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Editorial

Ata do Copom põe mais peso na irresponsabilidade fiscal que na guerra

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Gabriel Galípolo, presidente do BC, e todos os outros diretores atuais da autoridade monetária foram indicados por Lula. (Foto: ChatGPT sobre foto de Raphael Ribeiro/Banco Central)

Após cada reunião do Copom, o mercado financeiro e os analistas aguardam a divulgação da ata da reunião, que ocorre sempre na terça-feira da semana seguinte. O documento aprofunda os motivos brevemente descritos nos comunicados publicados imediatamente após cada reunião, e que explicam a decisão relativa à taxa Selic. O comunicado da semana passada já antecipava que a crescente incerteza derivada da guerra em curso no Oriente Médio havia influenciado a redução de 0,25% na Selic, em vez do 0,50% esperado antes do início dos ataques ao Irã; mas a ata mostrou que há outros motivos tão relevantes quanto o conflito para que os juros tenham sofrido a redução mínima.

Que o ataque norte-americano e israelense ao Irã, com todos os seus efeitos sobre a cadeia de produção e distribuição de petróleo, foi um gatilho poderoso é algo incontestável. O comunicado o afirma, quando relata que “as expectativas de inflação (...), que seguiam em trajetória de declínio, subiram após o início dos conflitos no Oriente Médio, permanecendo acima da meta de inflação em todos os horizontes”. Ninguém sabe por quanto tempo a guerra durará, se o Estreito de Ormuz será desbloqueado (e se isso ocorrerá por negociação ou pela força), e por quanto tempo e com que intensidade os preços do petróleo continuarão oscilando; assim como é impossível prever se, uma vez encerrada a guerra, a commodity retornará aos valores antigos, ou se os patamares atuais serão o “novo normal”.

Se Lula não estivesse pressionando tanto as contas públicas e forçando um aquecimento da economia pelo estímulo ao consumo, talvez uma redução maior na Selic fosse possível mesmo em meio à guerra

A ata, no entanto, dedica mais espaço a um outro problema, este bem brasileiro, que à guerra em si: a gastança desenfreada do governo petista. Os diretores do Banco Central introduzem o assunto dizendo que “a política fiscal tem um impacto de curto prazo, majoritariamente por meio de estímulo à demanda agregada, e uma dimensão mais estrutural, que tem potencial de afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e impactar o prêmio a termo da curva de juros”, e que “uma política fiscal que atue de forma contracíclica e contribua para a redução do prêmio de risco favorece a convergência da inflação à meta”, ou seja, que responsabilidade fiscal ajuda a puxar os juros para baixo. Mas é o que tem ocorrido?

Nem de longe, respondem os membros do Copom. “O esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade”, afirma o comunicado. Em outras palavras, se Lula não estivesse pressionando tanto as contas públicas e forçando um aquecimento da economia pelo estímulo ao consumo, talvez uma redução maior na Selic fosse possível mesmo em meio à guerra. Ou, melhor dizendo, com um governo fiscalmente responsável os juros nem sequer teriam subido até 15%; estariam em um patamar mais baixo e menos proibitivo para investimentos. E o Copom ainda diz que é preciso “calibrar e refinar os impactos da medida de ampliação da isenção do Imposto de Renda”.

Uma outra observação do Copom chama a atenção. Ao tratar do mercado de trabalho, o comitê afirmou na ata que “a taxa de desemprego tem se mantido em patamares historicamente baixos enquanto os rendimentos reais médios têm mantido a tendência de elevação acima do crescimento da produtividade do trabalho”, e fala de uma “avaliação dos padrões de transmissão dos níveis de ocupação para os rendimentos do trabalho e, finalmente, para os preços dos diversos setores da economia”. Este trecho evoca um episódio passado em que Lula distorceu uma fala do então presidente do BC Roberto Campos Neto.

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Em abril de 2024, Campos Neto havia dito praticamente o mesmo que estão dizendo agora os membros do Copom – todos eles indicados por Lula –, mas foi um tanto mais direto: “quando as empresas não conseguem contratar e têm de começar a subir o salário para o mesmo nível de produção, significa que você está iniciando um processo inflacionário”. Na ocasião, Lula acusou Campos Neto de querer que o brasileiro não ganhasse mais, omitindo malandramente a condicional sobre o aumento de produtividade: se a demanda cresce (pois as pessoas estão recebendo mais e têm mais dinheiro para gastar), mas a oferta não (porque a produtividade não acompanha a elevação dos salários), os preços sobem; é lei básica da economia, que não é revogada só porque um presidente afirma que “os livros estão superados”.

O terraplanismo econômico petista já demonstrou ser mais devastador que uma pandemia de dimensões planetárias – a recessão de 2015-2016, consequência da “Nova Matriz Econômica” lulodilmista, foi mais severa que a retração causada pelo “fecha tudo” da Covid-19. Ainda que os efeitos da guerra entre americanos, israelenses e iranianos sejam mais intensos neste momento, no médio e longo prazos a repetição da estratégia do passado, com estímulo ao consumo para sustentar um aquecimento da economia, trará prejuízos ainda maiores para o país e exige mais preocupação que o conflito. E desta vez Lula não pode culpar mensageiros “nomeados por Bolsonaro” para descartar o alerta.

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