta em mudança de rumo, enquanto dívida elevada, juros altos e novas promessas de gastos aumentam o desafio para o próximo governo (Foto: André Borges/EFE)

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A virada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais caiu como um balde de água fria no mercado financeiro, que passou de um cenário de otimismo para um estado de alerta em menos de 24 horas.

Após semanas em que investidores aumentaram a aposta em uma mudança de rumo na política econômica brasileira, a reeleição do petista provocou uma forte reversão das expectativas e recolocou no centro das atenções a dificuldade de conciliar aumento de gastos, dívida elevada e juros altos, problema que há anos limita o crescimento do país.

Na segunda-feira (26), durante o primeiro pregão após o resultado definitivo da eleição, o Ibovespa chegou a cair mais de 17%, levando a B3 a acionar o circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020, época do início da pandemia de Covid-19.

Ao fim do dia, o principal índice da bolsa brasileira recuou 13,88%, para 176.608 pontos. O dólar comercial disparou 8,21%, para R$ 5,403, a maior alta diária da moeda americana desde janeiro de 1999. Na negociação intradiária, chegou a R$ 5,60 durante a manhã.

O choque é ainda mais significativo porque ocorre depois de um movimento exatamente oposto. O primeiro turno das eleições havia sido recebido pelo mercado como uma abertura para uma possível mudança na condução da economia.

A expectativa de vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL), que terminou a etapa inicial do pleito à frente de Lula, levou investidores a aumentar posições em ações brasileiras e a reduzir o prêmio de risco exigido para investir no país.

O chamado Credit Default Swap (CDS) de cinco anos do Brasil, principal termômetro do risco de crédito soberano, havia recuado para cerca de 110 pontos depois do primeiro turno, o menor nível desde fevereiro de 2020.

Ao mesmo tempo, a Bolsa renovava recordes, chegando à máxima histórica de 209.066 pontos no fechamento de 9 de outubro, e o fluxo estrangeiro aumentava. Em outubro, investidores estrangeiros colocaram R$ 13,1 bilhões líquidos na B3 em apenas uma semana, em um movimento que ajudou a alimentar a valorização dos ativos brasileiros.

Do otimismo ao choque em três semanas

Com a vitória de Flávio no primeiro turno, o mercado passou a trabalhar com a possibilidade de uma alternância de poder que, na visão de investidores, poderia trazer uma política fiscal mais restritiva, menor crescimento das despesas e maior previsibilidade para a dívida pública.

Nesse contexto, o ambiente externo também ajudaria: o Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta crescimento de 3,4% da economia mundial em 2027, frente a 3,1% em 2026.

No boletim Focus divulgado na manhã de segunda-feira, antes que o resultado do segundo turno pudesse ser incorporado às projeções, a estimativa para a Selic ao fim do próximo ano havia recuado de 12% para 11,75%.

O problema é que as respostas das instituições foram coletadas até sexta-feira (23), antes da confirmação da vitória de Lula na disputa. Com a reeleição do atual governo, a expectativa para a condução da política fiscal mudou completamente.

“O debate econômico após a eleição precisa considerar quanto do gasto público realmente se transforma em produção e renda”, diz Letícia Moschioni, sócia-funcadora da consultoria Finscale.

Para ela, em um cenário de estímulo fiscal sem compensação permanente, a projeção de crescimento do PIB brasileiro pode migrar, da mediana de 1,31% do último Focus, para 1% a 1,2%, enquanto os juros, para 12,25% a 12,75% em 2027.

As estimativas são as mesmas de Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, em um cenário em que não haja uma sinalização consistente de ajuste fiscal. “O problema de uma expansão fiscal de 1% do PIB está na possibilidade de o custo de financiamento absorver parte do crescimento gerado”, afirma.

Crescimento da dívida pública é o maior problema

A preocupação dos investidores não é apenas uma aposta, mas parte do histórico do atual mandato de Lula. Em agosto, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB, o equivalente a R$ 11,1 trilhões, segundo o Banco Central (BC). O patamar representa um crescimento de 11,2 pontos percentuais do PIB desde o dezembro de 2022.

O custo de carregar essa dívida também é elevado. Somente os juros nominais pagos pelo setor público somaram R$ 1,182 trilhão em 12 meses até agosto, o equivalente a 8,86% do PIB. O déficit nominal, que inclui o resultado primário mais os juros, alcançou 9,48% do PIB.

A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão técnico ligado ao Senado, projeta que a dívida bruta pode chegar a 86,4% do PIB no fim de 2027.

Embora o governo tenha apresentado um Projeto da Lei Orçamentária Anual (Ploa) para 2027 com previsão de superávit primário de R$ 18,6 bilhões, a IFI calcula que o resultado deverá ser negativo em R$ 86,1 bilhões. Para tentar cumprir formalmente a meta, a instituição estima que seria necessário contingenciar pelo menos R$ 35,7 bilhões em despesas.

Para Araújo, apenas eliminar o déficit primário projetado pela IFI já exigiria uma melhora de aproximadamente R$ 102 bilhões nas contas públicas.

Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, diz que, embora o governo fale em medidas de contenção de despesas, o mercado exigirá resultados concretos. “Para sustentar a queda dos juros até 2028, vejo como necessário um ajuste que permita alcançar superávit primário de pelo menos 1% do PIB, equivalente a aproximadamente R$ 150 bilhões anuais, em valores projetados”, afirma.

Na avaliação de Lima, o principal risco do próximo mandato seria tentar acelerar a economia ampliando gastos sem compensação fiscal.

Nesse cenário, estimo que metade ou mais do estímulo inicial poderia ser neutralizada pela alta do dólar, pela inflação e pelo encarecimento do crédito. O resultado seria menos espaço para cortes da Selic, maior pressão sobre a Bolsa e adiamento de investimentos privados”

Juros devem continuar elevados

Embora a taxa básica de juros seja definida pelo Banco Central e sirva como referência para bancos e demais instituições financeiras, os juros de longo prazo são formados no mercado. Se os investidores passam a acreditar que o governo terá dificuldade para controlar a dívida, podem exigir uma remuneração maior para comprar títulos públicos de com vencimento mais distante.

O primeiro pregão depois da eleição reflete essa expectativa. As taxas dos contratos de juros futuros dispararam, em alguns casos em mais de dois pontos percentuais. O DI (taxa de depósito interbancário) para janeiro de 2029 chegou a 15,25%, contra 12,64% no fechamento anterior.

Na prática, mesmo que o BC consiga reduzir a Selic, uma curva longa elevada pode impedir que o crédito para empresas e consumidores caia na mesma proporção.

“O crédito é um dos principais canais pelos quais a política fiscal chega à economia real”, explica Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco. Para ele, uma expansão de gastos de 1% do PIB, equivalente a aproximadamente R$ 145 bilhões, poderia ter parte significativa de seu efeito anulada pela reação dos juros e do dólar.

A preocupação é a mesma de Cassio Viana de Jesus, CIO da Pilar Capital. “O cenário-base anterior à definição eleitoral poderá sofrer deterioração caso o governo reeleito não apresente, de forma tempestiva e convincente, um compromisso efetivo com a sustentabilidade fiscal”, afirma.

Para ele, sem uma sinalização clara de equilíbrio das contas públicas, investidores podem exigir prêmios de risco maiores, pressionando a curva de juros e encarecendo o financiamento.

Empresas já sentem peso do crédito

O alerta não é para um cenário novo, mas de um agravamento da situação já enfrentada pelos empresários. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) com 1.701 empresas mostra que os juros são o principal obstáculo para a contratação ou renovação de crédito.

Entre as companhias que tiveram dificuldades para obter financiamento de curto e médio prazo, 75,9% apontaram as taxas elevadas como um dos principais entraves. Nas operações de longo prazo, o percentual foi de 68,7%.

Considerando as companhias que efetivamente procuraram financiamento, 24,7% não conseguiram contratar ou renovar crédito de curto ou médio prazo. No crédito de longo prazo, a taxa de insucesso chegou a 37,2%, ante 33% no ano anterior.

O problema é ainda maior para as pequenas e médias empresas. No crédito de longo prazo, quase metade das pequenas (48,2%) e das médias (48,1%) que procuraram financiamento não conseguiu obtê-lo. Entre as grandes, a taxa foi de 29,9%.

A pesquisa revela uma questão ainda mais grave: o destino do crédito. Entre as empresas que buscaram financiamento de longo prazo, 28,7% tinham como principal objetivo o capital de giro, índice superior às pretendiam usar os recursos para comprar máquinas e equipamentos (23,6%).

Em outras palavras, o dinheiro que poderia ajudar a aumentar a capacidade produtiva está sendo usado em grande parte para manter as empresas funcionando por meio de endividamento.

 “O Brasil tem um desafio de produtividade que os gastos públicos, isoladamente, não resolvem”, afirma Antonio Patrus, CEO da Bossa Invest.

Inflação limita resposta do BC

Outro risco considerado pelos investidores com o resultado eleitoral é a inflação. O Focus divulgado na segunda-feira projetava IPCA de 4,34% para 2027, acima da meta de 3%, embora dentro do intervalo de tolerância, cujo teto é de 4,5%. Para 2026, a expectativa era de 5,19%.

Uma eventual desvalorização persistente do real, como a observada no primeiro pregão pós-eleições, acrescenta outra pressão. O câmbio afeta diretamente os preços de produtos importados e de itens com componentes ou preços internacionais.

Além disso, influencia as expectativas de inflação, que são uma das variáveis observadas pelo BC para definir a política monetária.

Para Sidney Lima, tentar acelerar a economia ampliando gastos sem compensação fiscal resultará em um cenário em que “metade ou mais” do estímulo inicial pode ser neutralizada pela alta do dólar, pela inflação e pelo encarecimento do crédito.

Nesse contexto, investidores do mercado de capitais também passam a exigir retornos maiores para aplicar em empresas e projetos de longo prazo. “O resultado seria menos espaço para cortes da Selic, maior pressão sobre a bolsa e adiamento de investimentos privados”, afirma.

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