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A onda de protestos violentos que atinge a França colocou o líder de esquerda radical Jean-Luc Mélenchon, de 75 anos, no centro de uma disputa política com o governo do presidente Emmanuel Macron.
Fundador do França Insubmissa (LFI), um dos principais partidos da esquerda radical francesa, Mélenchon vê neste momento sua legenda ser acusada por autoridades do país de apoiar grupos extremistas envolvidos nos confrontos com policiais, saques e depredações registrados durante as manifestações do último final de semana, que abalaram a França.
Na terça-feira (20), o ministro do Interior francês, Laurent Nuñez, afirmou na Assembleia Nacional que o França Insubmissa tem responsabilidade política pela violência observada nas mobilizações pelo país. Ele acusou integrantes da legenda de extrema esquerda de manter vínculos com grupos radicais que participam dos protestos.
"Vocês jogaram mais lenha na fogueira. Portanto, têm uma parcela de responsabilidade pelos graves incidentes ocorridos", declarou Nuñez, durante uma discussão com o deputado Manuel Bompard, um dos principais dirigentes do LFI.
Mélenchon rejeitou as acusações e responsabilizou o governo Macron pela escalada da violência e dos confrontos. O político afirmou que os integrantes de seu partido não participam de saques e destruições vistos no país, contudo, criticou duramente a atuação da polícia na tentativa de conter a violência.
A acusação ocorre em um momento importante para Mélenchon. Candidato à Presidência nas eleições de 2012, 2017 e 2022, ele anunciou em maio deste ano que disputará novamente o Palácio do Eliseu em 2027, quando termina o segundo mandato de Macron. A candidatura de Mélenchon, no entanto, ainda não conseguiu decolar nas pesquisas, nas quais ele aparece atrás da líder de direita Marine Le Pen e dos candidatos de centro e centro-esquerda.
De socialista a fundador do França Insubmissa
Nascido em 19 de agosto de 1951, em Tânger, no Marrocos, Mélenchon começou sua militância política ainda jovem. Na década de 1970, participou de uma organização trotskista e, em 1977, ingressou no Partido Socialista francês, onde permaneceu por mais de 30 anos.
Sua carreira ganhou projeção em 1986, quando foi eleito senador. Entre 2000 e 2002, Mélenchon ocupou o cargo de ministro do Ensino Profissional no governo do premiê socialista Lionel Jospin. Na época, a França era presidida por Jacques Chirac, de centro-direita, mas o sistema político francês permitia que o governo fosse comandado por um primeiro-ministro de outro partido. Isso ocorreu porque a esquerda havia conquistado a maioria no Parlamento, obrigando Chirac a dividir o poder com os socialistas. Mélenchon também exerceu mandatos no Parlamento Europeu e na Assembleia Nacional da França.
A ruptura entre Mélenchon e os socialistas ocorreu em 2008. O agora líder da extrema esquerda acusava o partido de ter “abandonado” suas bandeiras tradicionais para adotar posições mais próximas do centro. Em novembro daquele ano, ele fundou o Partido de Esquerda, ao lado do também ex-socialista Marc Dolez. Oito anos depois, em 2016, Mélenchon criou o França Insubmissa, com a proposta de construir um movimento de oposição às políticas econômicas liberais e às instituições da Quinta República francesa.
Desde então, ele passou a defender o que chama de "revolução cidadã", uma transformação das estruturas políticas e econômicas da França por meio da mobilização popular e das eleições.
Na disputa presidencial de 2022, Mélenchon recebeu aproximadamente 22% dos votos no primeiro turno e terminou em terceiro lugar, atrás de Macron e Marine Le Pen. Em fevereiro deste ano, o Ministério do Interior passou a enquadrar o França Insubmissa na categoria de extrema esquerda para as eleições municipais. A legenda contestou a decisão, mas o Conselho de Estado rejeitou o recurso.
O que defendem Mélenchon e o França Insubmissa
As propostas de Mélenchon estão reunidas no programa L'Avenir en commun (O Futuro em Comum), que prevê mudanças profundas na economia, nas instituições, na imigração e na segurança pública da França.
Na economia, o França Insubmissa defende aumentar os impostos sobre grandes fortunas, ampliar a intervenção do Estado, elevar o salário mínimo e controlar os preços de produtos essenciais, como alimentos, energia e combustíveis. A legenda também propõe reduzir a idade de aposentadoria para 60 anos, reverter reformas trabalhistas e ampliar os investimentos em serviços públicos. Outra bandeira é a criação de uma chamada “Sexta República”, com mudanças na Constituição e maior participação popular nas decisões políticas.
Em relação à imigração, Mélenchon e sua legenda se opõem ao endurecimento das regras de entrada e permanência de estrangeiros no país. O França Insubmissa defende a regularização de trabalhadores sem documentos, a ampliação de direitos dos imigrantes e a revogação de medidas restritivas aprovadas nos últimos anos.
O político mudou recentemente sua posição sobre o uso do véu islâmico por mulheres na França. Em setembro deste ano, ele reconheceu que havia "cometido um erro" ao se opor à prática no passado e passou a defender que as mulheres tenham liberdade para decidir se utilizam a vestimenta religiosa.
"Fui convencido e mudei de opinião (sobre o uso do véu). Disse a mim mesmo que havia cometido um erro terrível", afirmou ele durante uma conferência em Paris, em setembro.
Na segurança pública, a legenda defende extinguir a Brigada de Repressão da Ação Violenta Motorizada (BRAV-M), unidade policial utilizada em manifestações, além de proibir determinados armamentos empregados no controle de multidões. Também propõe substituir os atuais órgãos de fiscalização interna da polícia por uma instituição independente e ampliar o policiamento de proximidade.
Na política externa, Mélenchon já defendeu a saída da França da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), além de maior independência em relação aos Estados Unidos. A legenda também critica a atuação militar de Israel na Faixa de Gaza e defende o reconhecimento do Estado da Palestina. Depois dos ataques terroristas de 7 de outubro de 2023, quando o grupo terrorista Hamas invadiu e realizou um massacre em Israel, o França Insubmissa evitou inicialmente classificar as ações do grupo palestino como terrorismo, preferindo descrevê-las como uma “ofensiva armada palestina”. A legenda passou a condenar explicitamente o massacre cometido pelos terroristas do Hamas em Israel como um ato terrorista apenas em 2024. O partido foi alvo de fortes críticas pela posição que decidiu seguir.
Em junho deste ano, três vítimas franco-israelenses dos ataques do Hamas apresentaram uma denúncia contra Mélenchon e sua legenda por apologia do terrorismo. Durante uma manifestação em Paris, o político questionou se os massacres cometidos pelo grupo terrorista em 7 de outubro de 2023 poderiam ser classificados como atos de terrorismo.
"A questão da forma de resistência que se opõe a uma opressão e a uma ocupação é algo que pode ser discutido, porque o direito internacional permite essa discussão", declarou.
O advogado das vítimas acusou Mélenchon de tentar apresentar os crimes do Hamas como "atos legítimos de resistência". O líder da França Insubmissa afirmou, por sua vez, que suas declarações não significavam aprovação de ataques contra civis.
Confrontos com autoridades
Em outubro de 2018, durante uma operação de busca na sede de seu partido, Mélenchon discutiu com policiais e representantes da Justiça que participavam da investigação. Em um dos momentos, registrado em vídeo, ele chegou a gritar: "A República sou eu!". O episódio teve consequências judiciais. Em dezembro de 2019, Mélenchon foi condenado a três meses de prisão e ao pagamento de uma multa de 8 mil euros por resistência e provocação durante a operação. Ele classificou a decisão como política.
O França Insubmissa também foi alvo de críticas após a morte de Quentin Deranque, militante conservador que foi agredido em Lyon, em fevereiro deste ano. Entre os investigados no caso estão integrantes do chamado “Jeune Garde”, grupo antifascista dissolvido pelo governo francês e cofundado pelo deputado Raphaël Arnault, que integra o LFI. Arnault não foi acusado de participação no crime e recebeu apoio público de Mélenchon.
A relação entre o LFI e o grupo envolvido na morte do militante conservador foi citada pelo ministro Laurent Nuñez durante a discussão parlamentar de terça-feira.
"A ligação entre o França Insubmissa e determinados grupos radicais é real. Vocês têm entre seus integrantes um deputado do Jeune Garde", afirmou o ministro.
As acusações após os protestos violentos
Mélenchon participou das manifestações do fim de semana passado em Paris, acompanhado de parlamentares e dirigentes do França Insubmissa. Durante os atos, ele criticou a política econômica do governo Macron e a resposta policial às reivindicações dos manifestantes. Após os confrontos, ele afirmou que os apoiadores de seu partido não deveriam participar de saques ou destruições. Ao mesmo tempo, ele acusou o governo de utilizar a violência como justificativa para desviar a atenção das demandas dos estudantes e trabalhadores.
As acusações contra o França Insubmissa já estão gerando debates fortes no país. O presidente do Senado francês, Gérard Larcher, afirmou na terça-feira que a possibilidade de proibir a legenda de atuar na França, com base nas acusações feitas pelo governo Macron, poderia ser discutida. Enquanto isso, Mélenchon segue se preparando para disputar novamente a Presidência francesa em 2027.







