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Público x bastidores

Kassab se afasta de Tarcísio e coloca bonde de presidenciáveis na rua 

Eventos de filiação de prefeitos e vereadores ao PSD, nos próximos dias, é jogada de Kassab para demonstrar força política no estado de São Paulo, vista por alguns analistas como um recado ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Eventos de filiação de prefeitos e vereadores ao PSD, nos próximos dias, é jogada de Kassab para demonstrar força política no estado de São Paulo, vista por alguns analistas como um recado ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). (Foto: Mônica Andrade/Governo de SP)

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Enquanto o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), se encontrava com o pré-candidato do PL à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro, na manhã da última sexta-feira (27) no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista — onde discutiam, entre outras coisas, quem seria o vice ideal na chapa à reeleição no estado — o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, publicava em seu Instagram: “Vão se desiludir os que apostam num afastamento entre mim, o PSD e Tarcísio de Freitas”.

"De maneira oficial, tenho transmitido desde 2022 que o PSD abraçou o projeto do governador Tarcísio de Freitas. Vamos continuar juntos num projeto de São Paulo e Brasil”, afirma Kassab na mensagem — ele é secretário de Relações Institucionais da gestão Tarcísio em São Paulo. Na postagem, ele publica junto um vídeo de uma entrevista do governador na noite anterior, onde ele também nega qualquer problema com seu secretário.

Após semana de recados diretos e indiretos passados por meio de declarações à imprensa, por meio de aliados e nas redes sociais, os dois decidiram colocar panos quentes no conflito que já se fazia aberto em meio à composição das chapas para as eleições deste ano. Nos bastidores, no entanto, a realidade é outra e segue tensionada. 

Kassab era o principal articulador e entusiasta de um projeto eleitoral alternativo para a direita que colocava o governador de São Paulo como cabeça de uma chapa para enfrentar o presidente Lula e o PT em sua tentativa de reeleição à Presidência da República. Contrariado com a fidelidade demonstrada por Tarcísio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — o governador de São Paulo declarou reiteradamente que tentará a reeleição e apoiará firmemente a candidatura de Flávio à Presidência — Kassab agora tenta viabilizar um dos seus três pré-candidatos a presidente "colocando o bonde na rua”, com uma série de eventos ao redor do estado paulista nos próximos dias.

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Tarcísio e Kassab mandaram recados e respostas em público

Em janeiro, após Tarcísio visitar Bolsonaro na Papudinha, em Brasília — onde o ex-presidente cumpre pena por tentativa de golpe de Estado —, e anunciar seu apoio à candidatura presidencial de Flávio, Kassab afirmou que "é importante que uma personalidade como ele, que é governador de São Paulo, que legitimamente tem as pretensões de comandar o país um dia e, se não tem, muita gente no Brasil quer que ele tenha, ele precisa mostrar que tem a sua identidade".

Em entrevista ao vivo ao portal UOL Kassab continuou: "E identidade significa ser bom caráter, ele tem que ser, evidentemente, reconhecido, tem que estar sempre mostrando qual foi a importância do ex-presidente Bolsonaro na sua carreira, na sua eleição de governador... Mas é fundamental que ele tenha a sua identidade. Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade, outra coisa é submissão".

Tarcísio não gostou, e no dia seguinte disse que sua amizade com Bolsonaro não tinha nada a ver com submissão. “Eu sempre vou ser grato a quem me estendeu a mão, a quem abriu as portas”, disse a jornalistas após um evento oficial na capital.

"É fácil você estar do lado quando a pessoa tá bem. Difícil, e você não vê muito isso na política, é estender a mão quando a pessoa está na pior, quando a pessoa precisa da sua ajuda, quando a pessoa perdeu o poder, quando a pessoa está privada da sua liberdade. E é nesse momento que os amigos aparecem pra dizer 'tô contigo, conta comigo'. Isso não tem absolutamente nada a ver com submissão", afirmou.

Na quinta-feira da semana passada (dia 19), o governador paulista voltou ao tema durante um evento em Itapecerica da Serra, na região metropolitana da capital. “As pessoas, às vezes, querem rotular lealdade como submissão. Infelizmente, amizade e lealdade viraram atributos raros na política”, disse a jornalistas.

O que foi interpretado como uma indireta de Kassab ao governador de São Paulo veio um dia depois, quando o presidente do PSD usou as redes sociais para dizer que em sua vida política tinha tido o privilégio de ter tido “bons amigos e conselheiros”. Em meio a esse clima de conflito entre os dois, Kassab coloca seu bonde de correligionários presidenciáveis na rua com uma rodada de eventos políticos a partir do fim desta semana ao redor de São Paulo.

Leite, Ratinho Jr. e Caiado expõem projeto de PSD ao Brasil

Na próxima sexta-feira (6), o trio de governadores Eduardo Leite (Rio Grande do Sul), Ratinho Junior (Paraná) e Ronaldo Caiado (Goiás) participam de um debate sobre o projeto do PSD para o Brasil, no clube Monte Líbano, em São Paulo. A caravana segue pelos dias seguintes, no estado, e deve passar por Carapicuíba, Itapevi, Presidente Prudente, Santos e Sorocaba.

Em quase todas as paradas, a ideia é promover o trio de pré-candidatos em meio a eventos de filiação de prefeitos e vereadores ao PSD — uma demonstração de força política no estado vista por alguns analistas como um recado ao governador.

O movimento de atração de novos quadros para o PSD, aliás, é mais um motivo de tensão entre o secretário de governo e o chefe do Executivo paulista nesta temporada pré-eleitoral.

Racha na base aliada 

Integrantes da base aliada de Tarcísio no estado, do PP ao PL e passando pelo MDB e o próprio Republicanos, têm reclamado ao governador sobre o apetite e agressividade política de Kassab para filiar novos políticos em São Paulo. Levantamento publicado pelo jornal Folha de S. Paulo mostra que o PSD passou de 46 para 329 prefeitos filiados no estado ao longo dos últimos 10 meses.

Com esse movimento, a sigla domina simplesmente 51% dos 645 municípios paulistas. Apesar do afastamento, críticas, projeto político próprio e até possibilidade de desembarque do governo estadual, como ventilou-se em colunas políticas nos últimos dias, Kassab ainda tenta viabilizar seu próprio nome como vice de Tarcísio na disputa em São Paulo, sem no entanto embarcar oficialmente na candidatura presidencial do filho do ex-presidente Bolsonaro.

De acordo com aliados do governador, só quem estiver comprometido com o projeto presidenciável de Flávio Bolsonaro poderá compor o palanque de Tarcísio nestas eleições. E, assim, não seria cogitada a possibilidade de Kassab "sequer passar perto da campanha" de Tarcísio se o PSD confirmar o lançamento de um candidato próprio a presidente da República.

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Vaga de vice de Tarcísio tem disputa entre aliados

Além de Kassab, disputam a vaga de vice na chapa de Tarcísio o ocupante atual do posto, Felício Ramuth (PSD), e o presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), André do Prado (PL). Ramuth seria o favorito de Tarcísio, na medida em que se revelou um vice leal e colaborativo ao longo deste primeiro mandato.

Prado é apoiado por Flávio Bolsonaro, seu correligionário no PL, como o melhor nome para a vaga. "Meu amigo Tarcísio, vamos estar juntos não apenas em São Paulo, mas devolvendo a esperança a todos os brasileiros”, publicou Flávio Bolsonaro no Instagram após o encontro com o governador paulista no Palácio dos Bandeirantes.

"Vamos fazer história juntos, construindo o 'Projeto Brasil' para recolocar o país no caminho da prosperidade”, afirmou. Tarcísio compartilhou a postagem— ao contrário do que fez com o afago público do secretário estadual.

Pela tarde, ambos seguiram juntos para a Alesp, onde participaram de uma sessão solene em homenagem ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. O evento marcou a primeira aparição pública conjunta de Tarcísio e Flávio desde o lançamento da pré-candidatura do senador ao Planalto.

Durante o discurso, Tarcísio se referiu a Flávio como “futuro presidente do Brasil” e afirmou que os dois tiveram um “excelente papo sobre o Brasil”.  Na sequência, o senador retribuiu as declarações e afirmou que “estava aguardando o momento de estar ao lado do governador Tarcísio”.

“É o momento mais importante das nossas vidas para os próximos 40 anos”, acrescentou. A presença de Flávio na Alesp foi interpretada como gesto de prestígio a André do Prado, que também conta com o apoio de Valdemar.

Ignorado no encontro do Palácio dos Bandeirantes e na Alesp na última sexta-feira, Kassab ainda não desistiu de conseguir seus principais objetivos nesta disputa: entrar como vice na chapa de Tarcísio em São Paulo — o que prepararia terreno para sua própria candidatura ao governo do estado em 2030 —, e ter um candidato presidenciável próprio, capaz de chegar ao segundo turno.

Caso isso não seja possível, deve “vender caro” seu apoio ao vencedor. Um aliado próximo de Kassab que prefere falar reservadamente confirmou à Gazeta do Povo que o presidente do PSD não descarta inclusive um "apoio crítico" ao Lula no segundo turno, se isso for considerado por ele como inevitável.

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