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Há momentos na história das nações em que a rotina administrativa, esse tecido quase invisível que sustenta o funcionamento do Estado, é rasgada por uma vontade política de tal magnitude que obriga os historiadores a recalibrar seus instrumentos de análise. O segundo mandato de Donald Trump é um desses momentos definidores.
Não se trata de mero ajuste de curso, de uma alternância partidária acompanhada de mudanças cosméticas nos quadros e nas prioridades orçamentárias. O que está em curso nos Estados Unidos, desde janeiro de 2025, é algo qualitativamente diverso: uma reformulação estrutural do governo federal americano cuja ambição e alcance possivelmente só encontram paralelo nas transformações promovidas por Franklin Delano Roosevelt nos anos 1930 e, em uma escala mais modesta, na reorganização administrativa conduzida pelo governo de Harry Truman na segunda metade da década de 1940.
Roosevelt, enfrentando o colapso econômico da Grande Depressão, criou dezenas de agências federais, ampliou dramaticamente o escopo de atuação do Executivo e redefiniu a relação entre o cidadão e o Estado. Truman, no pós-guerra, empreendeu a mais profunda reestruturação do aparato de defesa e inteligência da história americana, unificando as Forças Armadas sob um único Departamento de Defesa e criando a CIA e o Conselho de Segurança Nacional por meio do National Security Act de 1947.
Em ambos os casos, tratou-se de momentos em que a própria arquitetura institucional do país foi redesenhada para responder a desafios que as estruturas existentes se mostravam incapazes de enfrentar. Trump, em 2025, enfrenta desafio análogo, embora de natureza inversa: em vez de construir novas instituições, desmontar, reformar e redimensionar um aparato estatal que, ao longo de décadas, hipertrofiou-se a ponto de tornar-se, em vários aspectos, um fim em si mesmo.
Alexis de Tocqueville, que com olhos franceses enxergou a América melhor do que seus contemporâneos norte-americanos, advertiu, em A Democracia na América, que o maior perigo das sociedades democráticas não era a tirania espetacular dos déspotas, mas o que chamou de "despotismo brando": um poder tutelar, imenso e minucioso, que se estende sobre a sociedade como uma rede de pequenas regras complicadas, através das quais nem os espíritos mais originais conseguem se elevar acima da multidão. Pois é precisamente esse despotismo burocrático, encrustado em agências reguladoras, escritórios regionais, departamentos redundantes e uma classe de funcionários federais investidos de uma espécie de inviolabilidade sacerdotal, que o governo Trump se propôs a desafiar.
O instrumento principal dessa ofensiva foi o Departamento de Eficiência Governamental, o DOGE, criado por ordem executiva no primeiro dia do novo mandato. Liderado inicialmente por Elon Musk e arquitetado intelectualmente por Russell Vought, diretor do Escritório de Gestão e Orçamento e um dos cérebros por trás do Project 2025, o DOGE representou algo inédito: a decisão de submeter o Leviatã burocrático a uma auditoria implacável conduzida por agentes externos ao próprio sistema.
Os números, ainda que disputados, são eloquentes. Cerca de 300 mil cargos federais foram eliminados ou estão em processo de eliminação, o que corresponde a aproximadamente 12% da força de trabalho civil do governo. Agências inteiras, como a USAID, foram absorvidas ou drasticamente reduzidas. Contratos bilionários foram cancelados. O patrimônio imobiliário federal, um império de 360 milhões de metros quadrados de escritórios, muitos deles subutilizados desde a pandemia, começou a ser alienado.
O que Trump está empreendendo é uma ruptura com a ortodoxia administrativa que se cristalizou ao longo de três quartos de século
Os críticos, naturalmente, não tardaram a reagir. Juízes federais bloquearam demissões, tribunais questionaram a legalidade de certas medidas, e a imprensa progressista tratou de pintar o quadro com as tintas mais sombrias disponíveis em sua paleta. Mas a Suprema Corte, em decisão de julho de 2025, permitiu que as reduções de pessoal continuassem, reconhecendo implicitamente que a reestruturação do funcionalismo federal não era uma usurpação autoritária, mas o exercício legítimo de prerrogativas do Executivo (nos EUA inexiste a estabilidade do funcionalismo público, que no Brasil é matéria constitucional). Não deixa de ser irônico que o mesmo establishment que celebrou por décadas a expansão do Estado administrativo como sinal de "progresso" agora trate qualquer tentativa de redimensioná-lo como um atentado à democracia.
Paul Johnson, historiador britânico cuja obra monumental demonstra que a história é frequentemente moldada menos por forças impessoais do que pela vontade de indivíduos concretos, argumentou, em Uma História do Povo Americano, que a singularidade americana sempre residiu na capacidade de suas elites dirigentes de empreender rupturas corajosas quando as circunstâncias o exigiam. Os Pais Fundadores romperam com o Império Britânico; Lincoln rompeu com o escravismo constitucionalmente tolerado nos primeiros 70 anos da república; Roosevelt rompeu (liberticidamente, diga-se de passagem) com o modelo econômico do laissez-faire. O que Trump está empreendendo é uma ruptura com a ortodoxia administrativa que se cristalizou ao longo de três quartos de século: a crença de que o governo federal deve crescer indefinidamente, que seus funcionários constituem uma classe à parte dotada de proteções quase feudais, e que qualquer tentativa de reformar essa estrutura é, por definição, um ato de vandalismo institucional.
A renomeação simbólica do Departamento de Defesa como Departamento de Guerra, formalizada por ordem executiva em setembro de 2025, é emblemática dessa postura. O gesto não é apenas retórico, embora o retórico nunca seja "apenas" retórico para quem compreende a força performativa da linguagem. Ao restaurar o nome que o departamento carregou por mais de 150 anos, desde os tempos de George Washington até a reorganização administrativa de Truman em 1947, Trump está fazendo uma afirmação civilizacional: a de que uma nação consciente de seu papel no mundo não deve se envergonhar de nomear as coisas pelo que elas são.
"Departamento de Defesa" seria, consoante essa leitura, um eufemismo concebido pela mesma mentalidade que depois rebatizaria guerras como "operações de manutenção da paz" e transformaria soldados em "facilitadores de estabilidade regional". O Departamento de Guerra, como observou o Secretário Pete Hegseth, existe para vencer guerras, não para administrar o vocabulário dos sensíveis. O site do Pentágono já opera sob o domínio war.gov. As placas ao redor do gabinete do Secretário já ostentam o novo nome. A mensagem, goste-se dela ou não, é inequívoca.
O Brasil padece de um mal análogo ao que Trump decidiu enfrentar nos Estados Unidos, porém agravado por peculiaridades institucionais
Há quem enxergue nesse conjunto de transformações os contornos de uma segunda fundação americana. A expressão talvez seja forte demais, mas não é despropositada. Se a primeira fundação consistiu em erguer instituições sobre os princípios expostos nos Federalist Papers, onde Hamilton, Madison e Jay demonstraram que a república exige não apenas liberdade, mas ordem, energia e governo eficaz, esta segunda etapa consiste em libertar essas mesmas instituições das camadas de sedimento burocrático que, ao longo de décadas, as desfiguraram.
O Project 2025, elaborado pela Heritage Foundation e por dezenas de organizações conservadoras, forneceu a moldura intelectual para essa empreitada. Suas 900 páginas de propostas detalhadas, da eliminação da Schedule F (classificação de cargos federais do governo norte-americano para funções de caráter confidencial e de formulação política) ao desmantelamento de agências regulatórias capturadas por interesses ideológicos, constituem o mais ambicioso programa de reforma governamental produzido por um movimento político americano desde o New Deal de Roosevelt. A diferença, evidentemente, é que o New Deal pretendia expandir o governo, enquanto o Project 2025 pretende restaurá-lo ao seu tamanho e à sua função constitucional.
Para observadores brasileiros, esse processo deveria ser objeto de obsessivo estudo. O Brasil padece de um mal análogo ao que Trump decidiu enfrentar nos Estados Unidos, porém agravado por peculiaridades institucionais que tornam o Leviatã tupiniquim, em certos aspectos, ainda mais pernicioso e resistente à reforma do que seu congênere americano. O chamado Deep State brasileiro não se aloja apenas na burocracia do Executivo; ele se entrincheirou, com especial virulência, no Poder Judiciário e no Ministério Público Federal, instituições que, ao longo das últimas décadas, arrogaram para si um poder político que a Constituição Federal não lhes confere e que exercem com a desenvoltura de quem se sabe blindado contra qualquer forma de prestação de contas democrática, tornando-se a expressão mais bem acabada da iniquidade e do elitismo patrimonialista.
Thomas Sowell, cuja leitura implacavelmente empírica das instituições deveria ser referência obrigatória para qualquer reformador sério, alertou que uma das maiores ameaças à liberdade é a existência de elites que se consideram moralmente superiores ao povo que deveriam servir. O Judiciário brasileiro transformou-se, em larga medida, numa casta espúria que legisla por meio de sentenças, governa por meio de liminares, pune por meio de inquéritos que dispensam a inconveniência de denúncias formais, cria injustificáveis benefícios e prerrogativas corporativas e julga, com assustadora frequência, com base em projetos político-partidários e interesses nada republicanos, quase sempre, de maneira descaradamente acintosa, ao arrepio da lei.
O Ministério Público Federal, por sua vez, consolidou ao longo dos anos uma cultura institucional na qual o arbítrio é confundido com independência funcional e o ativismo político é revestido da linguagem asséptica do "interesse público". São estamentos que se consideram intocáveis, e que reagem a qualquer menção de reforma com o mesmo ultraje com que uma aristocracia feudal reagiria à sugestão de que os servos deveriam ter direito ao voto. Qualquer tentativa de reação passa a ser combatida ferozmente como um “ataque à democracia”.
Se (quando) a direita brasileira retornar ao poder em 2027, sobretudo se obtiver maioria nas duas casas do Congresso, a experiência norte-americana oferece lições inestimáveis. A primeira é que a reforma do Estado exige não apenas vontade política, mas preparação intelectual minuciosa: o Project 2025 levou anos de elaboração e envolveu centenas de especialistas. A segunda é que o confronto com o establishment burocrático-judicial será inevitável e que não há como empreendê-lo sem aceitar os custos políticos e as batalhas judiciais que dele decorrem. A terceira, talvez a mais importante, é que o desmonte do Deep State não é um ato de destruição ou desconstrução, mas de restauração. Trata-se de devolver ao povo, por meio de seus representantes eleitos, o controle sobre instituições que foram sequestradas por minorias corporativas que confundem seus interesses de casta com o bem comum.
Os Estados Unidos vivem, sob Donald Trump, um daqueles raros momentos em que a história deixa de ser narrada e passa a ser feita. As fundações do edifício administrativo erguido ao longo de quase um século estão sendo reexaminadas, e em muitos casos redesenhadas. Que isso provoque atrito, resistência e controvérsia não é apenas inevitável: é o sinal de que a reforma é verdadeira, pois só as reformas cosméticas transcorrem sem oposição. O que importa é a direção do movimento. E a direção, neste caso, aponta para a restauração de um axioma essencial às sociedades livres, mas que décadas de hipertrofia burocrática converteram em heresia: o de que o governo existe para servir ao cidadão, e não o contrário.
Para o Brasil, a lição é ao mesmo tempo mais urgente e mais difícil. Nosso Leviatã é mais antigo, mais enraizado, mais protegido por casamatas institucionais e corporativas do que o americano. Mas a tarefa é a mesma: devolver a república ao povo que a sustenta, arrancando-a das mãos das corporações de ofício que a sequestraram. Não se trata de opção ideológica. Trata-se da condição prévia para que qualquer outra opção, de qualquer natureza, volte a ser possível. Reformar o Estado capturado não é um item na agenda. É a agenda.
Rejeitar ou adiar esse enfrentamento não é prudência nem neutralidade, mas rendição silenciosa. É aceitar, dia após dia, que o país seja travado por dentro, despido de suas riquezas, de seu orgulho e de sua esperança, que o esforço de quem trabalha seja drenado por estruturas parasitárias que nada produzem, que o futuro seja empurrado para depois enquanto privilégios seguem intocados. É assistir, de braços cruzados, à lenta asfixia de uma nação inteira, conduzida não pela vontade do povo, mas pelos interesses de quem jamais precisou prestar contas a ele.
Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.
Lindolpho Cademartori é diplomata de carreira desde 2006 e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores. Suas opiniões são estritamente pessoais e não necessariamente refletem as do MRE.







