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"Caixa de bondades"

Do perdão de dívidas ao fim das bets: dez jogadas oportunistas de Lula na reta final

Promessas de Lula
Documento trata possível eleição de Flávio e derrota de Lula como risco ao Brasil. (Foto: Ricardo Stuckert)

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A reta final da eleição presidencial de 2026 transformou o governo federal em uma vitrine de anúncios de benefícios, perdões de dívidas, subsídios e promessas que só sairão do papel se Lula conquistar um novo mandato. Na lista, há desde o fim das bets, dinheiro para universitários, repasses e perdão de dívidas de microempreendedores, redução de impostos e até aumento do Bolsa Família. As iniciativas são distintas, mas foram anunciadas no mesmo momento: às vésperas de uma decisão eleitoral que definirá os próximos quatro anos do país.

Políticas sociais, alívio ao endividamento e redução do custo de vida são objetivos legítimos. Mas por que tantas iniciativas de forte apelo popular aparecem concentradas no período decisivo da campanha? Quais são seus custos reais? De onde virão os recursos? E por que parte delas depende da vitória do próprio governante que as anuncia para passar a valer?

Quando a promessa de benefício se mistura ao pedido de mais quatro anos no poder, a fronteira entre política pública e interesse eleitoral exige um escrutínio redobrado. Por isso, a Gazeta do Povo elencou dez promessas eleitoreiras feitas por Lula às vésperas da votação.

Veja a lista de promessas eleitoreiras de última hora de Lula

1. Bolsa Família: reajuste de R$ 5,8 bilhões a 17 dias da eleição

Em 17 de setembro, a 17 dias da votação do primeiro turno, o governo anunciou o reajuste de 15% do Bolsa Família, elevando o benefício de R$ 600 para R$ 691. O custo estimado para 2026 foi de R$ 5,8 bilhões. O governo Lula justificou o aumento como recomposição da inflação acumulada desde a criação do programa, mas o calendário levanta uma dúvida difícil de ignorar: por que uma revisão dessa dimensão foi apresentada justamente quando Lula precisava conquistar votos?

2. Bets: proibição anunciada a nove dias da eleição

Em 25 de setembro, a nove dias do primeiro turno, Lula anunciou uma ofensiva para proibir as plataformas de apostas esportivas on-line, as chamadas bets. A proposta previa uma medida provisória e um projeto de lei com penas de quatro a seis anos de prisão para quem explorasse ou operasse essas atividades. O presidente justificou a iniciativa pelos danos que as apostas causariam às famílias brasileiras.

O problema merece debate sério, e endividamento, compulsão e prejuízos financeiros não surgiram na véspera da eleição. Combater abusos requer regras claras, fiscalização e uma estratégia consistente, o que uma decisão de ocasião está longe de oferecer.

3. Desenrola 3.0: até R$ 150 bilhões em dívidas na vitrine eleitoral

Também em 25 de setembro, Lula anunciou o Desenrola 3.0, programa destinado a renegociar dívidas familiares que poderiam chegar a R$ 150 bilhões. A proposta previa que o Tesouro Nacional adquirisse dos bancos carteiras de crédito de difícil recuperação, com deságio de até 90%. O objetivo era reduzir pela metade o endividamento familiar, estimado em R$ 300 bilhões.

Para quem está sufocado por dívidas, a promessa de renegociação é naturalmente atraente. Mas os números do programa pedem respostas à altura. Comprar ou renegociar dívidas não faz desaparecer o prejuízo econômico: redistribui riscos e custos entre os envolvidos. Sem transparência sobre essas condições, o anúncio de bilhões vira promessa de alívio imediato, com conta e resultados difíceis de avaliar.

4. Pé-de-Meia Universitário: mais dinheiro prometido em troca de mais um mandato

Em 13 de outubro, a 12 dias do segundo turno, Lula anunciou que, se reeleito, pretende criar o Pé-de-Meia Universitário. A proposta prevê pagamentos mensais de R$ 700 durante dez meses, além de um depósito anual de R$ 2,5 mil, com meta de alcançar 1 milhão de universitários por ano. A estimativa inicial de custo é de R$ 4,6 bilhões, com recursos do Fundo Social do petróleo.

A mensagem política está na condição apresentada: o programa é prometido para o mandato seguinte, caso Lula vença. O eleitor recebe a oferta de um benefício futuro vinculado à continuidade de quem o anuncia, embora as regras de acesso e execução ainda precisem ser definidas. A permanência dos jovens na universidade é um objetivo legítimo. Mas, antes de prometer um depósito condicionado à permanência de Lula no Planalto, o debate deveria passar pela evasão, pelas dificuldades financeiras dos estudantes e pela viabilidade do programa.

5. Pix MEI: R$ 5 mil prometidos a microempreendedores

Em 13 de outubro, o ministro do Empreendedorismo, Paulo Pereira, anunciou a intenção de lançar o chamado Pix MEI, com repasses de até R$ 5 mil para microempreendedores individuais. Segundo o ministro, o repasse não seria empréstimo: seria dinheiro público destinado a ampliar a capacidade produtiva, sem contrapartida, com foco em mulheres empreendedoras de baixo faturamento. O programa começa em 2027, caso Lula seja reeleito.

Faltou ao presidente candidato dizer como selecionará os beneficiários, que resultados exigirá e como evitará que o dinheiro seja distribuído sem avaliação de impacto. O empreendedorismo depende de crédito sustentável, segurança jurídica, simplificação tributária e menos burocracia. Um repasse direto pode ajudar em determinadas situações, mas não substitui essas condições.

6. Perdão tributário para MEIs: R$ 12,6 bilhões em dívidas

No mesmo dia, Lula anunciou outro item do mesmo pacote que prevê o perdão de R$ 12,6 bilhões em dívidas tributárias de 3,6 milhões de microempreendedores individuais. A medida foi apresentada a 12 dias do segundo turno e integra uma série de iniciativas voltadas aos pequenos negócios, incluindo outras mudanças nas condições de funcionamento dos MEIs.

A inadimplência de pequenos empreendedores é um problema real, mas a anistia tributária tem custo e não resolve nada sozinha. E quem paga seus impostos em dia também merece uma resposta: qual é o incentivo para manter a regularidade quando o governo anuncia perdões bilionários perto das eleições? Sem critérios transparentes e uma política consistente para prevenir novas dívidas, a anistia alivia o passado e ataca apenas o efeito, e não a causa do endividamento.

7. Gasolina: impostos zerados a 16 dias do segundo turno

Em 9 de outubro, a 16 dias do segundo turno, o governo anunciou que zeraria os impostos federais sobre a gasolina e ampliaria os subsídios aos combustíveis. A iniciativa elevou o benefício por litro de R$ 0,63 para R$ 0,89 e foi associada a um impacto fiscal estimado em R$ 5,2 bilhões em 30 dias, considerando o conjunto das medidas para gasolina, diesel e etanol. O governo afirmou que o custo seria compensado por receitas extraordinárias do petróleo.

Reduzir o preço dos combustíveis pode aliviar o orçamento das famílias e os custos do transporte, mas a proximidade com a eleição exige uma explicação convincente para a escolha do momento. O próprio governo classificou as medidas como temporárias, o que torna ainda mais necessário esclarecer o que acontecerá quando o prazo terminar. Além disso, a redução dos tributos não garante que todo o desconto chegue ao consumidor, já que o preço final depende de outros componentes.

8. Maioridade penal: uma mudança de discurso a dez dias da votação

Em 15 de outubro, durante entrevista ao Jornal Nacional, Lula declarou ser favorável à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos nos casos de crimes hediondos. A declaração, feita a dez dias do segundo turno, contrasta com o posicionamento histórico do PT e ocorre em meio ao debate sobre a PEC da Segurança Pública no Congresso.

A mudança não envolve dinheiro, mas atinge um tema de grande repercussão pública. Segurança e punição de crimes graves mobilizam o eleitorado, e a alteração de discurso exige explicações. O presidente precisa esclarecer o que mudou em sua avaliação. Por que Lula defende agora uma proposta que seu partido historicamente rejeitou? Como ele pretende compatibilizá-la com o restante de sua política de segurança? Sem essa prestação de contas, a promessa parece ser apenas uma adaptação à conveniência do momento eleitoral.

9. Tarifa zero no ônibus: a promessa de uma conta que não desaparece

A tarifa zero no transporte público também entrou no repertório eleitoral de Lula. A ampliação do acesso gratuito aos ônibus foi apresentada como possível bandeira para 2026, e estimativas citadas pela Gazeta do Povo apontaram que subsidiar integralmente as viagens aos domingos e feriados, em âmbito nacional e com exceção de São Paulo, poderia custar cerca de R$ 4,3 bilhões por ano.

A gratuidade pode beneficiar usuários, especialmente os de menor renda, mas o serviço continua custando: motoristas, combustível, manutenção e renovação da frota seguem sendo pagos por alguém. Se a conta deixar de ser cobrada diretamente do passageiro, precisará ser financiada por impostos, subsídios ou outras receitas. Lula precisa apresentar estimativas nacionais consistentes, indicar de onde virá o dinheiro e explicar como evitar que a promessa comprometa a qualidade do transporte ou pressione outras despesas. Até lá, a tarifa zero não passa de uma proposta de grande apelo popular com a conta ainda por demonstrar.

10. Rouanet Games: incentivo cultural também entra no roteiro

Em 14 de outubro, o governo anunciou o Rouanet Games, iniciativa para orientar produtores de jogos eletrônicos na captação de recursos por meio da Lei Rouanet. O anúncio ocorreu durante a regulamentação do Marco Legal dos Jogos Eletrônicos e foi acompanhado por outras iniciativas de apoio ao setor, incluindo previsão de investimentos por mecanismos de fomento e financiamento.

A Lei Rouanet não representa repasse automático de dinheiro público a qualquer produtor: depende de aprovação e de captação junto a patrocinadores, que podem obter benefícios fiscais. Ainda assim, a ampliação dos mecanismos de incentivo precisa ser justificada por uma política cultural e econômica consistente. Cabe perguntar quais resultados se espera alcançar e por que a iniciativa recebe prioridade naquele momento.

Quem paga, quem recebe e por que agora?

As propostas não são equivalentes. Na lista de benesses prometidas por Lula há transferência de renda, anistia tributária, subsídio, renegociação de crédito, incentivo cultural e mudança de posição política. Algumas medidas têm custos estimados; outras ainda dependem de regulamentação, aprovação ou implementação. O que as une é a concentração no tempo e a falta de um exame rigoroso sobre o planejamento, o financiamento e os critérios de cada uma.

O governo pode até argumentar que está respondendo a problemas reais e que medidas anunciadas durante uma campanha não são necessariamente eleitoreiras. Isso, porém, não dispensa transparência. Quanto maior o apelo popular e mais próximo da votação estiver o anúncio, maior deve ser a cobrança por documentos, estimativas de impacto, regras de execução e explicações sobre o momento escolhido.

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