C. S. Lewis: o escritor cristão amado por católicos e evangélicos
C. S. Lewis: o escritor cristão amado por católicos e evangélicos| Foto: Divulgação

Pouco antes de entrar para a Universidade de Oxford, em 1916, a fim de estudar literatura, C. S. Lewis, recém-convertido ao ateísmo, começou a debater o cristianismo e seus elementos sobrenaturais com um amigo. As cartas dele escritas nesse período revelam o espírito do tempo: uma má vontade contra a fé. Esse espírito conquistou muitos aliados no século passado.

Lewis repreendia o amigo por não aceitar “a responsabilidade científica pelo crescimento das religiões”. As histórias de Jesus e seus milagres estavam “exatamente no mesmo patamar” das histórias de Adonis, Dionísio, Ísis e Loki. Todas as religiões, escreveu ele, eram uma tentativa do homem primitivo de lidar com os horrores do mundo natural. Não só o cristianismo. A história da Ressurreição era uma versão sublime de mitos pagãos sobre deuses e deuses que, ao darem início ao ciclo das estações, representavam a ideia de morte e renascimento.

No começo do século XX, parecia que a ciência tinha legado a doutrina da Ressurreição ao reino da fantasia. A recém-criada psicologia faria o mesmo. Sigmund Freud, o criador da psicanálise, via o sentimento religioso como uma expressão da necessidade infantil de proteção paterna. “A origem da religiosidade pode ser encontrada, já num desenho claro, na sensação infantil de impotência”, escreveu Freud em O Mal-Estar da Civilização. “Pode haver algo de mais profundo aí, mas hoje isso está envolvo em obscurantismo”.

Lewis estava no mesmo compasso do Zeitgeist, que considerava a religião algo inerentemente irracional e repressivo. “A superstição sempre atraiu as pessoas comuns”, escreveu ele, “mas sempre os esclarecidos se mantiveram distantes disso”. Os mistérios do Universo persistiam, aceitava ele, mas “enquanto isso não pretendo voltar a ser escravo da crença numa velha (e decadente) superstição”.

Quinze anos mais tarde, contudo, Lewis — já estudioso de literatura inglesa em Oxford – abandonou seu ateísmo e adotou o cristianismo histórico. Ele acabou por se tornar o mais celebrado autor cristão do século XX. Obras como Cristianismo Puro e Simples e O Problema do Sofrimento, nunca saíram de catálogo. A série infantil As Crônicas de Nárnia, cheia de imagens bíblicas, foi traduzida para mais de 47 idiomas.

Ironicamente, foi um debate sobre mitologia – sobre o significado dos mitos na experiência humana – que fez com que Lewis mudasse de ideia. Em 19 de setembro de 1931, naquele que pode ser considerada uma das conversas mais importantes da história da literatura, Lewis acompanhou seu amigo e colega J. R. R. Tolkien numa caminhada perto da Magdalen College. Professor em Oxford, Tolkien estudava mitologia antiga e medieval há décadas. Ele tinha começado a escrever sua própria mitologia épica sobre a Terra Média ao servir como soldado na França durante a Primeira Guerra Mundial.

Lewis contou a conversa em sua autobiografia, Surpreendido pela Alegria. Tolkien insistia em dizer que os mitos não eram mentiras, e sim expressões de uma realidade espiritual concreta. “Jack, quando você se depara com um deus se sacrificando numa história pagã, você gosta. Você se sente misteriosamente emocionado”, disse Tolkien. Lewis concordou: histórias de sacrifício e heroísmo geravam nele uma sensação de nostalgia, mas não quando se deparava com a história nos Evangelhos.

As histórias pagãs, insistiu Tolkien, eram Deus se expressando pela mente dos poetas. Eram fragmentos de uma história muito maior. A história de Cristo e sua morte e Ressurreição é uma espécie de mito, explicou ele. Ela age na nossa imaginação da mesma forma que os demais mitos, mas com uma diferença: ela aconteceu de verdade. Talvez somente Tolkien, com sua imensa inteligência e criatividade, podia ter convencido Lewis de que sua razão e imaginação podiam ser aliadas na fé.

As objeções de Lewis se desfizeram. “O velho mito do Deus Moribundo, sem deixar de ser mito, deixa o Paraíso da lenda e da imaginação e vem à Terra da história”, escreveu ele depois da conversa. “Não podemos sentir vergonha pelo esplendor mítico da nossa teologia”.

A mente contemporânea, contaminada pela ciência e psicologia, parece ter vergonha desse esplendor. Muitos púlpitos até mesmo transformaram o ensino da Ressurreição numa metáfora agradável sobre a renovação da primavera, sem querer cedendo à religião pagã.

Ainda assim, é nela que está a afirmação impressionante e inegociável da fé cristã, o acontecimento que transformou um grupo de seguidores perdidos na religião mais resiliente e transformadora da história. Em sua essência, ela é a história de um Deus de amor numa missão de resgate da humanidade. Cristo morreu, Cristo ressuscitou. Uma vez apresentada ao mundo, a esperança da ressurreição se tonou o eixe em torno do qual gira a civilização.

Para os fiéis do mundo todo, a verdade sobre a história humana – aquela que parecia “envolta em obscurantismo” – foi revelada com toda a sua força na manhã de Páscoa: o mito se tornou fato.

Joseph Loconte é diretor do Simon Center for American Studies da Heritage Foundation.

© 2021 National Review. Publicado com permissão. Original em inglês
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