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Editorial

Alcolumbre dá presente eleitoreiro a Lula com votação da escala 6×1

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Aprovação rápida do fim da escala 6x1 é conveniente tanto para Lula quanto para Davi Alcolumbre. (Foto: ChatGPT sobre foto de José Cruz/Agência Brasil)

Davi Alcolumbre está nas cordas. Seu principal adversário político se elegeu governador no Amapá; sua candidata ao Senado ficou apenas em quinto lugar; e Flávio Bolsonaro já avisou que, se eleito, não apoiará nem Alcolumbre nem Hugo Motta nas disputas pela presidência do Senado e da Câmara, respectivamente. Cada vez mais a sobrevivência política do senador amapaense depende de uma vitória de Lula no segundo turno da corrida ao Planalto, e por isso o presidente do Senado resolveu dar um presente a seu aliado: na última sexta-feira, ele marcou para esta quarta-feira a votação, em primeiro turno, da PEC que acaba com a escala 6x1 e reduz a jornada de trabalho semanal – e, a depender do resultado, nada impede que os prazos regimentais sejam abolidos para que a segunda votação ocorra na mesma sessão.

Neste espaço, já explicamos inúmeras vezes por que, mesmo compreendendo o desejo da enorme maioria dos brasileiros por mais tempo livre para se dedicar à família e a interesses pessoais, consideramos que a PEC tem inúmeros problemas. Ela novamente privilegia canetadas impostas de cima em vez de fomentar o espírito de negociação entre patrões e empregados; difunde a ilusão de que o brasileiro será capaz de produzir mais riqueza trabalhando menos tempo, sem que todos os outros fatores que influenciam nossa (baixíssima) produtividade sejam resolvidos; impõe novas despesas a quem produz, despesas que serão inevitavelmente repassadas ao preço final de produtos e serviços. Enfim, falamos de menos crescimento econômico, mais dificuldade para contratar, aumento de custos para pequenos negócios, redução das oportunidades para quem procura emprego, e menos perspectivas de crescimento profissional – efeitos que estão sendo sumariamente ignorados no parco debate sobre o tema, apesar dos alertas do setor produtivo, e que certamente influenciariam a percepção do brasileiro sobre a proposta.

Apressando a votação da PEC da escala 6x1, Lula e Alcolumbre estão apenas usando o trabalhador brasileiro como escada para manterem o próprio poder

Em condições normais, levar adiante uma votação de matéria tão importante sem a devida discussão já seria uma enorme irresponsabilidade. Mas nem sequer estamos em condições normais: estamos em meio a uma disputa eleitoral acirradíssima, em que o candidato preferido do atual presidente do Senado está atrás nas pesquisas e precisa desesperadamente de uma bala de prata, a uma semana e meia do segundo turno. A PEC da escala 6x1 é esse trunfo, com uma vantagem dupla: não apenas Lula poderá se proclamar o “pai da criança” na propaganda eleitoral, mas também colocará o senador Flávio Bolsonaro e o grupo que atualmente está na oposição, majoritariamente contrário à pauta, em uma sinuca de bico. Esses senadores podem votar contra a PEC e correr o risco de serem rotulados como “inimigos do trabalhador”, ou podem endossar a proposta (como o próprio Flávio afirmou que fará) para evitar a pecha, mas entregando uma vitória fácil (e o dividendo eleitoral) a Lula.

Cabe, portanto, aos senadores com senso de responsabilidade uma postura firme e corajosa. Primeiro, denunciar o uso eleitoreiro de uma proposta com efeitos diretos sobre a vida de dezenas de milhões de trabalhadores do país. Segundo, fazer o que for possível para retardar a tramitação, de forma que o debate seja descontaminado de seu fator eleitoral e possa de fato incluir todos os interessados, analisar os números, comparar experiências de outros países, e avaliar alternativas. E terceiro, aproveitar todas as chances possíveis para explicar aos brasileiros, com todo o didatismo possível, que não são contra os trabalhadores, mas contra a votação apressada de propostas cujos efeitos precisam ser conhecidos, na medida do possível – e contra propostas que, por trás da roupagem de preocupação com o bem-estar do trabalhador, podem acabar inviabilizando seu desejo de prosperar e construir riqueza para si e sua família.

No fim das contas, Lula e Alcolumbre estão apenas usando o trabalhador brasileiro como escada para manterem o próprio poder. Um quer vender a PEC como grande realização a um eleitorado que, até o momento, parece resistir à ideia de lhe dar um quarto mandato presidencial; outro quer montar o palanque para se manter no comando do Senado – e, com isso, seguir também blindando covardemente os ministros do Supremo Tribunal Federal que se tornaram indignos de sua toga e mereciam o julgamento por crimes de responsabilidade. Que a PEC da escala 6x1 seja debatida com franqueza e tranquilidade – tudo o que essa votação de quarta-feira não representa.

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