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Os debates eleitorais realizados bem próximos à votação de segundo turno fazem parte da tradição democrática e da memória do eleitor brasileiro. Desde 1989, o país voltou a eleger o comandante do Palácio do Planalto pelo voto direto, e aquela primeira eleição entrou para a história, também, pela então novidade dos debates televisivos.
De lá pra cá, o formato mudou, mas os debates no segundo turno continuam mobilizando campanhas, com potencial decisivo no voto dos eleitores indecisos.
Na noite desta sexta-feira (23), os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltam a se encontrar, desta vez em debate realizado pela Rede Globo. O primeiro e tão aguardado confronto direto entre os dois ocorreu no último domingo, na Band TV.
Ataques, acusações e polêmicas: os debates de 2º turno mais marcantes das eleições no Brasil
Collor x Lula em 1989
Líder das pesquisas de intenção de voto nas eleições de 1989, a primeira desde a redemocratização do país, Fernando Collor de Mello (PRN) preferiu não participar dos primeiros debates televisivos. No segundo turno, ele confrontou Lula nos debates e o último encontro antes da votação entrou para a história da política brasileira com repercussões na forma de se fazer a cobertura eleitoral.
O debate do dia 14 de dezembro de 1989 foi transmitido por Globo, Bandeirantes, Manchete e SBT, três dias antes da votação. Com uma pasta nas mãos — estratégia eleitoral que teria deixado Lula abalado — Collor se saiu melhor no debate transmitido na semana final do segundo turno.
A campanha de Collor havia usado a propaganda eleitoral para apresentar denúncia da ex-namorada do petista Mirian Cordeiro, que acusou Lula de forçá-la a fazer o aborto de Lurian. Em resposta, Lula apareceu no programa eleitoral ao lado da filha.
Apesar da polêmica envolvendo a menina e a troca de acusações no último encontro, o debate também entrou para a história por causa das edições feitas para o Jornal Hoje e o Jornal Nacional, ambos da Globo, cujas exibições foram ao ar às vésperas da votação. O canal mais assistido do país foi acusado de exibir matérias com edições tendenciosas sobre os melhores momentos dos candidatos no debate, o que teria favorecido a vitória de Collor.
O “caçador de marajás” foi eleito naquele ano com 53,03% dos votos válidos (35.090.206 votos) contra 46,97% de Lula (31.075.803 votos). Depois desse episódio, a imprensa brasileira deixou de editar debates presidenciais para exibir os melhores momentos dos encontros entre os candidatos.
Lula x Alckmin em 2006
O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) — hoje candidato à reeleição na chapa de Lula — foi um dos mais ferrenhos críticos do petista durante debates eleitorais no período em que ele era uma das principais lideranças tucanas do país.
Em 2006, Alckmin foi o escolhido pelo PSDB, então principal partido da oposição, para concorrer pela sigla contra a reeleição de Lula. O governo petista sofria a maior crise do primeiro mandato devido ao escândalo do mensalão no ano anterior, quando o então chefe da Casa Civil José Dirceu (PT-SP) foi acusado de comandar um esquema de compra de apoio político na Câmara dos Deputados.
Alckmin teve 41,64% dos votos válidos contra 48,61% de Lula no primeiro turno. Na campanha direta entre os dois, Alckim subiu o tom e partiu para o ataque contra o petista nos debates. “Se tem alguém que não tem moral para falar de ética é o governo Lula”, disparou o então candidato do PSDB no debate da Band.
No último encontro, realizado pela Rede Globo, Alckmin manteve postura mais agressiva contra Lula. “O Brasil não pode mais continuar nesse retrocesso de natureza ética. O Brasil não pode mais continuar com governo ineficiente, 34 ministérios, desperdício de dinheiro, governo para os companheiros e para patota”, criticou.
A mudança de postura do tradicional político, conhecido pela moderação e pela falta de carisma, não foi aceita pelo eleitorado brasileiro. Lula foi eleito com 60% e Alckmin teve menos votos do que no primeiro turno, deixando as urnas com 39,1% dos votos válidos.
Dilma Rousseff x Aécio Neves em 2014
A eleição de 2014 foi aquela em que os tucanos tiveram mais próximos de vencer o lulismo e voltar a governar o país após as gestões de Fernando Henrique Cardoso. Novamente, o PT enfrentava denúncias de corrupção, após o início da operação Lava Jato durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff.
O tema foi a principal munição dos adversários e, após Aécio surpreender na reta final do primeiro turno, o tucano passou a ter um desempenho melhor nos debates, enquanto Dilma passou a ser questionada sobre a corrupção na Petrobras. “Ou a senhora foi conivente ou a senhora foi incompetente para cuidar da maior empresa pública brasileira”, disse o ex-governador mineiro no debate do SBT.
No embate final da Rede Globo, o tucano questionou Dilma sobre o financiamento de um porto cubano com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “O que o seu governo tem a esconder em relação ao financiamento do porto de Mariel em Cuba?”, perguntou Aécio.
Dilma desconversou e atacou a gestão tucana no estado de Minas. “O meu governo, nada, agora acredito que o seu tem muito que esconder quando se trata dos gastos com publicidade”, retrucou a candidata.
Apesar do desempenho nos debates e da ascensão do voto antipetista, o então candidato do PSDB — hoje presidente nacional da sigla — não conseguiu vencer a eleição em uma das disputas mais apertadas da democracia brasileira: Dilma foi reeleita com 51,6% dos votos válidos, contra 48,3% para Aécio. A diferença foi de aproximadamente 3,5 milhões de votos a favor da petista.
Jair Bolsonaro x Lula em 2022
Na última eleição presidencial, Jair Bolsonaro (PL) e Lula — os dois maiores líderes políticos da história recente do país — ficaram frente a frente no segundo turno. O debate da Rede Globo foi realizado no dia 28 de outubro de 2022, dois dias antes da votação nas urnas.
O então presidente Bolsonaro lembrou da prisão do opositor durante a operação Lava Jato e do histórico de denúncias de corrupção contra os aliados de Lula nos governos petistas. “Os seus ministros quando deixaram o governo foram pra cadeia”, afirmou Bolsonaro.

Bolsonaro não poupou nem o mediador do debate da Globo, o jornalista William Bonner, que explicou a situação eleitoral de Lula para concorrer ao Palácio do Planalto após as anulações dos processos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que haviam condenado o petista. “Você [Lula] dizer que foi absolvido? Só se foi pelo Bonner”, retrucou o ex-candidato do PL.
Em 2022, a Globo passou a adotar o formato de debate com "banco de tempo" para administração própria dos candidatos, com permissão para que eles andassem pelo estúdio, sem obrigatoriedade de permanecer no púlpito designado a cada um. Assim como no debate contra Flávio no último domingo (18), Lula teve dificuldades com o modelo de confronto direto e chegou a pedir para Bolsonaro se afastar. “Não quero ficar perto de você”, afirmou o petista na ocasião.
Em outro momento, Lula questionou Bolsonaro sobre a compra de 35 mil caixas de Viagra para as Forças Armadas. “O Viagra é usado para vários tratamentos. A governadora do Rio Grande do Norte também comprou”, respondeu Bolsonaro, lembrando da ex-governadora petista Fátima Bezerra, aliada de Lula.
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