
Ouça este conteúdo
Poucos macroeconomistas foram tão influentes no último meio século quanto Robert Lucas. Ele ganhou o Prêmio Nobel de Economia, e sua famosa "crítica de Lucas" reformulou o pensamento macroeconômico. Em seu discurso presidencial na American Economic Association, ele declarou que o "problema central da prevenção de depressões foi resolvido". Cinco anos depois, a crise financeira de 2008 eclodiu. Por muito tempo, muitos economistas acreditaram que a inflação de dois dígitos pertencia ao passado. A era da Covid provou que estavam errados. Recessões e inflação alta continuam sendo perigos reais, não relíquias históricas. É precisamente por isso que Kevin Warsh, o indicado de Trump para a próxima presidência do Federal Reserve, é exatamente o que o Fed precisa. Ele entende como o sistema funciona e, mais importante, o que há de fundamentalmente errado com ele.
Afinal, quem é Kevin Warsh?
Como estudante de graduação em Stanford, ele trabalhou como assistente de pesquisa de Milton Friedman e manteve o ceticismo de seu mestre em relação aos excessos do Federal Reserve e à intervenção nos mercados financeiros. Friedman sugeriu, de forma célebre, que o Federal Reserve poderia ser substituído por um computador. A retórica de Warsh sobre a redução do Fed segue a mesma lógica: um banco central que tenta fazer tudo — combater as mudanças climáticas, o desemprego, a inflação e promover o crescimento — não terá sucesso em nada. O Fed só é eficaz quando foca em um mandato estreito e entrega resultados.
Como Warsh escreveu: "O Fed não tem nem a expertise nem a prerrogativa para fazer julgamentos políticos nessas áreas". Isso se aplica igualmente ao Banco da Inglaterra. A ideia de Warsh sobre um banco central é a de uma instituição que não está nas primeiras páginas dos jornais (exceto em tempos de crise); uma instituição que seja "entediante" e foque apenas na estabilidade de preços. Ele está certo ao criticar o ativismo dos bancos centrais. O preço do ativismo de um banco central é o risco à sua independência e responsabilidade, pago pelos consumidores com uma inflação mais alta.
É por isso que Warsh é importante para o banco central mais influente do mundo. Ele serviu como diretor do Fed de 2006 a 2011, tendo sido indicado por George W. Bush. Sua principal divergência com o ex-presidente do Fed, Ben Bernanke, dizia respeito à escala e à persistência do quantitative easing (flexibilização quantitativa). O que começou como uma resposta de emergência a uma crise financeira tornou-se, gradualmente, um hábito permanente entre os bancos centrais do mundo desenvolvido. Como Warsh escreveu no ano passado: "Apoiei fortemente essa inovação em tempos de crise", mas "quando a crise terminou, o Fed nunca recuou". Uma política não convencional tornou-se convencional, expandindo vastamente o papel do Fed nos mercados financeiros. Warsh emergiu como um dos críticos mais proeminentes dessa expansão, e o retorno da inflação de dois dígitos durante a era Covid validou suas preocupações.
Warsh argumenta que um dos principais motores da expansão dos gastos governamentais e do crescimento do Estado reside no próprio Federal Reserve. O Fed criou a era do dinheiro fácil, que gerou irresponsabilidade tanto no governo quanto nos mercados. Como Warsh explica: "Membros do Congresso acharam mais fácil apropriar recursos sabendo que os custos de financiamento do governo seriam subsidiados pelo banco central". Quando os governos sabem que o Fed sempre estará lá para financiar déficits, a disciplina fiscal torna-se opcional. Mas as consequências mais graves aparecem nos mercados financeiros.
A atividade dos bancos centrais na era do dinheiro fácil produziu um paradoxo regulatório. Por um lado, os grandes bancos têm a garantia efetiva de que, se falharem, serão resgatados como foram em 2008. Por outro lado, essa garantia incentiva a tomada de riscos excessivos: os lucros são privatizados, os prejuízos são socializados. A resposta política tem sido uma regulamentação em constante expansão, atingindo o pico na administração Biden. No entanto, nenhuma quantidade de regulação pode resolver o problema fundamental criado pelos incentivos ao resgate. Este é um clássico "problema do conhecimento". Os reguladores simplesmente não sabem como os bancos e as empresas financeiras devem se comportar em todas as circunstâncias.
É por isso que a afirmação de que a crise de 2008 resultou de regulamentação insuficiente é tão falha. Ela assume que os reguladores sabiam quando e como a crise ocorreria e que, dotados de sabedoria ilimitada, poderiam tê-la evitado se tivessem mais poder. O problema real não é a falta de regulamentação, mas o dinheiro fácil — a garantia de que as grandes instituições financeiras serão apoiadas, independentemente dos riscos que corram. Remova essa garantia, e grande parte do comportamento de risco desapareceria sem a necessidade de regulamentações massivas.
O que Warsh defende é uma mudança de regime dentro do Fed: um retorno ao que um banco central deve fazer, que é garantir a estabilidade de preços. Ele é conhecido como um "falcão da inflação" (inflation hawk), e sua receita é direta. O Fed deve se concentrar na moeda, não no emprego inclusivo, nas mudanças climáticas ou em outros objetivos políticos. A independência do banco central depende do isolamento em relação à política, e a melhor maneira de conseguir isso é concentrar-se na estabilidade de preços, o propósito para o qual o Fed foi criado originalmente. Como Warsh e seu mentor Milton Friedman entenderam, a inflação é uma escolha.
Este artigo foi publicado originalmente no CapX. Link em inglês: Could Donald Trump Save the Federal Reserve?



