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Enquanto os EUA mudam de estratégia, a diplomacia do Brasil está presa nos anos 1990

Lula recebeu Nicolás Maduro em 2023: diplomacia parada no tempo.
Lula recebeu Nicolás Maduro em 2023: diplomacia parada no tempo. (Foto: EFE/André Coelho)

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Na primeira parte deste artigo, analisei os princípios que estruturam a nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos: o abandono das ilusões hegemônicas do pós-Guerra Fria, a acomodação pragmática entre grandes potências, a revalorização do Hemisfério Ocidental e o retorno explícito à lógica do poder, da hierarquia e das escolhas duras.

 Essa reorientação estratégica dos EUA, que reposiciona a América Latina no centro do cálculo geopolítico de Washington, evidencia, por contraste brutal, o grau de desorientação da política externa brasileira sob o governo Lula, que se revela não apenas anacrônica, mas estruturalmente incapaz de operar em um sistema internacional que premia o planejamento e pune o improviso.

Em um sistema internacional que voltou a operar segundo lógica de poder, competição geoeconômica e hierarquias regionais claras, o Brasil insiste em uma diplomacia conceitualmente ultrapassada, operacionalmente frágil e estrategicamente subserviente. A diplomacia lulopetista é mero invólucro, pois não dispõe de uma política externa consubstanciada em uma grande estratégia, mas exclusivamente de uma práxis diplomática formal que consiste em slogans, maneirismos afetados e apego desorientado a representações abstratas de poder que encontram cada vez menos respaldo na realidade objetiva. Não se trata de erro pontual ou ruído tático, mas de incapacidade estrutural de formular interesses nacionais coerentes e de convertê-los em ação diplomática consistente.

Para compreender a gravidade desse descompasso, é preciso esclarecer o que está em jogo. Grande estratégia não é diplomacia cotidiana, nem soma de políticas setoriais, tampouco retórica diplomática ou ativismo internacional difuso. Trata-se do arcabouço intelectual e político que integra meios e fins do Estado, articulando poder militar, capacidade econômica, base produtiva, política externa, tecnologia e coesão interna em torno de interesses nacionais hierarquizados no longo prazo. É a arte de alinhar recursos limitados a objetivos essenciais em um ambiente de competição permanente – e, sobretudo, de fazer escolhas.

A grande estratégia existe para responder a perguntas basilares: o que é vital, o que é secundário e o que pode ser sacrificado. Ela define onde engajar, onde conter, onde acomodar, onde recuar, onde alocar recursos. Sem esse quadro, o Estado se torna refém de agendas dispersas, pressões circunstanciais e impulsos ideológicos. Não por acaso, potências que falham em sua formulação tendem a desperdiçar recursos, perder autonomia e reagir aos acontecimentos em vez de moldá-los. No caso do Brasil lulopetista, sobretudo no atual contexto de transformação das forças que regem a ordem internacional, a ausência de uma grande estratégia tende a aprofundar a irrelevância do País em temas geoeconômicos, tecnológicos e militares, sem prejuízo de outros.

Não há, no Brasil de Lula, um projeto que integre desenvolvimento, defesa, economia, segurança, indústria, comércio exterior e inserção internacional. O país opera por reflexos, slogans e improvisos, reagindo tardiamente aos movimentos alheios em vez de moldar o próprio entorno estratégico.

É exatamente essa lacuna que define a política externa brasileira atual. Enquanto Washington redefine prioridades, aceita limites e reorganiza sua projeção global com base em critérios objetivos de poder e risco, Brasília continua a agir como se o mundo ainda fosse regido pelo multilateralismo abstrato dos anos 1990. A diplomacia brasileira permanece ancorada em noções vagas de “multilateralismo”, “diálogo intercultural” e “Sul Global”, conceitos que não são traduzidos em interesses nacionais claramente definidos, nem em ganhos concretos de poder, influência ou segurança.

Os formuladores e executores da política externa não se deram conta de que a autonomia estratégica com a qual o Brasil – e, grosso modo, os demais países latino-americanos, conforme destaquei na primeira parte deste artigo – contou nos últimos 35 anos não existe mais. Ela decorreu, em ampla medida, do relativo desengajamento dos EUA do Hemisfério Ocidental entre o fim da Guerra Fria e o início do atual mandato de Trump, tendo sido pessimamente empregada por todos os governos de esquerda da região. Na ordem que ora se conforma, o custo de se opor aos interesses estratégicos americanos na região é brutalmente superior àquele das últimas três décadas.

A operação militar na Venezuela expõe essa nova realidade: à luz da NSS 2025, a captura de Maduro não deve ser vista, exclusivamente, sob a lente primária da mudança de regime, do combate ao tráfico internacional de drogas, do fortalecimento do controle migratório norte-americano, da defesa da democracia ou mesmo da custódia virtual de reservas petrolíferas correspondentes a 303 bilhões de barris, mas sim da perspectiva de que Caracas operava como um hub de interesses antagônicos aos de Washington na América Latina: uma plataforma operacional chinesa, russa e iraniana para a promoção multissetorial de ações e projetos que ameaçavam (e ameaçam) interesses que o governo dos EUA considera vitais. Não que, à queda de Maduro, faltem sucessores regionais que se proponham a dançar e proferir diatribes e ameaças aos EUA e seu governo, como atestam as recentes declarações dos presidentes colombiano Gustavo Petro e cubano Miguel Díaz-Canel. Creio não convenha especular se os mandatários são inconsequentes, loucos ou ambas as coisas.

A ausência de grande estratégia torna-se particularmente visível na América do Sul. O Brasil, historicamente o principal polo de gravidade regional, abdicou de exercer liderança estratégica, por temor ou simples incapacidade. Em vez de estruturar um espaço regional minimamente coeso – política, econômica e geopoliticamente – optou por uma diplomacia passiva, reativa e autocentrada. Sem objetivos claros, o país confunde peso econômico e demográfico com influência e militância ideológica com liderança. O resultado é um vácuo de poder ocupado por atores externos e por rearranjos regionais dos quais o Brasil participa apenas marginalmente.

O contraste com países vizinhos é eloquente. Enquanto governos sul-americanos, guinando para a direita, como exposto em artigo nesta Gazeta, reorganizam alianças, explicitam orientações programáticas e constroem coalizões políticas regionais com objetivos definidos, o Brasil se isola, preso a uma visão consensualista que já não encontra eco no continente. A integração regional, antes instrumento potencial de projeção estratégica, sobretudo no que diz respeito à sua vertente infraestrutural, foi reduzida a um ritual diplomático sem capacidade de coordenação real.

No novo contexto hemisférico, a postura brasileira é especialmente custosa. A estratégia americana não é neutra, tampouco inclusiva. Ela opera por alinhamentos seletivos, coerção econômica, pressão regulatória e demonstração de força militar. Países que não se posicionam claramente deixam de ser sujeitos da política regional e passam a ser tratados como objetos de gestão estratégica.

Washington concebe o hemisfério ocidental como área vital a ser protegida da presença estratégica de potências extra-hemisféricas. Infraestrutura, energia, logística, telecomunicações, minerais críticos e cadeias de suprimento passaram a ser tratados como ativos de segurança nacional. Essa lógica redefine as regras do jogo, especialmente para o Brasil. Ignorar essa mudança não preserva autonomia. Ao contrário, expõe o país à pressão externa sem instrumentos de barganha.

Essa deficiência estrutural também explica a relação desequilibrada do Brasil com a China. Sob Lula, Pequim deixou de ser apenas um parceiro comercial relevante e passou a ocupar posição central na inserção internacional brasileira, sem que isso tenha sido enquadrado por uma estratégia de balanceamento, atração de investimentos, transferência de tecnologia, diversificação ou proteção de interesses sensíveis.

Hoje, mais de 30% das exportações brasileiras têm como destino o mercado chinês, concentradas em commodities de baixo valor agregado. O Brasil importa, por sua vez, bens industriais, tecnologia e insumos estratégicos. Trata-se de uma relação estruturalmente assimétrica, na qual o país aceita passivamente uma dinâmica baseada na exportação de commodities e na dependência tecnológica, que cria e amplia vulnerabilidades, como a reprimarização da economia e a fragilização da base industrial.

Ao mesmo tempo, Pequim amplia sua presença no território brasileiro em setores estratégicos como energia, portos, ferrovias, telecomunicações e tecnologia digital. Do ponto de vista norte-americano, esses investimentos já não são vistos apenas como negócios, mas como vetores de influência geopolítica e vulnerabilidade estratégica. Essa percepção orienta políticas industriais, sanções, controles de exportação e pressão diplomática.

Ainda assim, o governo evita qualquer política de diversificação séria, proteção de setores sensíveis ou condicionamento estratégico da relação bilateral. Não há balanceamento, não há linhas vermelhas, não há estratégia, apenas acomodação. Age como se a geopolítica fosse um ruído externo irrelevante, quando, na realidade, ela já molda decisões comerciais, financeiras e tecnológicas em escala global.

Essa ambiguidade não produz autonomia. Produz vulnerabilidade. Uma grande estratégia teria imposto limites, definido setores críticos, protegido capacidades nacionais e condicionado a cooperação econômica a objetivos políticos, comerciais, tecnológicos e industriais claros. Nada disso ocorreu.

Em vez disso, o Brasil naturalizou uma relação assimétrica, evita qualquer posicionamento firme em temas sensíveis aos interesses chineses e abdica, na prática, de autonomia estratégica, tudo isso sob o discurso genérico do pragmatismo. Ao não definir uma estratégia própria para lidar com a China, o Brasil se torna progressivamente dependente de decisões tomadas fora de seu controle.

O mesmo padrão se repete na diplomacia ambiental. Elevada a eixo central da projeção internacional do governo, a agenda climática é tratada como fim em si mesma, e não como instrumento de poder. Compromissos amplos são assumidos, constrangimentos externos são aceitos, mas esses ativos políticos não são convertidos em vantagens estratégicas duráveis, investimentos estruturantes ou fortalecimento da posição internacional do país. Uma grande estratégia teria transformado capital ambiental em poder; a atual diplomacia limita-se a acumular constrangimentos e sair em fotos ao lado de companhias, digamos, questionáveis.

Além disso, a diplomacia ambiental brasileira padece de um erro de cálculo geoestratégico grosseiro, pois confere às concepções ambientais de determinados países europeus relevância objetiva inspirada principalmente na autoatribuída “superioridade moral” que tais países proclamam. Utilizar metas propostas por potências europeias para fins de benchmark ambiental em diversos setores é, na melhor das hipóteses, um contrassenso, e, na pior, uma piada grotesca, particularmente para um país que, como o Brasil, precisa se reindustrializar.

A participação do setor industrial nas economias dos países da zona do euro, que em 2000 correspondia a 20%, foi, em 2024, de 13%. Somente entre 2023 e 2024, a produção industrial dos países da zona do euro teve queda de 2,2%. O carro-chefe desse espetáculo de zelotismo autocongratulatório e destruidor da economia real é a Alemanha, cuja produção industrial despencou 12% (!) entre 2019 e junho de 2025. É nesse exemplo de suicídio econômico que a diplomacia ambiental brasileira parece se inspirar.

Somados, esses elementos revelam uma política externa sem arquitetura, sem hierarquia de interesses e sem visão de longo prazo. Em um sistema internacional marcado por competição entre grandes potências, instrumentalização da economia e reorganização de esferas de influência, o Brasil opera como se a simples participação em fóruns multilaterais fosse suficiente para garantir relevância.

A ausência de grande estratégia se manifesta de forma especialmente grave na área de defesa. O discurso oficial fala em autonomia estratégica, mas os investimentos são insuficientes, o planejamento é fragmentado e as capacidades militares não estão articuladas a uma visão geopolítica coerente.

O Atlântico Sul, vital para o comércio exterior, para a segurança energética, para as comunicações submarinas e para a soberania nacional, permanece insuficientemente protegido. O crime organizado transnacional – conectado a rotas globais de tráfico, lavagem de dinheiro e contrabando – avança mais rapidamente do que a capacidade estatal de resposta.

Em um cenário no qual os EUA reforçam sua presença naval no Caribe, reavaliam o controle de rotas estratégicas e tratam o hemisfério como área prioritária, essa fragilidade brasileira não é teórica, mas risco estratégico concreto. Falar em soberania sem capacidade dissuasória deixou de ser ingenuidade. Tornou-se imprudência.

A nova NSS dos EUA deixa claro que o tempo da ambiguidade estratégica acabou. Potências estão escolhendo prioridades, delimitando espaços de interesse e exigindo posicionamentos mais claros de seus entornos estratégicos. Nesse mundo, o Brasil surge como um ator paradoxal: grande demais para ser ignorado, mas cada vez mais irrelevante por falta de visão estratégica, em contexto no qual a ausência de uma grande estratégia não é neutralidade sofisticada – é vulnerabilidade estrutural. E vulnerabilidade, em um sistema governado por poder, raramente permanece sem custo e consequências.

Parte central do problema reside em uma diplomacia anacrônica, inadequadamente estruturada no que diz respeito à carreira, aparelhada, que se move por inércia, hermética, avessa à modernização, presa a tradições que já não resistem ao peso do tempo, resistente a revisar seus pressupostos e enlevada por sua autopercepção de ser um centro de excelência. O mundo mudou, a estratégia americana mudou, a competição entre grandes potências se intensificou, mas o discurso brasileiro permanece ancorado em um ambiente internacional que já não existe e a práticas, métodos e conceitos ultrapassados.

Política externa não se faz no vácuo. Um país com o peso geopolítico do Brasil não pode se contentar com uma diplomacia reativa e conformista sempre a reboque dos acontecimentos, que pouco influencia as relações internacionais, mas sofre em demasia os efeitos das políticas dos global players.

Tradições e práticas diplomáticas só fazem sentido e mantêm sua legitimidade quando são manifestamente convergentes com o interesse nacional mais amplo, alicerçadas em diretrizes de política externa que estejam alinhadas a uma grande estratégia de nação. A adesão cega a “tradições” trai o próprio conceito de diplomacia estratégica e prejudica toda a nação.

O balanço final é severo. Enquanto as grandes potências voltam a pensar o mundo em termos de poder, território, hierarquia e interesse nacional, a política externa de Lula revela-se incapaz de operar nesse ambiente. Não por falta de recursos, peso econômico ou relevância regional, mas por um déficit estrutural de pensamento estratégico e por sua lógica intrínseca de parasitação do Estado.

Isso se traduz em dependência geopolítica, fragilidade econômica, perda de influência regional e redução da capacidade de proteger interesses nacionais vitais. Em um hemisfério que deixou de ser periférico para voltar ao centro do cálculo geoestratégico, o custo para o Brasil, nesse cenário, é de uma crescente marginalização.

Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.

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