Publicidade
Oriente Médio

Corrida armamentista? Acordo nuclear de Trump com a Arábia Saudita causa preocupação nos EUA e em Israel

O príncipe herdeiro e premiê saudita, Mohammed bin Salman, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em encontro na Casa Branca em novembro (Foto: NATHAN HOWARD/EFE/EPA)

Ouça este conteúdo

O acordo nuclear entre Estados Unidos e Arábia Saudita, anunciado nesta quarta-feira (22) pelo governo Donald Trump, gera preocupações no país americano e em Israel, principal aliado de Washington no Oriente Médio.

Segundo comunicado do governo dos EUA, o compromisso chamado de Acordo 123 vai proporcionar às empresas americanas amplo acesso ao programa de energia nuclear saudita, sob “elevados padrões de segurança nuclear, proteção e não proliferação”.

Políticos de Israel e dos Estados Unidos manifestaram preocupação sobre o acordo. Segundo informações da agência Reuters, o ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, adversário do premiê Benjamin Netanyahu na eleição de outubro, declarou que o compromisso “é uma grave falha estratégica”, que coloca a segurança israelense “em risco”.

“O enriquecimento nuclear em solo saudita poderia levar a uma corrida nuclear regional e a uma perigosa perda de controle”, acrescentou.

O ex-ministro da Defesa Avigdor Lieberman, atualmente parlamentar no Knesset, foi na mesma linha, ao declarar que “o programa nuclear civil na Arábia Saudita resultará em armas nucleares e levará a uma corrida armamentista desenfreada em todo o Oriente Médio”.

No X, o senador democrata americano Chris Murphy disse que “este acordo desencadeará uma corrida nuclear na região, desestimulando ainda mais o Irã a limitar seu próprio programa”.

Órgãos de imprensa internacionais estão relembrando declarações feitas por autoridades sauditas em 2018, quando os Estados Unidos se retiraram do acordo nuclear com o Irã.

Em entrevista à CBS News, o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, à época ministro da Defesa e hoje primeiro-ministro, disse que o país “sem dúvida” desenvolveria armas nucleares caso o Irã as obtivesse.

Em entrevista à CNN, o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, Adel al-Jubeir, disse o mesmo. “Deixamos muito claro que, se o Irã adquirir capacidade nuclear, faremos todo o possível para fazer o mesmo”, prometeu.

Sandro Teixeira Moita, professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), disse em entrevista à Gazeta do Povo que os sauditas, em nome do seu programa de modernização e diversificação da sua economia, têm financiado pesquisas sobre outras fontes de energia além do petróleo, como eólica e solar, “valendo-se da condição geográfica de ter sol o ano todo”.

“A questão nuclear é um velho sonho, mas, diferente das outras fontes, sempre foi bloqueada pela questão geopolítica da região e pelos Estados Unidos. Desta vez, eles têm um governo [americano] favorável e, com esse anúncio, parece que efetivamente conseguiram. Se realmente será apenas pacífico, é a pergunta de US$ 1 bilhão”, afirmou o especialista.

Anúncio deixou muitas questões em aberto, diz especialista

Teixeira Moita disse que o anúncio feito nesta quarta-feira foi genérico e deixou muitas perguntas no ar.

“Teremos que esperar para entender o sentido [do programa nuclear saudita]. Se o enriquecimento [de urânio] for em torno de 4% ou 5%, é um programa pacífico. Se for acima de 20%, como diz a expressão popular, ‘tem caroço nesse angu’. Além dos níveis de enriquecimento, é preciso observar se os sauditas querem um programa de ciclo completo. Quem tem o ciclo completo [do enriquecimento de urânio] pode, sim, buscar uma capacidade nuclear maior”, disse o analista.

Trump afirmou nesta quinta-feira (23) que o acordo nuclear com a Arábia Saudita não prevê enriquecimento de urânio pelo reino e só será aplicado se o país árabe estabelecer relações diplomáticas com Israel.

Apesar das promessas de fins exclusivamente civis, Teixeira Moita disse que o anúncio do acordo nuclear neste momento chama a atenção.

“Em 2018, Mohammed bin Salman foi muito claro ao dizer que, se o Irã buscasse uma arma nuclear, a Arábia Saudita não ficaria atrás. Ele deve estar procurando o que chamamos de deterrence ou dissuasão. Apesar do acordo [de restabelecimento das relações diplomáticas com o Irã] mediado pela China [em 2023], a guerra que começou em fevereiro mostrou aos sauditas que os iranianos não são totalmente confiáveis, principalmente com essa nova fase, quando estamos vendo ataques contra a Arábia Saudita e sua infraestrutura, ainda mais com essa questão envolvendo os houthis [aliados do Irã]”, afirmou o especialista, citando o bloqueio naval e os ataques a navios comerciais sauditas no Mar Vermelho que estão sendo realizados pelo regime que controla o oeste do Iêmen.

“Dar capacidade nuclear a um país que está em guerra é deixar um gênio sair da lâmpada, o que cria problemas inclusive com Israel”, acrescentou.

A respeito do argumento de que o acordo poderia estimular o Irã a acelerar seu programa nuclear, Teixeira Moita disse que o regime persa teria “muita dificuldade” para fazê-lo diante da atual pressão militar e econômica dos Estados Unidos.

“Isso envolveria mover pessoal e realizar testes. Duvido que o Irã consiga fazer tudo de maneira subterrânea, dada a capacidade de penetração da inteligência israelense no país. O artefato teria que ser montado em um lugar e transportado para um local de teste. Além disso, é necessário ter urânio enriquecido suficiente para o núcleo da bomba de teste e para a primeira do arsenal. Não adianta testar e não ter material para a segunda”, explicou o analista.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.