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O fim da velha ordem internacional

Assembleia-Geral da ONU em setembro de 2025: cada vez menos relevante?
Assembleia-Geral da ONU em setembro de 2025: cada vez menos relevante? (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)

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Diversos fatos recentes levam muitos a pensar que chegou o fim da “ordem internacional baseada em regras”: ações dos Estados Unidos — a intervenção na Venezuela, a imposição de tarifas, a ameaça de se apoderar da Groenlândia — ou, por parte da Rússia, a guerra contra a Ucrânia, representam o abandono do multilateralismo e a aplicação da lei do mais forte. Neste contexto, a intervenção do primeiro-ministro canadense Mark Carney no Fórum de Davos despertou grande interesse.

Tem sido dito que o discurso passará para os livros de história e as citações de Václav Havel e de sua obra O Poder dos Sem Poder foram avaliadas muito positivamente. Poderíamos qualificar este discurso como “ideorrealista”. Por um lado, Carney fala da defesa dos valores da democracia e do Estado de direito, embora, ao mesmo tempo, sublinhe que não estamos em um período de transição, mas de plena ruptura da ordem internacional e, portanto, é preciso adotar novas soluções.

O político canadense reconhece que entramos em uma época de rivalidade entre grandes potências, embora não faça alusões explícitas a Trump e aos Estados Unidos. Suas palavras são um convite a aceitar os fatos como eles são, embora caiba acrescentar que, durante algum tempo, os aliados dos Estados Unidos alimentaram a ilusão, não de todo desaparecida, de que os resultados eleitorais poderiam reverter a dinâmica do America First. No entanto, o governo Biden foi apenas um parêntese entre os dois mandatos presidenciais de Trump, e na época desse presidente democrata, como na de Obama, havia indícios suficientes para pensar que a relação de Washington com a Europa não seria a de outros tempos. Em qualquer caso, a perspectiva de um presidente republicano como J. D. Vance ou Marco Rubio não é tranquilizadora, e um presidente democrata é uma completa incógnita.

Tucídides e Václav Havel: uma lição de história

Carney faz implicitamente uma referência à História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, ao afirmar que “os fortes agem conforme sua vontade e os fracos sofrem as consequências”. Evoca-se aqui o episódio da ilha de Melos, um território que Atenas acabou anexando pela força depois que os seus habitantes se recusaram a aceitar a alternativa de se unirem à Liga de Delos, liderada por Atenas.

Diante de situações atuais deste tipo, Carney afirma que os países se adaptam e evitam os conflitos com um conformismo que lhes garante a segurança. Contudo, ele não acredita que esta seja a solução, e recorda o exemplo empregado por Václav Havel em O Poder dos Sem Poder (1978). Trata-se de um quitandeiro que tem pendurado em sua vitrine um cartaz comunista: “Trabalhadores de todos os países, uni-vos!”. Ele não acredita nesse slogan, mas o coloca de qualquer modo para evitar problemas e passar despercebido. Além disso, como todos os comerciantes fazem o mesmo, o sistema continua funcionando. Havel chamava esta atitude de “viver na mentira”, embora estivesse convencido de que a fragilidade do sistema residia no fato de que, quando uma pessoa deixava de agir assim — assim que o quitandeiro retirava seu cartaz —, a ilusão começava a desmoronar. Segundo Carney, “chegou o momento de as empresas e os países retirarem seus cartazes”.

O pragmatismo como resposta ao fim da ordem internacional

Na opinião do primeiro-ministro, o Canadá prosperou graças a uma ordem internacional baseada em normas. Mas, ao mesmo tempo, reconhece que “sabíamos que a história da ordem internacional baseada em normas era em parte falsa. Que os mais poderosos as ignorariam quando lhes conviesse. Que as normas que regulam o comércio eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional era aplicado com maior ou menor rigor conforme a identidade do acusado e da vítima”. Convém acrescentar que esse comportamento hipócrita ou o abandono na aplicação das normas serviram de álibi para regimes tirânicos e ideologias extremistas fazerem "tábula rasa", de modo simplista, do direito internacional.

Carney aposta em um “realismo baseado em valores”: aceitar a nova política internacional, mas sem renunciar à cooperação.

De resto, Mark Carney é realista quanto a alguns projetos de integração econômica que são apenas medidas de pressão e que utilizam como instrumentos de subordinação as tarifas, as infraestruturas financeiras e as cadeias de suprimentos. A reação lógica de muitos países é reforçar sua autonomia estratégica, mas o primeiro-ministro adverte sobre suas consequências, pois “um mundo compartimentado será pobre, mais frágil e menos sustentável”.

No caso das potências médias, como o Canadá, é imprescindível adaptar-se à nova realidade, embora seja necessário decidir “se nos adaptamos construindo muros mais altos ou se podemos demonstrar mais ambição”. Os canadenses adotarão a segunda opção, “um realismo baseado em valores”, no qual existe o reconhecimento de que nem todos os parceiros comerciais e de segurança compartilham os valores defendidos pelo Canadá, pois “já não dependemos unicamente da força dos nossos valores, mas também do valor da nossa força”. Isso explica a crescente atividade diplomática do Canadá nos últimos meses, com o estabelecimento de parcerias estratégicas com a China e o Catar, e a negociação de acordos de livre comércio com a Índia e outros países asiáticos, e com o Mercosul.

O pragmatismo de Mark Carney passa por “estabelecer coalizões eficazes, em função dos desafios, entre parceiros que têm um número suficiente de pontos em comum para agirem juntos”. Carney não é partidário, portanto, de esperar que se restabeleça a antiga ordem internacional, pois sabemos que “a antiga ordem não voltará”. As afirmações dele, apesar de tudo, despertaram algumas críticas derivadas de sua recente visita à China, por ter citado um dissidente anticomunista como Havel e, ao mesmo tempo, defender algum tipo de associação com a China. Na realidade, Carney não descobriu nada novo. Ao longo dos últimos séculos, foram frequentes as coalizões dirigidas contra um adversário comum, quase sempre em nome do equilíbrio europeu ou internacional, e sem que isso supusesse necessariamente uma afinidade ideológica. No século XX, vale recordar o entendimento entre as potências anglo-saxãs e a URSS, ou a abertura dos EUA à China nos anos setenta.

O Conselho da Paz, um sucessor da ONU?

A criação do Conselho da Paz (CP), apresentado oficialmente em Davos e para o qual foram convidados 60 países, tem sido interpretada como uma tentativa de Donald Trump de substituir a ONU. Um traço comum do presidente americano e de líderes autoritários como Putin é a preferência pelas relações bilaterais, embora o presidente russo e outros dirigentes continuem mencionando em seus discursos a ONU e outras organizações multilaterais. Em contrapartida, no preâmbulo da Carta do CP prega-se “o valor de afastar-se dos esforços e situações que com demasiada frequência falharam”. Estamos diante de uma crítica implícita à inoperância das Nações Unidas, que esquece, como é habitual, que a capacidade de agir das organizações internacionais depende sobretudo da vontade política dos estados que as integram. Por contraste, afirma-se que o CP é “uma organização internacional de consolidação da paz”.

Neste caso, poderia dizer-se que a paz não é alcançada por meio da força — uma abordagem aplicada por Trump em Gaza e na Venezuela —, mas que do CP poder-se-ia deduzir um novo slogan: “A paz por meio do investimento”. Com efeito, o CP assemelha-se a uma gigantesca empresa controlada pelo presidente dos Estados Unidos ou por quem este designar a qualquer momento como seu sucessor (art. 3.3). O poder do chefe supremo vai ainda mais longe, já que também pode revogar a condição de membro de um Estado (art. 2.3). Além disso, as decisões estão sujeitas à aprovação do presidente, que dispõe de voto de qualidade para inclinar a decisão de um lado ou de outro em caso de empate (art. 3.1).

Por outro lado, a limitação de permanência dos países convidados, que é de 3 anos (art. 2.3), encontra seu traço mais mercantilista na exigência de aportar ao fundo de gestão do CP a quantia de 1 bilhão de dólares em dinheiro vivo (art. 2.2). O certo é que o CP dificilmente poderia assemelhar-se a uma organização internacional clássica — e menos ainda à ONU —, pois à frente não há nenhum secretário-geral. O poder executivo é exercido de modo exclusivo pelo presidente americano, a única instância de arbitragem. Além disso, os redatores do texto permitem-se certa pressa na entrada em funcionamento da organização, pois basta que três Estados expressem seu consentimento (art. 11.1).

A negação do direito internacional

Poder-se-ia perguntar se o CP, em cuja carta há uma referência mínima ao direito internacional (art. 1), supõe uma tentativa de voltar ao direito internacional anterior a 1945, o que esteve vigente a partir da Paz de Westfália (1648), fundamentado na soberania dos Estados. Stacie Goddard e Abraham Newman, dois cientistas políticos americanos, não acreditam nisso. Eles  consideram que estamos entrando em um período de um mundo governado por líderes autoritários que extraem recursos de seus súditos e de seus vizinhos mediante a violência ou a ameaça para enriquecer sua família e seus cortesãos.

No entanto, Michael Ignatieff não concorda com o termo “neomonárquicos” que os autores aplicam a esses líderes. Na verdade, eles se assemelham mais a líderes mafiosos. Não negociam nem buscam um equilíbrio vantajoso. Não acreditam na lei, porque é algo que pode ser contornado por meio de suborno ou ameaças. O resultado é, sem dúvida, um enriquecimento do Estado que representam, embora, tal como aconteceu em outras épocas, não seja simples distinguir o patrimônio estatal do patrimônio do governante.

Apesar do que alguns querem acreditar, este sistema de dominação e esferas de influência não garante a paz e a estabilidade, tal como foi demonstrado historicamente. Além disso, em alguns casos, como o da Faixa de Gaza, alimenta-se um mito: o de que a prosperidade material pode contribuir por si só para a paz. Parte-se da ideia de que essa prosperidade afetará o conjunto de uma população, quando a percepção mais difundida é que ela favorece apenas alguns poucos.

©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: El fin del viejo orden internacional.

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