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Na dúvida, é melhor sobrar do que faltar, diria a sabedoria popular. No caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, PT e aliados, porém, a relativa fartura de opções de nomes para o governo e o Senado por São Paulo nas eleições deste ano pode congestionar as vias do centro à esquerda e virar uma briga fratricida, sem espaço para todos — afinal, quem tem muitos candidatos também não tem nenhum, já diria outro tipo de sabedoria, neste caso a política.
Para tentar fazer frente a uma reeleição até o momento considerada como certa do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) no estado, de acordo com todas as pesquisas de intenção de voto recentes, e tentar conter o avanço da direita no Senado — que este ano possui duas vagas por unidade da federação em disputa — Lula e o PT escalaram em terras paulistas o que se avalia no Palácio do Planalto ser um time de peso.
A escalação para as eleições 2026 em São Paulo inclui o ainda ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT-SP), que deve deixar a pasta federal nas próximas semanas; a ministra do Planejamento, Simone Tebet (MDB-MS), que anunciou a saída do governo federal para março por causa do pleito de outubro; o ministro do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, Márcio França (PSB-SP), que tem reafirmado sua pré-candidatura ao governo estadual; e, por fim, Marina Silva (Rede-SP), ministra do Meio Ambiente. Marina é disputada por PT, PSB e PSOL para tentar o Senado pelo estado paulista representando a esquerda.
O problema é que Lula, com a palavra final sobre a formação de seu palanque e chapa para a eleição presidencial Brasil afora e em São Paulo, ainda não bateu o martelo nem fez os arranjos políticos necessários com todos eles sobre quem exatamente vai concorrer a o quê — e com quais compensações em caso de desagrado ou sacrifício político. Só há três candidaturas possíveis dentro da chapa lulista — uma ao governo estadual e duas ao Senado —, o que faz com que quem “sobrar" seja empurrado para uma candidatura à Câmara dos Deputados, como vice na chapa para o governo, tentar sair por outro estado ou ainda desistir das eleições e ser reacomodado no governo federal — nem a vaga de vice na chapa presidencial ainda não está fechada.
Em sondagem eleitoral divulgada no fim de janeiro, o governador e candidato à reeleição Tarcísio de Freitas alcança entre 40,4% e 42,5% das intenções de voto (instituto 100% Cidades/Futura). Foram 1,2 mil entrevistados pelo instituto entre os dias 20 e 23 de janeiro de 2026 (Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2,8 pontos percentuais. Registro no TSE nº SP-04679/2026).
Haddad não se mostra animado em disputar as eleições por São Paulo
Ao longo de 2025, Haddad deu mostras que não estava muito disposto a deixar o governo federal para concorrer de novo nas eleições por São Paulo, mas conformou-se em aceitar uma missão partidária dada pelo presidente Lula. O PT e o presidente querem o ainda ministro como cabeça de chapa ao governo do estado, algo que ele reluta em aceitar devido às baixas chances de sucesso e à alta probabilidade de uma segunda derrota seguida para o governador em busca de reeleição — nas eleições de 2022, Haddad aparecia à frente nas pesquisas durante toda a pré-campanha, o que se manteve ao longo do primeiro e segundo turnos, mas o resultado nas urnas foi diferente e ele perdeu para Tarcísio.
Para Haddad, as chances de sucesso seriam melhores nas eleições ao Senado, apontam as pesquisas de intenção de voto até aqui. O ministro da Fazenda tem repetido em entrevistas desde que anunciou sua saída do governo federal que vai ajudar Lula nas eleições, mas sem definir como e dando a entender que gostaria de coordenar a campanha presidencial do padrinho.
Nos últimos dias, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, reafirmou a pressão petista e disse que Haddad será candidato, mas ao cargo que ele quiser. “Haddad pode ser candidato ao que ele quiser. Não existe pressão sobre isso, não há por que pressionar o Haddad. O que existe é a necessidade de diálogo para entender a responsabilidade e o papel que ele poderá exercer no processo eleitoral”, afirmou a jornalistas durante evento de comemoração dos 46 anos da sigla.
PSB não cogita possibilidade diferente da vice-presidência para Alckmin
Para congestionar ainda mais o cenário na centro-esquerda, na última quinta-feira (5) Lula disse que, além de Haddad, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB-SP) também tem um papel a cumprir na eleição em São Paulo. O vice-presidente da República era dado como certo por caciques do PSB como vice na chapa presidencial de Lula novamente, onde o ex-governador paulista prefere ficar.
“Temos condições de ganhar as eleições em São Paulo”, afirmou o presidente em entrevista ao UOL na quinta-feira (5). “Eu ainda não conversei com o Haddad, ainda não conversei com o Alckmin, mas eles sabem que têm um papel a cumprir em São Paulo, eles sabem”, afirmou Lula.
Até o final da semana passada, o vice-presidente ainda não havia se manifestado sobre a “missão”, mas nos bastidores interlocutores dizem que a reação é de choque. Em São Paulo, um integrante da executiva estadual do PSB afirmou à reportagem da Gazeta do Povo que nem Alckmin nem a cúpula do partido trabalham com outro cenário que não seja ele como vice na chapa presidencial.
Um dia antes da declaração de Lula, Tebet já havia defendido o nome de Alckmin ou Haddad para as eleições ao governo do estado na chapa de Lula, e não descartou mudar o domicílio eleitoral para São Paulo a fim de concorrer ao Senado — para isso, provavelmente, teria que se desfiliar do MDB, que apoia a reeleição do governador. Ela já foi convidada por França para entrar no PSB.
"Não tem como o ministro Haddad fugir dessa missão. O quadro não fecha sem ele, ele precisa ter essa consciência e acredito que tem”, afirmou a ministra na saída de um evento de assinatura do pacto contra o feminicídio na capital paulista. Tebet conversou com Lula sobre as eleições durante a viagem que ambos fizeram ao Panamá, no final de janeiro. Ela se colocou à disposição para disputar o Senado por São Paulo ou Mato Grosso do Sul, seu estado natal.
Falta direção estratégica ao PT em São Paulo, aponta analista
Correndo por fora com grande influência nos rumos do PSB paulista e aliado fiel de Alckmin, aparece Márcio França. França afirmou que “seria ótimo” contar com Tebet no PSB e disse que o convite já foi feito. Ao mesmo tempo, reiterou seu interesse em disputar o governo paulista e destacou que a decisão caberá ao presidente Lula, que ainda não se manifestou publicamente sobre quem será seu nome no maior colégio eleitoral do país.
“Fui governador e, na eleição que disputei, perdi por apenas 1% (em 2018, para João Doria), então é claro que eu gostaria de disputar novamente”, disse França por meio de nota distribuída à imprensa no final de janeiro.
"A centro-esquerda paulista entra em 2026 com abundância de nomes e escassez de direção estratégica”, afirma o cientista político Samuel Oliveira à Gazeta do Povo. “O governo Lula articula simultaneamente os nomes de Fernando Haddad, Simone Tebet, Márcio França e Marina Silva, tentando organizar um palanque robusto, mas corre o risco de sobrecarregar sua própria base. Com uma única vaga para o governo estadual e apenas duas para o Senado, essa superposição pode diluir força eleitoral e produzir um cenário de autosabotagem interna."
Na avaliação de Oliveira, até o momento o que há na centro-esquerda em São Paulo, ao invés de uma frente unificada, é um congestionamento político que mais confunde do que mobiliza o eleitor. "O risco de três desses nomes disputarem o Senado simultaneamente é real e, nesse caso, um fragmentaria o voto do outro, pavimentando o caminho para que a direita, mesmo com candidatos menos estruturados, herde as vagas”, afirma.
A avaliação dele é que "a esquerda, ao superestimar a força simbólica desses quadros sem projetar sua funcionalidade tática, erra na engenharia política." Neste cenário, as próximas pesquisas eleitorais devem ser fundamentais para definir o palanque petista em São Paulo.
O instituto Paraná Pesquisas divulgará na próxima quarta-feira (11) seu primeiro levantamento de 2026 com as intenções de voto para governador de São Paulo. A sondagem se baseará em 1.580 entrevistas, realizadas entre a última sexta-feira (6) e a terça (10). A margem de erro estimada é de 2,5 pontos percentuais, com um nível de confiança de 95%.
O principal cenário da pesquisa terá o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e os potenciais candidatos Fernando Haddad (PT), Felipe D’Ávila (Novo), Kim Kataguiri (União) e Paulo Serra (PSDB). Em cenários alternativos, o instituto testará Márcio França (PSB), Geraldo Alckmin (PSB), Ricardo Nunes (MDB) e Felicio Ramuth (PSD).
Também sondará as intenções de voto para seis projeções de segundo turno. O levantamento ainda instará os eleitores a se pronunciarem sobre a disputa pelas duas vagas paulistas no Senado e sobre a avaliação dos governos federal e estadual.
Levantamento do fim de janeiro do instituto 100% Cidades/Futura indicou, num primeiro cenário, que Haddad lidera numericamente, com 33,2%, mas em situação de empate técnico com Marina Silva, que registra 30%, dentro da margem de erro de 2,8 pontos percentuais para mais ou para menos. Alckmin é o mais citado no segundo cenário, com 39,2%, abrindo vantagem superior à margem de erro sobre Marina Silva (30,3%).
Foram entrevistados 1,2 mil entrevistados entre os dias 20 e 23 de janeiro de 2026 (nível de confiança: 95%. Registro no TSE nº SP-04679/2026).









