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Crítico ao Judiciário

Zema reage a Gilmar e aposta em discurso contra o STF nas eleições de 2026

Zema alega exclusividade ao criticar o Supremo, evita menção a ministros ou a adversários e fala em "Supremo Balcão de Negócios"
Zema aposta em discurso contra o STF para alavancar seu nome na disputa presidencial (Foto: Dirceu Aurelio/Imprensa MG)

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O embate público entre o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) e o ministro Gilmar Mendes elevou o tom da pré-campanha presidencial do mineiro e consolidou o Supremo Tribunal Federal (STF) como alvo central de sua estratégia política. Após ser confrontado pelo decano da Corte, Zema disse não se sentir “intimidado” e intensificou as críticas ao tribunal como forma de ampliar a visibilidade — e marcar posição — na disputa pelo Planalto.

Na resposta ao ministro Gilmar Mendes, Zema subiu o tom e passou a questionar a atuação do Supremo, afirmando que decisões da Corte não seriam estritamente técnicas e insinuando motivações políticas. Em vídeo, disse que não se sente intimidado e que seguirá fazendo críticas ao tribunal, aprofundando o embate em um momento em que busca consolidar seu nome na corrida presidencial.

“Você pode estar acostumado a ameaçar seus amiguinhos da velha política, que jogam tudo para debaixo do tapete e resolvem nas escondidas. Comigo é diferente”, disparou o pré-candidato.

A troca de críticas teve início após Gilmar Mendes afirmar ser “irônico” que o ex-governador ataque o STF depois de ter recorrido à Corte para aliviar as contas de Minas Gerais. O ministro apontou que o tribunal foi acionado em diferentes momentos para garantir fluxo de caixa ao estado, sugerindo uma contradição entre a prática administrativa e o discurso atual do pré-candidato.

Na réplica, o ex-governador questionou a afirmação do ministro do Supremo. "Ele deu uma decisão favorável a Minas Gerais, e agora descobri que foi um favor para eu ser submisso a ele pelo resto da vida”, rebateu Zema.

O episódio ocorre em paralelo ao lançamento das diretrizes da pré-campanha de Zema ao Planalto, quando ele reforçou o discurso de enfrentamento ao Supremo será um dos eixos centrais de sua estratégia eleitoral.

O ex-governador afirmou que, se eleito, pretende propor mudanças estruturais na Corte, incluindo mandato para ministros e novas regras de funcionamento, sob o argumento de “moralização” do Judiciário.

“A primeira coisa que eu vou fazer é acabar com a farra dos intocáveis”, afirmou o ex-governador durante evento nesta quinta-feira (16), em São Paulo.

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Zema nacionaliza discurso ao mirar o Supremo na pré-campanha

Ao colocar o STF no centro de sua pré-campanha, Romeu Zema dá um passo típico de quem busca deixar o plano regional e disputar espaço no debate nacional. O confronto com a Corte, intensificado após a troca de críticas com Gilmar Mendes, é apontado entre integrantes do Novo como uma forma de ampliar a visibilidade e inserir o mineiro em uma agenda que mobiliza parte relevante do eleitorado da direita.

Lideranças ouvidas pela Gazeta do Povo admitem que, ao adotar um discurso mais duro contra o STF — incluindo críticas ao que chama de “ativismo judicial” e propostas de reformulação da Corte —, o pré-candidato tenta ocupar um espaço já explorado por outros nomes da direita, como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Ao lançar as diretrizes da pré-campanha, o mineiro colocou a revisão do papel e do funcionamento da Corte como uma das prioridades, sob o argumento de “moralização” do Judiciário. Entre as propostas apresentadas, Zema defende a criação de mandato para ministros do STF, com duração de 15 anos, além da fixação de idade mínima de 60 anos para indicação.

O pré-candidato também propõe restrições à atuação de parentes de ministros em atividades com potencial conflito de interesses, em uma tentativa de reforçar o discurso de maior controle e transparência sobre a Corte.

O pacote inclui ainda a ideia de que ministros passem a “prestar contas” de suas decisões, em linha com a crítica recorrente de que o tribunal teria extrapolado suas funções constitucionais.

Na avaliação do cientista político Luiz Felipe D’Avila, ex-candidato a presidente pelo Novo e que participa da elaboração do programa de Zema, as propostas têm como objetivo reposicionar o papel da Corte. “O objetivo é restabelecer a função constitucional do STF, fazendo com que a Corte volte a ser uma intérprete da Constituição. Não existe artigo que permita ao STF legislar”, afirmou.

A estratégia do pré-candidato do Novo acontece em meio ao crescente desgaste do STF junto ao eleitorado. Pesquisa Datafolha, analisada pela Gazeta do Povo, indica que 75% dos brasileiros avaliam que a Corte tem poder demais, enquanto 71% a consideram essencial para a democracia. A avaliação dos articuladores do partido é de que o cenário cria uma janela para discursos críticos ao Judiciário.

O levantamento foi realizado entre os dias 7 e 9 de abril de 2026, com 2.004 entrevistas em 137 municípios do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-03770/2026.

Para o cientista político Elias Tavares, a movimentação de Zema é uma clara tentativa de nacionalizar seu nome na corrida presidencial. "Ao trazer o STF para o centro do debate, ele sai do eixo estadual e passa a disputar atenção em um tema que mobiliza o eleitorado de direita em todo o país", explica.

Estratégia amplia visibilidade, mas testa limites da campanha

Especialistas apontam que a estratégia de confronto adotada por Romeu Zema tende a produzir ganhos imediatos em termos de visibilidade, mas também impõe limites à expansão de sua candidatura no médio prazo. Ao concentrar o discurso no embate com o STF, o pré-candidato amplia sua projeção nacional e reforça a conexão com uma base já mobilizada, mas enfrenta desafios para dialogar com setores do eleitorado mais ao centro e construir alianças políticas mais amplas.

Na avaliação do advogado eleitoral Roosevelt Arraes, membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), o principal ponto de atenção está no conteúdo das declarações. Segundo ele, críticas ao Judiciário fazem parte do debate democrático, mas podem gerar consequências jurídicas se ultrapassarem certos limites.

“O que é punível é o falseamento de fatos. Se houver afirmação inverídica ou sem provas, pode haver responsabilização”, afirma.

Arraes ressalta que manifestações mais duras, como a defesa de prisão ou impeachment de ministros, entram em uma zona mais sensível. “Quando há imputações sem base concreta ou sem apuração, isso pode ser interpretado como um abuso no exercício da liberdade de expressão”, diz.

O cenário de tensão com o Judiciário ganhou um novo componente após declarações do ministro Dias Toffoli em meio às investigações conduzidas pela CPI do Crime Organizado no Senado. Durante sessão da Corte, Toffoli reagiu ao avanço de parlamentares sobre integrantes do Supremo e afirmou que ataques a instituições com objetivo eleitoral podem ser punidos.

Segundo o ministro, a Justiça Eleitoral não deve hesitar em agir diante de condutas que, na sua avaliação, busquem “obter voto” por meio da deslegitimação das instituições. Ele chegou a mencionar a possibilidade de cassação de mandato e inelegibilidade em casos desse tipo, sinalizando uma linha mais dura de resposta institucional.

Para Elias Tavares, declarações como as de Dias Toffoli elevam o custo da estratégia de Romeu Zema. "Elas funcionam como um sinal claro de que há limites institucionais sendo observados. O candidato passa a operar em uma linha mais estreita: precisa manter o discurso que mobiliza sua base, mas sem ultrapassar o limite que possa gerar consequências jurídicas", explicou.

A fala de Toffoli ocorreu após o relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), defender o indiciamento de ministros do STF no âmbito das investigações. Além disso, Gilmar Mendes pediu à Procuradoria-Geral da República (PGR) que abra uma investigação contra Vieira por suposto "abuso de poder".

No Congresso, a reação dos ministros do STF foi interpretada como um recado direto ao avanço político sobre a Corte e ao uso do tema em discursos eleitorais.

Segundo Roosevelt Arraes, a aplicação de punições depende de critérios específicos e não ocorre de forma automática. “A eventual cassação ou inelegibilidade depende de um processo e da comprovação de que houve ataque infundado com impacto eleitoral. Não é automática”, explica.

Para o especialista, a linha divisória está no conteúdo das declarações. “Não é a crítica em si que é punível, mas a divulgação de informações inverídicas. Se houver esse elemento, aí sim pode haver sanção, inclusive no campo eleitoral”, afirma.

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