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Perfil do presidente reeleito

Lula conquista 4º mandato com desafio de pacificar país, consolidar legado e criar sucessor

Com o feito inédito de conquistar quarto mandato após virar a votação do primeiro turno 2026, Lula consolida-se como a figura mais longeva e influente da política nacional desde a redemocratização.
Com o feito inédito de conquistar quarto mandato após virar a votação do primeiro turno 2026, Lula consolida-se como a figura mais longeva e influente da política nacional desde a redemocratização. (Foto: Ricardo Stuckert/Campanha PT)

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Ao conquistar seu quarto mandato presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) consolida uma posição singular na história política brasileira. O ex-metalúrgico de 81 anos assume novamente o Palácio do Planalto a partir do ano que vem e, assim, consolida-se como a figura mais longeva e influente da política nacional desde a redemocratização.

Vencedor depois de virar a votação — feito inédito nas disputas presidenciais brasileiras — em mais uma disputa eleitoral acirrada, o líder do Partido dos Trabalhadores (PT) reafirma sua capacidade de mobilização popular, ao mesmo tempo em que se depara com o desafio imediato de governar um país profundamente polarizado, gerenciar contas públicas sob forte pressão e escrutínio e construir pontes com um Congresso de perfil majoritariamente conservador.

Nascido em 27 de outubro de 1945 no povoado de Caetés, em Garanhuns (PE), Lula é o sétimo dos oito filhos de um casal de lavradores. A infância dele foi marcada pela extrema pobreza no semiárido nordestino e pela migração para o estado de São Paulo em um caminhão "pau-de-arara", em 1952, ao lado da mãe, Dona Lindu, e dos irmãos.

Instalado na Baixada Santista e posteriormente na capital paulista, Lula começou a trabalhar ainda na infância como engraxate e office boy. Formou-se como torneiro mecânico pelo Senai na juventude, ingressando no setor metalúrgico do ABC Paulista — experiência que moldou sua identidade pública e resultou na perda do dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho. 

A projeção pública de Lula teve início nos anos 1970, quando assumiu a liderança do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. À frente das históricas greves operárias do ABC no final daquela década, desafiou o regime militar, chegou a ser preso com base na Lei de Segurança Nacional e emergiu como a principal liderança de uma nova força sindical no país.

Da fundação do PT à Presidência da República

Em 1980, Lula foi um dos articuladores da fundação do PT, reunindo sindicalistas, intelectuais, movimentos sociais e comunidades eclesiais de base. Participou ativamente da campanha das "Diretas Já" e foi eleito deputado federal constituinte em 1986 com votação recorde. 

A trajetória rumo ao Poder Executivo exigiu persistência. Após disputar e ser derrotado nas eleições presidenciais de 1989 (vencida então por Fernando Collor de Mello), de 1994 e novamente em 1998 (ambas vencidas por FHC), Lula adaptou seu discurso político e ampliou alianças ao lançar a "Carta aos Brasileiros" em 2002, com o foco em acalmar o mercado financeiro. A mudança de discurso e posicionamento de uma esquerda mais radical e socialista para uma centro-esquerda de viés social-democrata deu certo. 

Conquistou a Presidência da República, foi reeleito e governou o país entre 2003 e 2010. Seus dois primeiros mandatos foram marcados pela explosão das commodities, pela expansão de programas de transferência de renda como o Bolsa Família, pela redução do desemprego e pela projeção do Brasil no cenário internacional. Deixou o cargo com índices recordes de aprovação e viabilizou a eleição de sua sucessora, Dilma Rousseff (PT) — relativamente desconhecida dos eleitores, que nunca havia disputado uma eleição.

A derrocada com a operação Lava Jato

O período subsequente, contudo, representou o momento de maior turbulência na carreira política de Lula. Com o avanço das investigações da operação Lava Jato a partir de 2014, o presidente e o PT tornaram-se alvos centrais de apurações sobre esquemas de corrupção na Petrobras e em órgãos públicos.

Lula foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro nos casos do triplex do Guarujá e do sítio de Atibaia, permanecendo preso por 580 dias entre 2018 e 2019 na Superintendência da Polícia Federal (PF) em Curitiba. Ele sempre negou as acusações, alegando ser vítima de perseguição política e lawfare (uso abusivo dos processos judiciais e do sistema jurídico).

Em 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as condenações contra Lula por entender que a 13ª Vara Federal de Curitiba era incompetente para julgar os processos e reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro, restituindo os direitos políticos do petista e permitindo o retorno dele como candidato nas eleições de 2022. 

Escândalo mais recente envolve investigação sobre o filho de Lula

A conjuntura recente do entorno do presidente foi marcada pelo surgimento de apurações envolvendo o primogênito dele, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. As suspeitas surgiram no âmbito de investigações da Polícia Federal sobre desvios no INSS, na operação “Sem desconto”, desdobrando-se em inquéritos no STF sobre suposto tráfico de influência em articulações com a Dataprev e o Ministério da Saúde. Os casos seguem abertos sob escrutínio da PF. 

Na esfera pessoal, a vida do presidente reeleito foi acompanhada por perdas significativas e recomeços. Lula ficou viúvo pela primeira vez em 1971, quando Maria de Lourdes, com quem era casado desde 1969, morreu grávida do primeiro filho. O episódio marcou a vida do presidente, que acredita que ela e a criança não tiveram o atendimento médico necessário para evitar a tragédia na rede pública de saúde da região metropolitana de São Paulo.

Em 2017, Lula ficou viúvo novamente, desta vez de Marisa Letícia, companheira por mais de quatro décadas, primeira-dama em seus dois primeiros mandatos e mãe de quatro filhos do petista. Ao todo, Lula tem cinco filhos e oito netos. 

Cinco anos depois, casou-se com a socióloga Rosângela da Silva, conhecida como Janja. Vencedor de um câncer de laringe diagnosticado em 2011, o petista frequentemente recorre à sua capacidade de superação física e pessoal para projetar vigor e capacidade de liderança política.

Lula tem desafio de reverter desaprovação à gestão federal

O novo mandato presidencial abre um capítulo desafiador na longeva vida pública do líder petista. Se em seus governos anteriores o contexto econômico e a estabilidade política garantiram margem de manobra, a conjuntura atual impõe a necessidade de conciliar responsabilidade fiscal, demandas de crescimento econômico e atenção social sob intensa pressão social e política. 

Pressionado por um índice de desaprovação maior que o de aprovação, e tendo que lidar com a decepção e insatisfação com as entregas do governo federal ao longo deste terceiro mandato, mesmo entre apoiadores de primeira hora, Lula terá de mostrar capacidade de dialogar com setores diversos do empresariado, reconstruir o apoio da fragmentada base aliada e oferecer respostas pragmáticas para os gargalos do país. O resultado deste quarto mandato determinará o peso definitivo do seu nome na história política do Brasil.

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