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Análise eleitoral

Ratinho Junior preferiu “salvar” base no Paraná a arriscar dupla derrota

Com a desistência, Ratinho Junior preferiu preservar o controle do seu território a entrar numa disputa presidencial sem tração consolidada.
Ratinho Junior preferiu preservar o controle do seu território a entrar numa disputa presidencial sem tração consolidada. (Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná)

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Mais vale tentar manter um pássaro na mão do que ver dois saírem voando para longe e ficar de mãos abanando, já diria a sabedoria popular. Atento a esta premissa, sem decolar com a pré-campanha, vendo seu grupo político se desagregar e com sérios riscos de sofrer uma derrota eleitoral acachapante em casa, o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), desistiu de concorrer à Presidência da República e disse que não disputará nenhum cargo nas eleições de 2026.

As informações foram divulgadas por Ratinho Junior no fim da tarde da última segunda-feira (23) — para surpresa de boa parte dos eleitores, analistas e até políticos considerados próximos dele. Oficialmente, algo que pesou na decisão de maneira definitiva foi a vontade de preservar a família do desgaste inevitável de uma campanha presidencial, além do argumento de se dedicar aos negócios do grupo após o término do mandato.

Nos bastidores, no entanto, a realidade pode ser mais complexa. De acordo com apuração da Gazeta do Povo junto a aliados e adversários políticos do governador, assim como na opinião de analistas e observadores do mundo político, ele pode ter sido pego de surpresa com as movimentações de correligionários e adversários na semana passada.

E, assim, ter se visto em um beco sem saída em cima da hora do prazo para a desincompatibilização do cargo executivo para concorrer no pleito deste ano, que é até o dia 4 de abril. 

De acordo com políticos do PSD próximos ao presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, Ratinho Junior teria sido surpreendido com o anúncio de apoio do senador Flávio Bolsonaro (PL) à pré-candidatura ao governo do Paraná do senador Sergio Moro, o que incluiu até a mudança dele para o PL para que o ex-juiz possa seguir com o projeto eleitoral, consolidada nesta terça-feira (24).

Apesar de vir assistindo a um posicionamento consistente de Moro nas sondagens eleitorais para o governo paranaense desde o ano passado, Ratinho Junior não teria acreditado que ele encontraria abrigo no PL e muito menos apoio explícito da família Bolsonaro para um projeto político majoritário neste ano.

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Impasse aumentou com recusa do próprio Ratinho Junior para compor chapa com Flávio

Com a recusa de Ratinho Junior em ser vice de Flávio, no entanto, e a manutenção de sua pré-candidatura presidencial, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) viu-se pressionado a romper a aliança do PL com o PSD no plano local, afirma um deputado federal do PL de São Paulo próximo ao senador e pré-candidato.

Com um concorrente disputando votos pela direita e sem opções de palanque no Paraná para a corrida presidencial, Flávio teria sido obrigado a se entender como Moro  e a forçar o rompimento das duas siglas no plano estadual, recorrendo a um nome competitivo e assim ter como fazer uma campanha forte no estado. 

Em pesquisa de intenção de voto divulgada pelo instituto IRG na última quinta-feira (19), Moro foi o mais citado nos três cenários estimulados testados, com no mínimo 40,8% das intenções de voto. Quem mais se aproxima do ex-juiz da Operação Lava Jato é o secretário paranaense do Desenvolvimento Sustentável e ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca (MDB), que pontua com 19,7%.

Mesmo assim preterido pelo governador paranaense como cabeça de chapa do PSD na disputa estadual, poucos dias depois do anúncio da aliança entre Moro e Flávio, Greca deixou o PSD e assinou sua filiação ao MDB para concorrer ao governo do Paraná, à revelia do ex-parceiro político. 

Foi a gota d’água para o governador rever seus planos e tentar reorganizar a base política em casa, de acordo com uma fonte próxima às lideranças do MDB, que acompanhou a filiação de Greca ao partido. Afinal, a pré-campanha eleitoral presidencial não decolou — ainda menos depois da consolidação de Flávio Bolsonaro como candidato da direita para enfrentar Lula.

Segundo um aliado do governador paranaense, mais valia tentar “salvar” a base política em casa — pegando um candidato pela mão e conduzindo-o ao longo da campanha, tendo em vista que o governador é bem avaliado pelos eleitores — do que sofrer uma dupla derrota, regional e nacional. Um observador próximo a Kassab comenta também que, independentemente de quem ganhar a eleição presidencial, o PSD estará no governo federal ocupando ministérios, mas não Ratinho Junior, que seria barrado em qualquer articulação pelo PT. 

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Guardar ativo e voltar mais forte em 2030 é uma estratégia ponderada, analisa cientista político

O cientista político Samuel Oliveira concorda com essa análise de que Ratinho Junior preferiu preservar o controle do seu território a entrar numa disputa presidencial sem tração consolidada. "O projeto nacional não amadureceu o suficiente para justificar perder o comando da sucessão local, ao mesmo tempo em que Moro e seu grupo político se tornaram uma ameaça ao legado dele no Paraná”, afirma Oliveira.

"A questão não é só Presidência, é a sucessão estadual, controle de máquina e sobrevivência política”, avalia o cientista político. "Com o apoio de Flávio Bolsonaro a Sergio Moro para o governo do Paraná e a filiação de Moro ao PL, Ratinho Junior passaria a correr o risco de deixar o cargo sem conseguir conduzir o sucessor. Para um governador jovem, com horizonte de 2030, isso é racionalmente inaceitável. Melhor sair agora, guardar o ativo do Paraná e voltar mais forte depois do que entrar num voo nacional incerto e perder a base."

Na avaliação do economista, professor e estrategista político Luis Carlos Burbano Zambrano, a dificuldade de Ratinho Junior junto aos eleitores durante toda a evolução das pesquisas mostra não apenas a inviabilidade de um rápido crescimento do nome dele para o presente, mas de toda a chamada “terceira via”.

Última pesquisa Quaest divulgada neste mês de março, por exemplo, no cenário testado com Ratinho Junior, Lula somava 37% das intenções de voto até aquele momento, contra 30% de Flávio Bolsonaro. Ratinho Junior registrava 7%, enquanto Romeu Zema (Novo) aparecia com 3%, ambos tecnicamente empatados dentro da margem de erro.

“A desistência dele é pragmática, não tem espaço para um terceira via dentro da polarização que vivemos”, diz. “Além de Flávio Bolsonaro ter se consolidado como representante da direita, a candidatura de Moro é um risco real de perder o controle na base para um político não-alinhado com seu projeto de poder, que ainda pode ser longevo e durar muitas eleições”, afirma. 

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Desistência de Ratinho Junior foi encarada sem surpresa por parlamentares do PL

Do lado de parlamentares do PL, a notícia foi recebida com alegria mas sem surpresas. "A desistência do Ratinho Junior já era esperada, agora espera-se a desistência dos outros dois”, afirma o vereador paulistano Adrilles Jorge (União), referindo-se aos governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e de Goiás, Ronaldo Caiado.

"O PSD e o Centrão como um todo deveriam aproveitar para fazer um contraponto claro ao Lula e apoiar o Bolsonaro agora. Ratinho Junior deveria inclusive apoiar a candidatura de Moro ao governo do estado, por que não?”, sugere o vereador. 

O correligionário e deputado estadual por São Paulo Tenente Coimbra concorda. "As pesquisas comprovam que essa terceira via não tem viabilidade para concorrer”, afirma Coimbra.

"Ratinho Junior seria o o melhor quadro dentre os três postos pelo PSD, mas a direita não vai se reorganizar, porque ela já está organizada em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro”, diz o deputado estadual. 

“Depois de uma gestão muito bem avaliada, Ratinho Junior corre o risco de não conseguir fazer o sucessor diante da candidatura do senador Sergio Moro, o que seria uma derrota e comprometeria seu capital político construído ao longo dos anos”, reitera a deputada federal Rosana Valle (PL), de São Paulo. 

"Nenhum governador quer ter uma gestão bem avaliada e não conseguir fazer o sucessor. A candidatura do senador Sergio Moro ao governo do Paraná coloca em risco o grupo político de Ratinho Jr. no estado. Então, ele deve ter avaliado o cenário e entendido que seria mais estratégico permanecer no cargo, trabalhar a sucessão e manter seu grupo político forte em território paranaense. Se saísse para disputar a Presidência e perdesse o estado, poderia perder muito espaço político”, avalia a deputada.

Para um observador um pouco mais distante desta disputa em específico, a conjuntura política local deve ter pesado bastante na decisão. "É difícil analisar os motivos que levaram a essa desistência de maneira tão abrupta, mas a situação local deve ter pesado muito mesmo”, afirma Paulo Serra, presidente da executiva estadual do PSDB de São Paulo e vice-presidente nacional do PSDB.

"Existe um risco ao grupo político do governador. Agora, enquanto o PSD não define uma nova candidatura — ou não, o cenário eleitoral nacional não muda tanto. A partir do momento em que o partido desistir da disputa nacional, se desistir, teremos uma acomodação maior das forças políticas e do cenário eleitoral."

Em nota enviada pela assessoria de imprensa à Gazeta do Povo, o PSD informa que a escolha de um novo pré-candidato presidencial deve ocorrer até o final deste mês.

“O PSD se mantém firme em sua decisão de apresentar aos brasileiros uma candidatura a presidente da República, que com certeza será a 'melhor via', contrapondo-se a essa polarização de propostas radicais que em nada contribuem para o que o Brasil precisa”, afirma o comunicado.

"Eduardo Leite e Ronaldo Caiado são governadores muito bem avaliados, com inúmeras realizações ao longo de suas vidas públicas; ambos têm apresentado seus projetos para o Brasil, que nortearão o plano de governo do candidato do PSD”, afirma o comunicado, que também elogia o governador do Paraná.

  • Metodologia das pesquisas citadas:
    - IRG ouviu 1.000 pessoas entre os dias 13 e 18 de março. A margem de erro é de 3,1 pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº PR-02737/2026.
    - Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 6 e 9 de março. A pesquisa foi contratada pelo Banco Genial S.A. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº BR-05809/2026.

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