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Eleitora vota para prefeito em São Paulo: resultado das eleições municipais traz lições para a disputa presidencial de daqui a dois anos.
Eleitora vota para prefeito em São Paulo: resultado das eleições municipais traz lições para a disputa presidencial de daqui a dois anos.| Foto: Nelson Almeida/AFP

Os resultados do primeiro turno das eleições municipais mostram um enfraquecimento da onda da nova política, que foi responsável pela eleição do presidente Jair Bolsonaro e de vários outsiders em 2018. Ao contrário do último pleito, o eleitor desta vez evitou novatos e, na maioria dos casos, votou pela continuidade na eleição majoritária.

Partidos e políticos com tradição, como o DEM de ACM Neto e o MDB, saem fortalecidos das eleições municipais de 2020. No campo da esquerda, o PT sofreu novos abalos, voltando a encolher de tamanho, e o Psol saiu do primeiro turno como a grande surpresa.

Analistas e líderes políticos apontam que as eleições do último domingo (15) refletiram o sentimento do momento. Se em 2018 ser um político de fora do establishment era um ativo importante; 2020 mostrou que essa característica não é mais determinante. Sobre 2022, eles concordam que é arriscado apontar com exatidão como o resultado das eleições municipais deste ano irá influenciar o eleitor na corrida presidencial de daqui a dois anos.

No aspecto ideológico, integrantes da esquerda comemoraram a ressurreição das candidaturas progressistas principalmente em duas das mais importantes cidades do país: Rio de Janeiro e São Paulo. Na capital paulista, Guilherme Boulos (Psol) ganhou o espaço do PT e enfrentará Bruno Covas (PSDB) no segundo turno. Além disso, tanto em São Paulo quanto no Rio, o Psol detém agora a terceira maior bancada nas câmaras de vereadores.

Já entre os políticos da direita, há uma clara divisão. Alguns parlamentares conservadores alegam, sem provas, a existência de fraudes. O presidente Jair Bolsonaro tem questionado a legitimidade do pleito de 2020. Outros políticos de direita defendem uma autocrítica visando as eleições de 2022 – algo que o PT, por exemplo, nunca vez.

Já o partidos de centro não têm do que reclamar das eleições de 2020. Eles foram os principais vitoriosos. Um dos destaques é o DEM, sigla de centro-direita. Tido como partido quase extinto durante os anos do PT no governo federal, o DEM conquistou três capitais já no primeiro turno: Salvador, Florianópolis, Curitiba. E tem possibilidade de arrematar mais duas: Rio de Janeiro e Macapá.

No Rio, Eduardo Paes é apontado como favorito. Na segunda, um dos favoritos é Josiel Alcolumbre, irmão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. As eleições não foram realizadas neste domingo (15) na capital do Amapá em virtude da crise energética no estado — a votação deve ocorrer no mês que vem. Em 2016, o DEM havia conseguido eleger apenas um prefeito de capital: ACM Neto, em Salvador.

Nas eleições de 2020, em todo país, o partido conquistou pelo menos 424 prefeituras – 152 a mais que em 2016 . A sigla foi a que conseguiu, até o momento, ter o maior crescimento no número de municípios conquistados em comparação com o pleito de quatro anos atrás.

Outros partidos de centro também tiveram bom desempenho, tais como o PP, o Republicanos e o Avante. O PP do deputado federal Arthur Lira (AL) levou, até o fechamento desta reportagem, 682 cidades (ainda havia algumas cidades com apuração em andamento). O Republicanos conquistou 208 municípios. E o nanico Avante ganhou 79 prefeituras. Em 2016, o partido tinha 12 prefeituras.

Figuras consideradas mais tradicionais e conhecidas do eleitor tiveram votações expressivas em todo o Brasil. Em Goiânia, a disputa ficará entre dois velhos políticos: Maguito Vilela (MDB) contra Vanderlan Cardoso (PSD); Porto Alegre terá um segundo turno entre Sebastião Melo (MDB) e Manuela D’Ávila (PCdoB); e em Recife, a disputa ficará no âmbito da família Arraes — João Campos (PSB) contra Marília Arraes (PT). O primeiro é bisneto de Miguel Arraes; a segunda, neta. Arraes foi ex-governador de Pernambuco e considerado uma figura história no estado.

Outro dado que confirma a tese de que o eleitor não quis fazer apostas arriscadas está no número de prefeitos de capitais reeleitos em primeiro turno. Das 26 capitais, seis candidatos conseguiram se reeleger em primeiro turno: os prefeitos de Curitiba (PR), Rafael Greca (DEM); de Belo Horizonte (MG), Alexandre Khalil (PSD); de Salvador (BA), Bruno Reis (DEM); de Florianópolis (SC), Gean Loureiro (DEM); de Natal (RN), Alvaro Dias (PSDB); e de Campo Grande (MT), Marquinhos Trad (PSD). Além disso, em Palmas, a vice-prefeita em 2016 Cintia Ribeiro (PSDB) conquistou a prefeitura e dará continuidade à gestão de Carlos Amastha.

“Esse foi o pleito de continuidade. Prefeitos e prefeitas bem avaliados tiverem conquistas galácticas”, diz o analista político Maurício Moura. “A pandemia que assola o planeta ajudou a dar visibilidade aos prefeitos e prefeitas. A grande maioria se beneficiou de choques positivos de popularidade que pavimentaram um sólido caminho para as urnas e complicaram a vida da oposição.”

Como o resultado das eleições municipais influencia a disputa em 2022

Ainda é cedo para se fazer qualquer projeção para as eleições de 2022 com base nos resultados do pleito de 2020. Principalmente pelo fato de que nas eleições municipais, o eleitor adota uma postura mais pragmática em comparação com o pleito para deputados federais, senadores e presidente da República. Isso não significa, porém, que os resultados das urnas não emitam sinais de alertas aos principais presidenciáveis.

Bolsonaro viu seus candidatos serem derrotados em São Paulo (SP), Belo Horizonte (MG), Recife (PE) e Manaus (AM). Bolsonaro entrou na campanha de sete capitais brasileiras. Perdeu cinco. Em apenas duas, apoiou candidatos que foram para o segundo turno: o atual prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos) e o deputado federal, Capitão Wagner (Pros), em Fortaleza. Internamente, as campanhas de Crivella e Wagner creditam mais ao recall de ambos do que necessariamente a um impulsionamento de Bolsonaro.

Assessores do Palácio do Planalto admitem que o resultado não foi favorável ao presidente, embora longe de ser catastrófico. O próprio Bolsonaro minimizou o resultado das urnas. “Há 4 anos Geraldo Alckmin elegeu João Doria prefeito de São Paulo no primeiro turno. Dois anos depois, Alckmin obteve apenas 4,7% dos votos na disputa presidencial”, escreveu no Twitter. O presidente também complementou: “A esquerda sofreu uma histórica derrota nessas eleições, numa clara sinalização de que a onda conservadora chegou em 2018 para ficar”.

A avaliação de derrota da esquerda, contudo, não foi consensual nem mesmo dentro do bolsonarismo. Diante das derrotas de candidatos apoiados pelo presidente, o assessor especial para assuntos internacionais de Bolsonaro, Filipe Martins, já fala em autocrítica dos candidatos da direita.

“Enquanto batíamos cabeça para fazer o básico e tentar nos organizar, a esquerda se renovou, assimilou as lições de 2018 e soube usar a internet e a nova realidade política a seu favor. Ou fazemos a devida auto-crítica (sic), ou nossos erros cobrarão um preço ainda maior no futuro”, disse Martins pelas redes sociais.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), também não pode cantar vitória neste primeiro momento. Ele foi obrigado a se esconder durante toda a campanha do prefeito paulistano Bruno Covas (PSDB), candidato à reeleição, por causa dos altos índices de rejeição.

No Maranhão, outro presidenciável, o governador Flávio Dino (PCdoB) viu seus dois candidatos a prefeito na capital do estado fracassarem de forma retumbante. A derrota de Dino também abriu margem para ressuscitar um outro movimento político que até então se achava sepultado: o sarneísmo. Os dois candidatos que chegaram ao segundo turno têm alguma relação com a família Sarney. Essa é a segunda vez que a capital do estado não escolhe um nome indicado pela esquerda desde 1989.

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