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Como a criminalidade aumenta o custo de vida

Policial em cena de homicídio em Nova York em 2021
Policial em cena de homicídio em Nova York em 2021 (Foto: EFE/EPA/JUSTIN LANE)

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Desde que consigo me lembrar, mesmo antes de “acessibilidade financeira” se tornar um tema proeminente no discurso público americano, políticos e comentaristas acompanhavam os preços de casas, gasolina, leite, ovos e outros itens básicos de supermercado. A acessibilidade financeira, ou a falta dela, há muito tempo é o objetivo explícito ou a principal reclamação de formuladores de políticas que debatem habitação, finanças públicas e regulação econômica. Nessas discussões, cada lado quer demonstrar que suas propostas tornarão a vida dos cidadãos melhor — ou seja, mais acessível. O foco geralmente recai sobre questões como oferta de moradias, alíquotas de impostos e gastos com bem-estar social.

A ascensão de Zohran Mamdani à prefeitura de Nova York é um exemplo perfeito. Sua campanha enfatizou incansavelmente a acessibilidade financeira. De congelar aluguéis e oferecer ônibus gratuitos a construir mais moradias públicas e lançar supermercados sem fins lucrativos administrados pelo governo, a maioria das mensagens de Mamdani girava em torno da redução de custos.

Ao mesmo tempo, Mamdani adotou posições preocupantes sobre questões de segurança pública — abolir o banco de dados de gangues do NYPD (Departamento de Polícia de Nova York), recusar-se a contratar mais policiais e impor uma moratória na remoção de acampamentos de sem-teto. Muitos preveem que, se implementadas, essas iniciativas erodiriam a segurança e a ordem públicas. Na medida em que isso se provar correto, a agenda de segurança pública de Mamdani também minaria seu compromisso declarado com a acessibilidade financeira.

Frequentemente, está ausente do debate sobre acessibilidade financeira a compreensão de como a segurança pública e a ordem moldam o bem-estar econômico. Os formuladores de políticas raramente fazem essa conexão, mas acessibilidade financeira e segurança estão intimamente interligadas. Quando os líderes falham na segurança pública, as perspectivas econômicas de seus constituintes decaem junto.

Controlar o crime e a desordem muitas vezes é algo tratado como um bem em si mesmo, e com razão. O crime afeta uma série de outras áreas: valores imobiliários, mobilidade econômica, investimento privado e, claro, os custos sociais diretos da vitimização. A falha em controlá-lo prejudica as finanças daqueles que vivem nos bairros mais afetados. Esse ponto é ainda mais importante porque muitas reformas equivocadas no sistema de justiça criminal são justificadas, em parte, por razões fiscais. 

O encarceramento é caro, dizem os reformistas, então deveríamos reduzi-lo pelo bem dos contribuintes. Mas afrouxar os controles sociais exercidos por departamentos de polícia e prisões tem seu próprio preço: o aumento do crime impõe custos econômicos massivos.

Muitos americanos tendem a ver os custos de um crime como algo que recai principalmente sobre a vítima. Poucos levan em conta seus efeitos mais amplos na sociedade. Esse é um erro crucial.

Pense em um crime como uma pedra jogada em um lago. Ela quebra a superfície em um único ponto, mas as ondulações se estendem muito além. Alguns crimes são meras pedrinhas nessa analogia; outros caem como blocos de concreto, enviando ondas maiores que se propagam muito mais longe. Uma vez que se entende isso, fica mais claro por que Tom tem interesse em impedir que Dick assassine Harry, mesmo que Harry seja um completo estranho para Tom. Os efeitos negativos associados ao assassinato de Harry se estendem a Tom, quer ele perceba ou não. O impacto social de um único ato de vitimização violenta pode parecer pequeno; mas, no agregado e ao longo do tempo, até mesmo aqueles que nunca são pessoalmente vitimados acabarão pagando um preço.

Embora não seja fácil capturar todos os efeitos em cascata do crime, uma literatura robusta de ciências sociais oferece estimativas bem fundamentadas dos custos sociais de pelo menos alguns delitos — e os números são alarmantes. Em um estudo de 2010 publicado na revista Drug and Alcohol Dependence, acadêmicos da Universidade de Miami e da Universidade do Colorado em Denver forneceram estimativas atualizadas e específicas por crime dos custos sociais associados a delitos que vão de assassinato a furto. Os autores observam que “mais de 23 milhões de delitos criminais foram cometidos em 2007, resultando em aproximadamente US$ 15 bilhões em perdas econômicas para as vítimas e US$ 179 bilhões em gastos governamentais [todos em dólares de 2008] com proteção policial, atividades judiciais e legais, e encarceramento”. Em dólares de hoje, isso totaliza cerca de US$ 290 bilhões — mais do que o Departamento de Educação dos EUA gastou em 2024. Para contextualizar ainda mais, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica estimou o custo anual total de desastres climáticos e meteorológicos principais (aqueles que excedem US$ 1 bilhão) entre 2020 e 2024 em pouco menos de US$ 150 bilhões.

Ao derivar suas estimativas, os autores do estudo de 2010 dividiram os custos sociais do crime em quatro categorias:

  • Custos às vítimas (perdas de propriedade, contas médicas e renda perdida)
  • Custos do sistema de justiça criminal (policiamento, processos judiciais e sistema prisional)
  • Custos da carreira criminal (produtividade perdida associada à escolha do infrator de cometer crimes em vez de trabalhar legalmente)
  • Custos intangíveis (danos indiretos às vítimas, como “dor e sofrimento, diminuição da qualidade de vida e angústia psicológica”)

Eles então forneceram estimativas para 13 categorias de delitos. Por exemplo, os custos diretos ou tangíveis de um único assassinato excediam US$ 1,2 milhão. O custo total de um assassinato para a sociedade — incluindo danos intangíveis e de carreira criminal — chegava a pouco menos de US$ 9 milhões. O assassinato, por razões óbvias, é um ponto fora da curva. Mas outros crimes estão longe de ser baratos e ocorrem com mais frequência: o custo social de um estupro excede US$ 240 mil; uma lesão corporal grave, pouco mais de US$ 107 mil; e um roubo, pouco mais de US$ 42 mil.

O crime e a desordem podem impor outros danos sérios, especialmente nas áreas mais perigosas das cidades americanas. Uma literatura empírica sobre a relação entre crime e desempenho educacional, por exemplo, sugere que a falta de segurança pode prejudicar significativamente o sucesso acadêmico. Em Urban Studies, um grupo de acadêmicos descobriu que a exposição repetida à violência criminal em seus quarteirões afetava negativamente o desempenho em testes padronizados de alunos de Nova York. Descobertas semelhantes foram feitas em Chicago, onde acadêmicos ligaram o pior desempenho dos alunos em avaliações acadêmicas à exposição a um homicídio na semana anterior à avaliação.

Um estudo publicado em 2018 mostrou como os ataques do “Atirador do Beltway” em 2002 “reduziram significativamente as taxas de proficiência em nível escolar em escolas num raio de oito quilômetros de um ataque”. Outra análise da ligação entre violência armada e desempenho em testes padronizados em Syracuse, Nova York, entre 2009 e 2015, descobriu que “as pontuações em testes padronizados estaduais de língua inglesa e matemática foram 50% menores em escolas de ensino fundamental localizadas em áreas com maior concentração de tiros, do que em escolas de ensino fundamental em áreas com menos tiros” e que “níveis mais altos de violência armada nas áreas de abrangência escolar estavam significativamente associados a taxas mais altas de reprovação em língua inglesa e matemática”. Um estudo de 2019 no The Russell Sage Foundation Journal of the Social Sciences documentou: “Alunos do ensino fundamental expostos à violência criminal no bairro antes do exame de língua inglesa que frequentam escolas percebidas como menos seguras ou com um senso fraco de comunidade obtêm pontuações 0,06 e 0,03 desvios-padrão mais baixas, respectivamente.”

O desempenho educacional é um preditor-chave, e talvez até um pré-requisito, da mobilidade econômica — outro resultado moldado pela violência criminal. Um estudo frequentemente citado descobriu que “uma queda de um desvio-padrão no crime violento experimentado no final da adolescência aumenta a posição esperada de renda na idade adulta em pelo menos 2 pontos”. O estudo também descobriu que “uma queda de um desvio-padrão na taxa de homicídios aumenta a posição esperada de renda em cerca de 1,5 pontos”. Isso faz sentido intuitivo: se sua adolescência for dominada por preocupações com segurança pessoal, quanto você consegue se concentrar em atender aos requisitos para o sucesso econômico?

Embora muitas cidades americanas tenham tido quedas recentes no crime, os níveis de crime nos bairros mais problemáticos permanecem muito acima do que pode ser considerado tolerável. Em um artigo publicado no Journal of the American Medical Association, Brandon del Pozo, da Brown University, e coautores descobriram que, em alguns bairros americanos, o risco de morte violenta para jovens homens excedia o enfrentado por tropas de combate americanas na linha de frente no Iraque e no Afeganistão. Mesmo em bairros de alto crime que ficam abaixo desse patamar, as taxas de homicídio são muitas vezes superiores à média nacional.

Nos bairros com os maiores problemas de crime, permanecer seguro exige trabalho real e esforço mental. Não é de surpreender, então, que as evidências disponíveis pareçam sugerir que a violência no bairro também está associada a pior saúde mental, incluindo ansiedade e depressão clinicamente significativas. Essa foi a conclusão predominante de uma revisão de literatura de 2021 publicada em Social Science & Medicine.

O crime também pode ter efeitos concretos sobre o ativo que muitas vezes representa a maior parte da riqueza da família americana média: sua casa. A taxa de posse de casa nos EUA era de pouco menos de 66% em 2022. De acordo com a Pew Research, “metade dos proprietários de imóveis americanos derivava mais de 45% de sua riqueza apenas do patrimônio imobiliário”. Essa parcela é ainda maior para proprietários negros e hispânicos, para quem os valores das casas constituem entre 63% e 66% da riqueza total. Destaco essa disparidade porque os americanos negros e hispânicos carregam um peso desproporcional do problema da criminalidade no país. Em depoimento perante a Comissão de Direitos Civis dos EUA em 2023, apresentei os fatos relevantes sobre essa disparidade.

Avalie este trecho ilustrativo: “Em Nova York, … no mínimo 95% de todas as vítimas de tiros e 85% de todas as vítimas de homicídio foram negras ou hispânicas todos os anos desde 2008, apesar de esses grupos representarem apenas 52% da população da cidade. … Em relação à sua parcela da população, esses grupos também são consistentemente super-representados estatisticamente entre as vítimas de estupro, roubo e agressão criminosa.” Enquanto isso, “em Chicago, onde 57,9% da população é negra ou hispânica, esses grupos constituíram 95% das vítimas de homicídio em 2019, 96% em 2020, 96% em 2021 e 95% em 2022. … Em relação à sua parcela da população da cidade, esses grupos também são consistentemente super-representados estatisticamente entre as vítimas de roubo, agressão agravada, agressão sexual criminal, agressão agravada e crime violento em geral.”

Isso deveria importar mais para os formuladores de políticas progressistas, que em grande parte atribuem a disparidade racial de riqueza às diferenças na posse de casa. A National Community Reinvestment Coalition, por exemplo, observa: “Para a maioria das famílias, sua casa é a principal forma de armazenar e construir riqueza. A lacuna de posse de um imóvel entre negros e brancos é, portanto, o principal motor da divisão racial de riqueza entre negros e brancos. … Na verdade, entre 2013 e 2022, mais de 90% dos ganhos de riqueza para os americanos negros vieram da posse de um imóvel.” Esperar-se-ia, então, que os progressistas autoproclamados calibrassem suas políticas de segurança pública para proteger os valores das casas das mesmas pessoas cujos interesses afirmam representar.

Numerosos estudos ligaram empiricamente crime e valores imobiliários. Uma análise de 2019 baseada na Suécia descobriu: “Ao mover uma casa 1 km mais longe de um ponto quente de crime, seu valor aumenta em mais de 30.000 coroas suecas (cerca de 2.797 euros).” Um estudo de 2012 baseado em dados do Reino Unido descobriu que “cada caso adicional de comportamento antissocial reduz os preços das casas na mesma rua em aproximadamente 1%, e cada caso adicional de crime violento em 2%.” Em 2013, o Banco Interamericano de Desenvolvimento analisou como os valores de propriedades residenciais no Brasil eram afetados pelas percepções de segurança pública, estimando que “aumentar o senso de segurança no lar em um desvio-padrão aumentaria os valores médios das casas em R$ 1.513 (US$ 757), ou cerca de US$ 13,6 bilhões, se aplicado a todos os 18 milhões de domicílios na área de estudo.” Note que alguns desses efeitos foram impulsionados por percepções de segurança — evidências extensas, apoiadas pela teoria das Janelas Quebradas, mostram que a percepção é influenciada não apenas pelo crime, mas também por sinais visíveis de desordem.

E funciona nos dois sentidos: a queda no crime eleva os valores das casas. Um artigo de 2012 do Center for American Progress, estudando oito cidades dos EUA, descobriu que “uma redução de 10% nos homicídios expandiria substancialmente as receitas de impostos sobre propriedade em todas as oito cidades”.

O efeito não se limita aos valores de propriedades residenciais. No Journal of Regional Science, uma colaboração entre o NYU Furman Center, o Ziman Center da UCLA e o Federal Reserve encontrou evidências sugestivas de que o crime deprime os valores de propriedades comerciais e que o impacto negativo era mais forte “em bairros com rendas mais baixas e maiores proporções de residentes minoritários”.

Muitos líderes comunitários pedem, compreensivelmente, mais investimentos em bairros carentes que lutam contra altos níveis de crime. No entanto, raramente os ouvimos pressionando os líderes locais a reprimir esse crime. Anos recentes ofereceram muitos exemplos de como a falha em controlar a desordem torna o investimento menos atraente — incluindo os fechamentos amplamente noticiados de farmácias e lojas de grande porte que enfrentavam altos níveis de furto no varejo. Um estudo de 2022 no Journal of Urban Economics descobriu que taxas de crime mais altas reduziam a disposição dos consumidores em visitar estabelecimentos nos bairros afetados, particularmente à noite. Evidências sugerem que o crime não apenas afasta clientes de fora da comunidade, mas também erode a base de clientes residentes. Em uma análise influente de 1999 publicada no The Review of Economics and Statistics, Julie Cullen e Steven Levitt encontraram declínios populacionais substanciais relacionados ao crime, impulsionados pela migração para fora.

A acessibilidade financeira não se cria sozinha — é um subproduto de boas políticas. Entregá-la requer mais do que subsídios para coisas que ficaram mais caras. Nem “acessível” é sinônimo de “bom”. Deixar o crime e a desordem saírem do controle pode reduzir os valores das casas, por exemplo, mas poucos contariam isso como um triunfo da acessibilidade financeira. O objetivo deve ser tornar as coisas boas mais acessíveis, e isso significa criar condições em que os residentes possam adquirir as habilidades e os ativos necessários para sustentar uma qualidade de vida mais alta. Segurança e ordem pública são pré-requisitos para esse progresso. Os formuladores de políticas que prometem “acessibilidade financeira” deveriam lembrar uma lição que a maioria de nós aprendeu quando criança: segurança em primeiro lugar.

Rafael A. Mangual é o Nick Ohnell Fellow no Manhattan Institute, editor do City Journal e autor de Criminal (In)Justice.

©2026 City Journal. Publicado com permissão. Original em inglês: Nothing Costs Like Crime

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