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A última geração pagã e a ilusão da eternidade

Flávio Gordon analisa livro de Edward J. Watts sobre a última geração pagã.
Flávio Gordon analisa livro de Edward J. Watts sobre a última geração pagã. (Foto: Imagem gerada usando a ferramenta Google IA)

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Edward J. Watts é hoje um dos nomes mais relevantes da historiografia anglo-saxônica dedicada à Antiguidade tardia. Professor da Universidade da Califórnia em San Diego, formado em Brown e Yale, Watts construiu uma obra respeitada justamente por sua capacidade de articular história intelectual, biografia, política e cultura religiosa, debruçando-se sobre um período frequentemente reduzido a caricaturas ideológicas ou leituras teleológicas simplificadoras. Livros como City and School in Late Antique Athens and Alexandria (2008), Riot in Alexandria (2010), Mortal Republic (2018) e The Eternal Decline and Fall of Rome (2021) revelam um autor atento às continuidades históricas, às ilusões das elites e aos mecanismos pelos quais as sociedades acreditam ser mais estáveis – ou mais racionais – do que de fato são.

The Final Pagan Generation (2015) insere-se nesse percurso como talvez seu livro mais literário e mais ambicioso: não apenas uma história da cristianização do Império Romano, mas sobretudo um retrato de uma geração inteira que viveu dentro de uma grande ilusão de permanência. Traindo discretamente um certo fascínio pelo universo pagão antigo, Watts busca redimir essa geração de uma interpretação caricatural ou catastrofista.

Publicado já há dez anos, e infelizmente ainda não-traduzido no Brasil, o livro é um exercício de empatia histórica: compreender como homens inteligentes, cultos, bem-nascidos e bem-situados – Ausônio, Libânio, Vécio Agório Pretextato e Temístio – atravessaram o século IV sem notar plenamente que o mundo em que haviam sido formados estava condenado. Não porque fossem tolos ou cegos, mas porque acreditavam, com a naturalidade dos que sempre viveram sob a mesma ordem simbólica, que o paganismo público romano – com seus templos, imagens, sacrifícios e rituais cívicos – era tão perene quanto o próprio Império.

Watts define essa “última geração pagã” como o derradeiro grupo de romanos de elite, pagãos e cristãos, nascidos por volta do ano de 310, formados num mundo em que a maioria ainda acreditava que a velha ordem religiosa milenar continuaria intacta para sempre. Essa definição é central: a transformação descrita no livro não é a queda abrupta de um sistema. A história contada em The Final Pagan Generation é a de uma lenta e quase imperceptível erosão de uma cosmovisão. Assim, o drama que Watts descreve se caracteriza mais pela obsolescência espiritual que pela perseguição.

Convém uma breve observação sobre a posição enunciativa do autor. Ele concebe a obra num tempo em que a crítica moderna ao Cristianismo, de matriz neopagã, romântica ou nietzschiana, ainda molda o imaginário acadêmico: nesse ambiente, permanece hegemônica a interpretação segundo a qual o Cristianismo surgiu como força niveladora, empobrecedora da imaginação simbólica e inimiga da pluralidade estética do mundo antigo. Embora Watts jamais adote essa crítica de modo explícito, sua simpatia narrativa pelos pagãos tardios e seu fascínio pelo “mundo cheio de deuses” são evidentes. O leitor atento percebe que o Cristianismo entra na narrativa menos como plenitude civilizacional do que como fato histórico inexorável – uma vitória administrativa, cultural e geracional.

Todavia, a aceitação implícita do paradigma intelectual neopagão não chega a debilitar o livro, exemplarmente bem construído. Sua introdução oferece um mapa claro do argumento; os capítulos se encadeiam com fluidez; e o parágrafo final condensa magistralmente a sua tese fundamental, a saber: que o século IV, para essa última geração pagã, foi uma idade de ouro repleta de banquetes refinados, moedas de ouro, discursos públicos diante de imperadores e cerimônias oficiais – tudo isso em cidades saturadas de templos, imagens divinas e o odor constante do incenso e do sangue dos sacrifícios. Era um mundo que parecia eterno porque sempre fora do mesmo jeito, e porque seus beneficiários jamais imaginaram que a história pudesse dispensá-los.

Os capítulos

No Capítulo 1, “Crescendo nas cidades dos deuses”, Watts descreve com detalhes sensoriais a formação infantil dessa geração. Crianças educadas por pais, tutores e professores num ambiente saturado de referências religiosas múltiplas: templos ativos ou abandonados, igrejas emergentes, sinagogas antigas, imagens reaproveitadas, vandalizadas ou veneradas. Mais que uma doutrina, o paganismo era uma atmosfera – algo respirado antes de ser pensado. Uma religião tão onipresente que já não precisava ser defendida, e por isso mesmo começava a morrer.

O Capítulo 2, “Educação numa era da imaginação”, mostra como a formação intelectual desses jovens – centrada em gramática e retórica – era notavelmente isolada das grandes transformações religiosas do período constantiniano. O objetivo não era a verdade, mas o sucesso: atrair a atenção do imperador, alcançar prestígio na corte, integrar-se ao sistema. Nesse estágio, a religião não passava de pano de fundo; não era percebida como campo de batalha. Como tantos representantes de elites posteriores, os jovens da última geração pagã confundiam neutralidade moral com sofisticação intelectual.

O Capítulo 3, “O sistema”, acompanha o ingresso dessa geração na vida adulta, nas décadas de 330 e 340. Eles constroem carreiras, formam famílias, tecem redes de influência – enquanto, quase sem perceber, os filhos de Constantino consolidam juridicamente um império cristão. Eis o dado relevante evidenciado por Watts: a cristianização formal do Estado não foi sentida como ruptura imediata pela elite pagã, porque o sistema continuava recompensando competência, lealdade e capital social. E nada anestesia mais do que um sistema que continua pagando bem enquanto muda de alma.

O Capítulo 4, “Ascender numa era de incerteza”, aprofunda esse paradoxo. Mesmo sob Constâncio II, cujas preocupações cristãs eram evidentes, a lógica da carreira imperial permanecia intacta. A religião ainda não substituíra o mérito retórico, a habilidade política ou as alianças familiares como moeda decisiva de ascensão. A fé antiga sobrevivia como ornamento, não mais como eixo moral.

No Capítulo 5, “O apogeu”, entram em cena Juliano, o Apóstata, e Joviano. O breve interlúdio julianista revela, talvez mais do que qualquer outro episódio, a fragilidade estrutural do paganismo tardio. O esforço de restauração religiosa não cria um novo mundo; apenas expõe a incapacidade do antigo de se renovar. Juliano não ressuscita os deuses: apenas comprova que já estavam mortos. Alguns membros da elite romana, como Temístio, perdem espaço; outros, como Libânio, sobrevivem por sua habilidade quase acrobática de agradar ao imperador enquanto mitigam os efeitos de suas políticas sobre terceiros.

O Capítulo 6, “A nova ordem panônia”, mostra um período de relativa paz religiosa sob Valentiniano e Valente. Novos homens entram na burocracia; o sistema se renova; alguns protagonistas se beneficiam, outros declinam. Mas, novamente, a religião permanece secundária diante da obsessão comum a todos: preservar o próprio status. Nada mais romano – e nada mais estéril.

O Capítulo 7, “A cultura da juventude cristã nos anos 360 e 370”, marca a verdadeira virada. A Vida de Antônio, de Atanásio, inspira os filhos dessa geração. Alguns rejeitam completamente os critérios de sucesso dos pais, abraçando o ascetismo; outros seguem caminhos tradicionais, agora dentro da hierarquia eclesiástica. A Igreja, enriquecida e institucionalizada, passa a atrair ambição, talento e desejo de poder. Mas com uma diferença decisiva: agora havia algo pelo qual valia a pena renunciar.

Os capítulos 8 e 9 acompanham a transferência de poder para a geração seguinte e a velhice dos protagonistas. Temístio retira-se silenciosamente; Libânio tenta manter relevância por meio de cartas, mesmo quando o mundo ao seu redor já não reconhece os critérios que haviam orientado sua vida. Eles permanecem engajados “em seus próprios termos” num império que já mudara de modo irreversível.

No derradeiro capítulo 10, “O legado de uma geração”, Watts analisa a recepção póstuma dessa geração. Pretextato é respeitado como erudito, mas desprezado por apologistas cristãos; Ausônio torna-se contraste para o neto Paulino, celebrado justamente por abandonar o mundo; Temístio é lembrado como conselheiro racional; Libânio é eclipsado por discípulos cristãos como João Crisóstomo e Basílio. O mundo que os formara sobrevivia apenas como memória. 

Conclusão

Watts é honesto ao reconhecer limites em sua abordagem. “Geração” é um conceito escorregadio, e quatro homens – todos excepcionais – dificilmente representam uma maioria. Ainda assim, o autor logra algo raro: oferecer uma visão empática e demasiado humana de uma elite que experimentou o fim de seu mundo não como um cataclismo, mas como uma enganosa continuidade.

É aqui que uma leitura cristã poderia avançar além das pretensões do autor. O cristianismo não triunfa apenas porque herdou o sistema imperial, mas porque ofereceu algo que o paganismo tardio já não podia fornecer: uma antropologia moral coerente, uma esperança escatológica, uma universalidade que não dependia de nascimento, status ou virtuosismo retórico. Onde o paganismo oferecia forma, o cristianismo ofereceu sentido.

Cabe aqui relembrar a imortal descrição de Fustel de Coulanges no clássico A Cidade Antiga, cuja leitura permanece insubstituível para compreender a mutação espiritual descrita por Watts:

“A vitória do Cristianismo assinala o fim da sociedade antiga (…) Com o Cristianismo, não só o sentimento religioso se avivou, mas tomou ainda expressão mais elevada e menos material (…) O divino foi devidamente colocado fora e acima da natureza visível (…) A religião deixou de ser exterior; residiu sobretudo no pensamento do homem. A religião deixou de ser matéria; tornou-se espírito (…) O cristianismo trouxe ainda outras inovações. Deixou de ser a religião doméstica de determinada família, a religião nacional de uma tal cidade ou raça. Não pertencia nem a uma casta, nem a uma corporação. Desde o início, chamou a si toda a humanidade (…) Havia nisso tudo algo de muito inovador. Porque, por toda a parte, na primeira idade da humanidade, se havia concebido a divindade como pertencendo especialmente a uma raça. Os judeus acreditavam no Deus dos judeus, os atenienses na Palas ateniense, os romanos no Júpiter capitolino (…) No que respeita ao governo do Estado, podemos dizer que o Cristianismo o transformou em essência, precisamente porque não se ocupou dele. Nos velhos tempos, a religião e o Estado formavam um todo (…) Jesus Cristo ensina que o seu reino não é deste mundo. Separa a religião do governo”.

Mas o fato é que a não constatação dessa ascensão religiosa não diminui o mérito do livro. The Final Pagan Generation é uma obra elegante, erudita, robustamente documentada, com notas abundantes e bibliografia de excelência. Mais do que recontar trajetórias individuais, Watts ilumina com clareza rara o que mudou – e o que permaneceu – no século IV. Seu livro não é uma apologia do paganismo nem, tampouco, um libelo contra o cristianismo. Trata-se de um retrato fino da psicologia histórica de uma elite diante do fim de sua evidência moral.

Enquanto os últimos pagãos agarravam-se aos rituais, às honrarias e à estética de um mundo saturado de deuses, seus filhos encontravam no Cristianismo uma moral exigente, uma promessa de transcendência e uma lógica de vida que já não dependia do favor imperial. Watts escreve com evidente simpatia por aquele “mundo perdido”, e essa simpatia ecoa, consciente ou não, a longa tradição moderna de nostalgia pagã que vai de Maquiavel a Nietzsche. Ainda assim, o grande mérito do livro está em permitir que o leitor vislumbre o momento exato em que uma civilização percebe – tarde demais – que seus deuses já não falam ao coração dos homens. 

Poucos historiadores conseguem tão bem quanto Watts retratar uma transição religiosa de tamanho impacto civilizacional nos termos dos dramas humanos individuais de alguns poucos personagens históricos. Por isso, mesmo quando lido criticamente por seu neopaganismo tácito, tomado como pano de fundo, The Final Pagan Generation permanece uma obra indispensável para compreender não apenas o fim do paganismo romano, mas o nascimento moral da civilização cristã que o sucedeu – e talvez também para refletir sobre quantas “últimas gerações” ainda caminham hoje, satisfeitas e cegas, acreditando viver no centro imóvel da história. 

Edward J. Watts nos brindou com uma obra madura, honesta e intelectualmente consistente, que recupera a memória de quatro figuras fascinantes e, por meio de suas trajetórias individuais, nos obriga a refletir sobre como civilizações morrem – quase sempre sem perceber. A conclusão geral que se pode extrair do livro é que novas ordens socioculturais não nascem necessariamente da força bruta, mas da capacidade de oferecer sentido onde antes havia apenas o hábito.

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