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A lição dos ganhadores do Nobel de Economia para o Brasil

Ilustração dos economistas Robert Hall e Michael Woodford, vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2026
Ilustração dos economistas Robert Hall (E) e Michael Woodford, vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2026. (Foto: Niklas Elmehed/Nobel Prize Outreach)

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Uma família descobre que terá aumento de salário no próximo ano e começa a planejar a reforma da casa. Outra recebe um bônus inesperado, mas prefere poupá-lo. Por que decisões tão diferentes? A resposta ajuda a entender a contribuição de Robert Hall, que divide com Michael Woodford o Nobel de Economia de 2026.

Desde John Maynard Keynes, sabemos que o consumo tende a crescer quando a renda aumenta. Milton Friedman e Franco Modigliani, também laureados com o Nobel de Economia, mostraram que as famílias consideram não apenas a renda atual, mas os recursos que esperam ter ao longo da vida.

O Nobel reconhece em Hall uma mudança duradoura na forma de entender o consumo: o futuro pesa nas decisões de hoje. Mas, para quem não tem poupança nem crédito, saber que o dinheiro virá não significa poder gastá-lo

Em 1978, Hall deu um passo além. Sob hipóteses específicas, demonstrou que mudanças no consumo não deveriam ser previsíveis com informações já conhecidas. É a hipótese do “passeio aleatório”: em sua versão mais simples, a melhor previsão para o consumo de amanhã é o de hoje. Não porque as pessoas gastem ao acaso, mas porque só notícias inesperadas exigiriam uma revisão de seus planos.

A descoberta mudou o debate sobre política econômica. Uma redução temporária de impostos pode ter efeito diferente de um aumento duradouro da renda. Importam as expectativas e a possibilidade de poupar ou tomar empréstimos.

O Bolsa Família ilustra um limite importante dessa teoria. Uma família pode saber quando receberá o benefício e, ainda assim, precisar esperar o depósito para comprar alimentos. Outra, com reservas ou crédito, consegue antecipar gastos. Pesquisas posteriores a Hall mostraram por que essas restrições financeiras importam.

Para o governo, não basta calcular quanto transferir. É preciso considerar quem recebe, por quanto tempo e em quais condições. Aliviar a pobreza e estimular a atividade são objetivos distintos, que exigem avaliações próprias.

O Nobel reconhece em Hall uma mudança duradoura na forma de entender o consumo: o futuro pesa nas decisões de hoje. Mas, para quem não tem poupança nem crédito, saber que o dinheiro virá não significa poder gastá-lo. É nessa distância entre expectativa e possibilidade que a política econômica precisa prestar atenção.

Giacomo Balbinotto Neto é professor de Economia do PPGE/UFRGS.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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