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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou no começo deste mês o chamado “Projeto Vault”, um plano estratégico para criar um estoque nacional de terras raras e outros minerais críticos com o objetivo de reduzir a dependência americana da China e blindar a indústria dos EUA contra choques na cadeia de suprimentos.
De acordo com a imprensa americana, a iniciativa prevê investimentos de cerca de US$ 12 bilhões para a formação de um estoque estratégico de minerais críticos, destinados a setores como a indústria automotiva, eletrônicos, defesa e tecnologia avançada. O modelo segue a lógica da reserva estratégica de petróleo criada pelos Estados Unidos na década de 1970, após a crise do petróleo.
Conhecidas como o “ouro do século 21”, as terras raras são um grupo de 17 elementos químicos composto por escândio, ítrio, lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio e lutécio, usados na produção de componentes para motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas de defesa, radares, mísseis e satélites, além de aplicações em eletrônicos, como celulares, computadores, telas, baterias e equipamentos de telecomunicações. Por sua vez, minerais críticos são aqueles considerados estratégicos por governos devido à sua importância econômica e tecnológica. Entre eles estão o lítio, cobalto, níquel, cobre e grafite.
Segundo o governo americano, a criação do estoque é uma resposta direta às restrições impostas por Pequim durante disputas comerciais, como as registradas no ano passado, quando o regime comunista chinês limitou a exportação de terras raras usadas em setores estratégicos. A China concentra neste momento cerca de 70% da mineração global desses minerais e quase 90% da capacidade mundial de processamento, o que lhe garante amplo poder de pressão sobre países dependentes desses insumos. Trump afirmou durante o lançamento do projeto que ele busca evitar que os Estados Unidos “passem novamente” por episódios de escassez.
Além da estocagem, o “Projeto Vault” inclui acordos de longo prazo, apoio financeiro e, em alguns casos, participação acionária do governo americano em empresas da cadeia de minerais críticos. Segundo a Bloomberg, a estratégia já está fazendo Washington ampliar investimentos em mineradoras fora da China, dentro de um esforço maior para diversificar fornecedores e fortalecer parceiros estratégicos.
Nesse contexto, a América do Sul deve entrar de vez no radar estratégico dos Estados Unidos. Na quarta-feira (4), a Argentina assinou um acordo com Washington para cooperação no fornecimento e no processamento de minerais críticos, durante uma reunião ministerial liderada pelo Departamento de Estado. A iniciativa já se insere na nova estratégia da Casa Branca para reorganizar cadeias globais de suprimento fora da China.
Segundo o governo argentino, o entendimento com os EUA prevê o fortalecimento das cadeias de valor e a atração de investimentos para o setor de mineração no país. A Argentina concentra grandes reservas de minerais críticos, como o lítio - do qual é o quarto maior produtor mundial e um dos principais detentores de reservas - além de potencial ainda pouco explorado em outros insumos estratégicos.
Japão, União Europeia e México também se comprometeram com o projeto americano num primeiro encontro, realizado na quarta-feira, que reuniu cerca de 50 países.
O Brasil também participou do evento, mas informou, segundo a agência Reuters, que ainda avalia se integrará formalmente a iniciativa dos EUA – que foi descrita pelo vice-presidente J.D. Vance como parte de um esforço para reunir “aliados em torno de minerais críticos”. O Brasil possui a segunda maior reserva global de terras raras, atrás apenas da China, e o tema deve estar na pauta do encontro entre Trump e Lula, que deve ocorrer em março, em Washington DC.
Apesar da aparente “cautela” do governo brasileiro, nesta quinta-feira (5) a mineradora Serra Verde, única produtora de terras raras em atividade no Brasil, fechou um acordo de financiamento de US$ 565 milhões (cerca de R$ 3 bilhões) com o governo dos Estados Unidos, por meio da Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (DFC). O acordo inclui a opção de participação minoritária americana na empresa, localizada em Minaçu (GO).
Thras Moraitis, CEO da Serra Verde, agradeceu pelo apoio do governo dos Estados Unidos. "Esperamos trabalhar em conjunto para a construção de novas cadeias de valor independentes”, disse em nota divulgada pela empresa na quinta-feira.
O anúncio ocorreu dias após o lançamento do “Projeto Vault”, o que indica que Washington já começou a se movimentar para garantir acesso a ativos estratégicos no Brasil no âmbito de sua nova política para minerais críticos.
O governador de Goiás e pré-candidato à presidência, Ronaldo Caiado (PSD), também esteve nos EUA na semana passada, participando de reuniões para promover o estado como produtor de minerais críticos, defendendo parcerias que visem transferência de tecnologia e industrialização.
América do Sul na mira dos EUA
Na visão de Nelio Fernando dos Reis, doutor em Engenharia de Produção e diretor do Centro de Estudos Estratégicos da Iniciativa DEX, o “Projeto Vault” deve colocar a América do Sul no centro da estratégia americana por terras raras e minerais críticos.
“Um estoque estratégico como o ‘Project Vault’ só funciona se houver originação diversificada de suprimento e, principalmente, capacidade de processamento fora da China. A América do Sul entra (na mira dos americanos) justamente por reunir: (I) recursos geológicos relevantes e (II) espaço para acordos de longo prazo com previsibilidade”, destacou.
Nesse contexto, o analista apontou cinco fatores que podem consolidar o interesse de Washington na região:
1 - Diversificação geográfica de risco: que serve para reduzir concentração em poucos países/rotas.
2 - Potencial de parceria em processamento: já que o gargalo é refino/separação, não só mineração.
3 - Proximidade logística e afinidades regulatórias possíveis (quando houver acordos).
4 - Carteira de minerais críticos além de terras raras (lítio, cobre etc.), útil para compor um estoque.
5 - Espaço para contratos de longo prazo com cláusulas de investimento/transferência tecnológica.
Para o especialista, a iniciativa de Trump também coloca a região - e também o Brasil - no olho da disputa China-EUA “no sentido geoeconômico”.
“Se a China domina etapas críticas do processamento, qualquer iniciativa americana para montar estoque e resiliência redistribui demanda, financiamento e influência para países com potencial geológico e institucional. Isso coloca a região mais exposta a disputas por contratos, financiamento e padrões industriais”, destacou ele.
Brasil pode ser um fornecedor estratégico fora da China?
Na avaliação de Nelio, o Brasil está apenas parcialmente preparado para atuar como fornecedor estratégico de terras raras e minerais críticos fora da China.
“O Brasil tem potencial e já começa a aparecer no radar internacional, mas ‘ser fornecedor estratégico’ exige 3 camadas”, disse.
De acordo com Nelio, essas camadas são:
1 - Mineração/produção: onde, segundo ele, “temos avanços e capacidade de ampliar”;
2 - Processamento/refino/separação: de acordo com o analista, esse “é o ponto mais sensível; sem isso, o país vira exportador de baixo valor”;
3 - Aplicações industriais (ímãs, ligas, componentes): é onde está o poder econômico e tecnológico.
Segundo o analista, o anúncio da entrada minoritária dos EUA na mineradora Serra Verde “indica que o capital e a política industrial externa já estão se movendo aqui - o que é oportunidade, mas também exige estratégia nacional clara”.
Para a especialista em finanças e tributação Adriana Melo, o Brasil tem potencial para ocupar um papel estratégico como alternativa à China, mas apenas se avançar na construção de uma cadeia produtiva integrada e em escala.
"Se ficar apenas na exportação de intermediário, ele ajuda a diversificação do Ocidente, mas não dita condições, nem captura o prêmio estratégico”, afirmou.
Segundo a especialista, o Brasil neste momento está “preparado em recurso e oportunidade” para ser esse fornecedor, mas apenas “parcialmente em execução industrial e, sobretudo, na captura do meio da cadeia”.
Riscos e oportunidades
Para Nelio, o lançamento do Vault pelos EUA representa tanto oportunidade quanto risco para o Brasil. Segundo o doutor, “é oportunidade se o Brasil usar o interesse externo para: atrair investimento em processamento local; internalizar P&D (pesquisa e desenvolvimento) e formação de mão de obra e negociar contrapartidas industriais (conteúdo local, centros tecnológicos, compras de longo prazo)”, disse. Para ele, o projeto americano pode se tornar um risco para o Brasil caso o país não avance na agregação de valor.
“Vira risco se virar ‘corrida por ativos’ com pouca agregação de valor, exportação de concentrado ou insumo e importação do produto de alto valor, além de pressão geopolítica que reduza a margem de manobra diplomática”, disse o doutor. “O Brasil precisa tratar terras raras e minerais críticos como política de Estado: agregar valor, dominar processamento e conectar mineração à indústria. Parceria externa é bem-vinda, desde que converta recurso natural em capacidade tecnológica e industrial no território”, acrescentou.
Acirramento da disputa global
Na avaliação de Nelio, o projeto americano tende a acirrar a disputa global por terras raras e minerais críticos ao inserir um grande comprador estatal de forma coordenada no mercado.
“Um grande comprador com orçamento e coordenação estatal tende a elevar a competição por contratos, pressionar preços em alguns elos e acelerar acordos bilaterais e blocos de confiança”, afirmou. Segundo ele, esse movimento pode funcionar como um “choque de demanda estratégica”, ao apertar a oferta disponível e ampliar a rivalidade internacional em torno das cadeias consideradas críticas.
Segundo o doutor, o “Projeto Vault” ainda não elimina 100% a dependência estrutural dos Estados Unidos em relação à China, na questão de terras raras e minerais críticos, mas atua como um mecanismo de mitigação de risco no curto prazo.
“Pelo que foi divulgado, a própria lógica do Vault é resiliência e mitigação: um estoque para cobrir algo como uma janela curta de suprimento emergencial, estabilizando choques e volatilidade”, afirmou. Para ele, a iniciativa ajuda a amortecer interrupções pontuais na cadeia, mas “não substitui mineração fora da China, processamento e metalurgia e manufatura avançada”, etapas consideradas centrais para uma redução efetiva da dependência chinesa.
Na visão de Adriana Melo, a iniciativa americana deve servir como um instrumento de mitigação de risco no curto prazo e de fortalecimento do poder de barganha.
“Ele (Projeto Vault) faz as duas coisas, mas em intensidades diferentes: mitiga curto prazo de forma imediata e melhora poder de barganha”, afirmou.







