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Cenário regional

Como a captura de Maduro muda o jogo das ditaduras na América Latina

O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, capturado no sábado pelos EUA (Foto: Miguel Gutiérrez/EFE)

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Depois de derrubar o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, em uma ação militar na madrugada do sábado (3), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deu declarações ao longo do fim de semana envolvendo outros países da América Latina. Em suas falas, Trump indicou que México, Colômbia e Cuba estão na lista dos que podem ter motivos para se preocupar em um futuro próximo.

Ainda que não passe de retórica e que o governo americano não objetive ataques diretos a outros países na região, especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo analisam que ditaduras latino-americanas aliadas do regime venezuelano, como Nicarágua e Cuba, podem sofrer um abalo em suas bases com a desestabilização de Caracas.

No sábado, Trump disse, em entrevista coletiva, que quer "ajudar o povo de Cuba" e que a situação da ilha "entrará na pauta" dos EUA. Na ocasião, seu secretário de Estado, Marco Rubio, completou que o regime cubano se sustentou ao longo do tempo em lideranças "senis e incompetentes" e que as autoridades de Havana deveriam se preocupar com os próximos passos do governo americano.

Nos últimos meses, a ditadura de Cuba vinha demonstrando preocupação com as investidas militares dos Estados Unidos na região do Caribe. No dia 25 de novembro, o ministro das Relações Exteriores do país, Bruno Rodríguez, declarou que a derrubada do ditador Nicolás Maduro seria "extremamente perigosa e irresponsável" devido aos riscos "incalculáveis" de mortes e à criação de um cenário de violência e instabilidade "inimagináveis".

A preocupação não é sem sentido. A ditadura de Miguel Diáz-Canel tem relações umbilicais com a de Maduro. Enquanto Caracas vem sendo uma tábua de salvação para Havana, com seu petróleo a um baixo custo, Cuba retribui fornecendo agentes de saúde e um número desconhecido de militares e assessores de inteligência que, inclusive, participam da segurança pessoal de Maduro. Segundo autoridades da ilha, 32 cubanos, entre membros das forças armadas e agências de inteligência, morreram na operação dos EUA na Venezuela neste sábado.

Na opinião de Igor Lucena, economista e doutor em Relações Internacionais, a queda de Nicolás Maduro não deve derrubar imediatamente o regime em vigor em Cuba, mas pode fragilizá-lo ainda mais.

"Acredito que o líder do regime cubano fique mais fragilizado, apesar de achar que o regime venezuelano não vá interromper seu apoio [à ilha], tanto logístico quanto de alimentos, equipamentos e até um pouco de segurança", avaliou o especialista. Ele também não acredita em uma ação imediata de Washington na ilha, já que "Cuba não tem equipamentos, não tem petróleo, não possui nada que seja tão útil para o presidente [Donald Trump]".

O coronel da reserva e analista militar Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, colunista da Gazeta do Povo, também acredita que é cedo para prever uma ampliação da operação em direção a Cuba, embora levante a hipótese de uma expansão das operações militares em um país vizinho na América do Sul.

"Acredito que os Estados Unidos devem manter a postura de atingir Cuba com severas sanções. Por outro lado, em relação à Colômbia, é possível imaginar que Trump aumente a pressão sob o governo de Gustavo Petro", avaliou em entrevista à Gazeta do Povo, dias antes da derrubada de Maduro.

Colômbia na mira

No domingo (4), a bordo do Air Force One - o avião oficial da Presidência - Trump citou a Colômbia, governada por Gustavo Petro, como um possível alvo de novas operações militares em países da América Latina. De acordo com o republicano, o país sul-americano é "liderado por um homem doente que gosta de produzir cocaína e vendê-la para os Estados Unidos" e que, em sua opinião, "não ficará no poder por muito tempo".

Trump renovou suas acusações contra Petro, dizendo que ele "mantém instalações de produção de cocaína” no país, o que prejudica fortemente os Estados Unidos. Questionado por jornalistas se ele autorizaria uma operação na Colômbia, o americano respondeu que essa opção "parece uma boa ideia".

Cenário é de incertezas

O advogado e especialista em relações internacionais Manuel Furriela recorda que ainda não há um cenário claro sobre o futuro político da Venezuela, já que a retirada forçada do presidente faz parte apenas de um conjunto de possibilidades e não garante, por si só, uma transição democrática. Ele acrescenta que, caso não haja eleições em curto prazo, com regras claras e reconhecimento internacional, o problema central da Venezuela - a permanência de um governo não democrático - seguirá existindo.

O professor e pesquisador de Harvard Vitélio Brustolin concorda que a remoção de um líder não é suficiente para desmontar uma estrutura autoritária consolidada ao longo de décadas. Ainda assim, admite que o episódio pode produzir efeitos indiretos na região. Ditaduras aliadas ao regime venezuelano, como a da Nicarágua, que encontravam respaldo político e estratégico em Caracas, podem sentir um abalo em suas bases de sustentação. Isso, segundo ele, funciona mais como um sinal de possível mudança do que como uma ruptura imediata do status quo regional.

Furriela acrescenta que a operação norte-americana não teve como objetivo declarado a derrubada da ditadura venezuelana. “A justificativa apresentada pelos Estados Unidos foi a de que Nicolás Maduro estaria ligado ao narcotráfico internacional e a grupos classificados como terroristas, e não a de promover uma mudança de regime”, afirma.

Para o cientista político Gustavo Alves, nesse contexto, a captura do líder chavista não representaria uma nova doutrina contra ditaduras na América Latina, mas sim uma ação pontual, cujos desdobramentos políticos ainda permanecem em aberto. Os reais motivos que levaram os Estados Unidos a agir contra o regime de Nicolás Maduro, analisa, ainda não foram plenamente esclarecidos.

Avaliação semelhante é a do doutor em Direito Internacional pela Universidade de São Paulo (USP), Luiz Augusto Módolo, que defende cautela diante das justificativas oficiais apresentadas por Washington. Ele lembra que, após a revogação da aplicação da Lei Magnitsky a brasileiros, tornou-se legítimo desconfiar de argumentos baseados exclusivamente em motivações humanitárias por parte do governo Trump.

“Os fundamentos alegados não foram totalmente revelados”, afirma, ao ponderar que o discurso de proteção de direitos humanos nem sempre corresponde à prática da política externa norte-americana.

Módolo admite, contudo, que os Estados Unidos podem ter chegado a um limite diante do impacto regional do governo Maduro. Segundo ele, a instabilidade provocada pela ditadura na Venezuela extrapolou as fronteiras do país e passou a afetar diretamente o continente, gerando fatores de desgaste, como crise migratória, colapso institucional e, sobretudo, avanço do narcotráfico.

“A epidemia de overdoses e dependência química nos EUA é real, e a existência de um governante acusado de chefiar um cartel, à frente de um país com vastos recursos petrolíferos, é algo claramente indesejável do ponto de vista estratégico”, observa.

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Ameaça a outros regimes e recados a China e Rússia

Gustavo Alves lembra que, no passado, Cuba foi acusada de utilizar o tráfico de drogas como instrumento de desestabilização, sem sofrer intervenção semelhante. O mesmo vale para a Colômbia, que, apesar de décadas de enfrentamento ao narcotráfico, nunca teve um governante formalmente tratado por Washington como líder de cartel - apesar das recentes subidas de tom de Trump contra Petro. Isso sinalizaria critérios seletivos na atuação dos Estados Unidos nesse tipo de ação externa.

Já Módolo defende que, além de acusações criminais, a avaliação de custo político e estratégico pesa de forma diferente em cada caso. Maduro, portanto, acabou ultrapassando todos os limites, avalia o jurista. Ele ressalta que o ditador venezuelano permaneceu no poder de forma considerada ilegítima há anos, especialmente após a última eleição, amplamente questionada por denúncias de fraude e manipulação.

Ainda assim, Módolo acredita que a ação norte-americana tende a ser pontual. “Por enquanto, o movimento parece localizado e não representa uma ameaça direta a outros regimes autoritários da região, como Cuba ou Nicarágua, a menos que haja uma deterioração que passe a afetar diretamente os interesses dos Estados Unidos”, afirma.

Outro fator relevante segundo analistas ouvidos pela Gazeta do Povo é o impacto direto da crise venezuelana dentro do território norte-americano, especialmente nos custos com saúde pública decorrentes do aumento de internações relacionadas ao consumo de drogas, o que não se notaria, de forma direta, atribuída a outras ditaduras regionais. Soma-se a isso a crescente presença de Rússia e China na Venezuela, o que, na leitura de Módolo, acendeu um alerta geopolítico em Washington.

“Os Estados Unidos apenas reafirmaram a Doutrina Monroe, atualizando-a para o século XXI”, conclui, ao apontar que a ação contra Maduro deve ser lida também como um recado estratégico às potências rivais que ampliaram sua influência na América Latina. A Doutrina Monroe é um princípio da política externa dos EUA que afirma que a América não deve sofrer intervenções europeias – neste caso aplicada à América do Sul, em troca da não interferência dos EUA em outros países.

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