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Investimento digital: por que gastar mais não significa liderar
Nunca houve tanta tecnologia disponível para as empresas. Ainda assim, muitas organizações continuam enfrentando baixa produtividade, processos ineficientes e dificuldades para transformar investimentos em resultados. O problema raramente está na tecnologia. Está na forma como ela é conduzida.
Por CARLOS FREITAS*
07/08/2026 às 15:14

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Poucos temas dominaram tanto as discussões empresariais na última década quanto a transformação digital. Inteligência artificial, computação em nuvem, automação, análise de dados e plataformas digitais ocupam hoje espaço permanente na estratégia das organizações — e nunca se investiu tanto nelas. O Brasil é o 10º maior mercado de tecnologia da informação do mundo, com US$ 68 bilhões movimentados em 2025, segundo a ABES/IDC.

Ainda assim, uma pergunta continua desafiando empresários, executivos e conselhos de administração: por que tantas empresas investem milhões em transformação digital e continuam convivendo com baixa produtividade, retrabalho e dificuldade para crescer de forma sustentável?
A resposta não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é conduzida.
Os números dão a medida do descompasso. Embora ocupe a 10ª posição mundial em investimentos em tecnologia, o Brasil aparece apenas na 53ª colocação entre as 69 economias avaliadas pelo ranking de competitividade digital do IMD — dez posições atrás do Chile, líder sul-americano. Investimos como potência; competimos como coadjuvante.

Na corrida da inteligência artificial, impulsionada pelo avanço do aprendizado profundo (deep learning), a distância é ainda maior. Segundo o AI Index, da Universidade Stanford, os Estados Unidos concentraram 72,3% de todo o investimento privado mundial em IA em 2024; o Brasil respondeu por cerca de 0,46% desse capital. A competição tecnológica ocorre em escala global — e gastar, por si só, não garante lugar nela.

Por que o investimento não vira resultado? Porque transformação digital não significa apenas incorporar novas tecnologias ao ambiente corporativo. Significa revisar processos, repensar modelos de negócio, desenvolver lideranças, preparar pessoas e construir uma cultura capaz de transformar inovação em resultado. Quando essa compreensão não existe, a tecnologia se limita a tornar mais rápidos processos que já eram ineficientes.
É o caso, bastante comum, da empresa que implanta um sistema de gestão de última geração, mas mantém decisões concentradas e fluxos de aprovação desenhados para outra época. Os sistemas evoluem; a organização continua operando sob uma lógica construída para um cenário que já não existe. Nenhuma ferramenta substitui liderança, planejamento ou capacidade de execução — e a inteligência artificial, em especial, tende a potencializar aquilo que a organização já faz, seja de forma eficiente, seja de forma ineficiente.
Outro equívoco frequente é tratar a transformação digital como um projeto com início, meio e fim. Trata-se de um processo contínuo de adaptação: mercados evoluem, tecnologias se renovam, o comportamento do consumidor muda — e a empresa precisa desenvolver a capacidade permanente de aprender, revisar decisões e ajustar seu modelo de atuação. Nesse caminho, as maiores barreiras raramente são tecnológicas. Elas surgem na dificuldade de alinhar pessoas, construir consenso, superar resistências e manter o foco na execução — e é aí que a experiência de quem já conduziu processos complexos de mudança deixa de ser detalhe e se torna diferencial competitivo.
O quadro, porém, não é estático. O Brasil subiu quatro posições no ranking do IMD em 2025 e registrou o segundo maior avanço do mundo em contratações de profissionais de IA, com crescimento de 30,8%. Mercado e talento, portanto, existem. O que falta é convertê-los em empresas, propriedade intelectual e produtividade.
No fim das contas, o sucesso de uma transformação digital não será medido pela quantidade de sistemas implantados nem pelo volume de recursos investidos. Será medido pela capacidade da organização de se adaptar às mudanças do mercado, gerar mais produtividade, criar valor para seus clientes e fortalecer sua competitividade.
Os ingredientes estão disponíveis. Antes de investir, porém, é fundamental saber aonde a empresa pretende chegar. Como ensinava Sêneca: "Nenhum vento sopra a favor daquele que não sabe para onde ir."

