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Da psicologia à economia e à ciência política, a literatura é inequívoca: interesses são padrões relativamente estáveis de motivação, atenção e preferência que orientam escolhas humanas, coletivas e institucionais. Onde há ação, há interesse. Onde há poder, há convergência de interesses. Na psicologia, interesses organizam a energia humana. Eles explicam por que indivíduos persistem, constroem trajetórias, formam identidades e escolhem ambientes que maximizam significado, segurança, reconhecimento e agência. Não são desvios éticos: são o combustível da ação.
Na economia, o autointeresse é o eixo da racionalidade. Desde Adam Smith, sabe-se que indivíduos buscando seus próprios fins, sob regras claras, produzem cooperação e prosperidade. O problema histórico não é o interesse em si, mas sua captura por elites predatórias e por estruturas fechadas ao controle social.
Na ciência política, interesses estruturam grupos, coalizões e Estados. Democracias funcionam porque interesses competem e se equilibram. Ditaduras sobrevivem porque interesses se concentram, se armam e se protegem mutuamente contra a sociedade que deveriam servir.
Na geopolítica, os interesses nacionais são ainda mais explícitos. Estados buscam segurança, acesso a recursos estratégicos, estabilidade regional e projeção de poder. Fingir surpresa diante disso é uma forma sofisticada de desonestidade intelectual.
Não existe desinteresse em política. O que existe é interesse ideológico travestido de virtude moral. Defender ditaduras aliadas enquanto acusa democracias de imperialismo não é ética. É cinismo
É nesse ponto que surge a grande farsa contemporânea: acusar os Estados Unidos de “agir apenas por petróleo”, como se geopolítica fosse binária, como se projetos globais se movessem por uma única variável e, especialmente, como se os atores internacionais esquerdistas fossem movidos por altruísmo ideológico! Nunca foram!
Na Venezuela, a ditadura chavista não se sustentou por ideias, mas por convergência objetiva de interesses externos, estatais e criminosos. China, Rússia e Irã encontraram ali um território funcional para seus projetos estratégicos, financeiros, militares e logísticos, todos incompatíveis com democracia e com os interesses da população venezuelana.
A China despejou até 70 bilhões de dólares em acordos de “petróleo por dinheiro”, garantindo acesso preferencial a óleo pesado com desconto, proteção informal a seus ativos e influência direta na América Latina, além de vantagem decisiva na disputa global por minerais críticos.
A Rússia transformou Caracas em vitrine antiamericana. Investiu dezenas de bilhões, vendeu armamentos, ensaiou presença militar no Caribe e usou a Venezuela como peça de barganha geopolítica enquanto negociava força em outros tabuleiros globais. O Irã foi além da energia. Usou o território venezuelano como hub de evasão de sanções, cooperação militar, logística de drones e financiamento de redes terroristas. A atuação do Hezbollah, ligada a lavagem de dinheiro, documentos falsos e narcotráfico, não foi acidente: foi projeto.
A esse eixo da esquerda somaram-se interesses do crime organizado. Cartel de los Soles, Tren de Aragua, ELN e redes transnacionais de drogas e mineração ilegal formaram uma governança criminal híbrida, em que Estado, armas e ilícitos se fundiram numa simbiose funcional ao regime. O resultado dessa convergência não foi soberania nem “justiça social”. Foi colapso. Hiperinflação, fome, destruição de serviços públicos e uma diáspora de cerca de 7,7 milhões de pessoas, quase um quinto da população venezuelana, espalhada pelo continente e outros rincões do globo.
Pesquisas recentes mostram que entre 63% e 76% dos venezuelanos rejeitavam Maduro como ilegítimo, e mais de 70% acreditavam que o país seria melhor sem ele. O interesse central da população nunca foi ideológico. Foi sobreviver, trabalhar, comer e viver sem medo. E a fraude nas eleições? Não só observadores internacionais, mas pessoas comuns atentas à política internacional viram as imagens da “sala de apurações” mostrando a vitória da oposição ao menos neste último pleito. E ainda se fala de dois outros antecedentes.
É nesse contexto que ocorre a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos. Não como ato romântico ou missionário, mas como movimento geopolítico clássico: desmontar um nó em que interesses autoritários, criminosos e hostis se reforçavam mutuamente. Os interesses americanos são múltiplos e explícitos: segurança hemisférica, combate ao narcoterrorismo, contenção de China, Rússia e Irã, redução da migração forçada, acesso ordenado a petróleo e minerais críticos e desmonte de cadeias ilícitas que corroíam o Estado venezuelano.
Reduzir isso a “ganância por petróleo” é infantilizar deliberadamente a análise. Petróleo importa, mas também importam coltan, ouro, bauxita, terras raras, rotas logísticas, segurança regional e reconstrução institucional. Geopolítica não é slogan. E aos EUA também interessam uma zona de influência geograficamente próxima por defesa do seu próprio território, além de que esteja consumindo o seu produto mais importante: a democracia.
As reações internacionais também escancararam interesses. O presidente da Coreia do Norte condenou a ação americana porque regimes personalistas dependem da retórica da soberania absoluta para justificar repressão interna. Ditadores se reconhecem e se protegem no discurso. Emmanuel Macron reagiu com cautela calculada: a França mantém diálogo histórico com a oposição venezuelana, mas precisa equilibrar interesses europeus, contratos energéticos e estabilidade regional. Pragmatismo, não moralismo.
Marine Le Pen, politicamente vinculada à órbita russa, adotou discurso crítico à ação americana porque a queda de Maduro enfraquece Moscou e desmonta uma vitrine antiocidental útil ao Kremlin. Ideologia e alinhamento estratégico caminham juntos muitas vezes. (A esquerda que o diga!)
Já Lula ofereceu talvez a reação mais reveladora. Em nome de uma retórica vazia de “não intervenção”, silenciou sobre narcoterrorismo, miséria, diáspora e crime transnacional. Não por neutralidade, mas por alinhamento ideológico e interesse político. Aqui está a mentira central da esquerda brasileira: a ideia de “desinteresse”. Não existe desinteresse em política. O que existe é interesse ideológico travestido de virtude moral. Defender ditaduras aliadas enquanto acusa democracias de imperialismo não é ética. É cinismo.
Durante décadas, essa esquerda denunciou imperialismos abstratos, mas hoje defende regimes concretos sustentados por drogas, terrorismo e fome, desde que úteis à sua narrativa. Não é pacifismo. É conveniência. Interesses sempre existem, inclusive ideológicos. O erro moral não está em tê-los, mas em fingir que não existem enquanto se justificam opressões reais em nome de abstrações políticas.
Num Estado moderno, o critério honesto é simples: quais interesses convergem com as necessidades humanas concretas da população atingida. No caso venezuelano, goste-se ou não, os interesses dos Estados Unidos convergem hoje com o desejo majoritário por democracia, estabilidade e reconstrução.
A autodeterminação da Venezuela não nascerá de slogans nem de discursos moralistas. Nascerá da reorganização dos interesses. E o colapso da convergência entre ditadura, crime e potências autoritárias é o primeiro passo para que os venezuelanos voltem, enfim, a decidir o próprio destino.
Zizi Martins, vice-presidente da ANED, membro fundadora e diretora da Lexum, presidente do Instituto Solidez e membro do IBDR, é advogada, com mestrado em Direito Público e especialização em Direito Religioso, doutora em Educação e pós-doutora em Política, Comportamento e Mídia.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



