
O banqueiro Daniel Vorcaro está de volta à cadeia. Ele já tinha sido preso em 17 de novembro do ano passado, quando tentava sair do país – segundo ele, para negociar a aquisição do Banco Master –, e foi solto 12 dias depois, ao mesmo tempo em que o caso “subia” da primeira instância para o STF. A nova ordem, cumprida na quarta-feira, dia 4, veio do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo, e se baseia no conteúdo das mensagens trocadas entre Vorcaro e vários interlocutores; elas expõem a ousadia da máfia criada pelo banqueiro, e a extensão da rede de relacionamentos criada por ele.
Já se sabia que havia uma teia de fundos de investimento e instituições financeiras montada para dar aparência de legalidade às fraudes que deixaram o Master à beira da bancarrota; que Vorcaro havia contratado a peso de ouro o escritório de advocacia da mulher de Alexandre de Moraes; e que o banqueiro estava pagando influenciadores para questionar a credibilidade do Banco Central, quando a autoridade monetária estava prestes a negar a compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Mas o celular do banqueiro mostrou que havia muito mais – inclusive uma estrutura de intimidação, que contava até mesmo com um “sicário”, chamado assim mesmo, sem vergonha alguma de camuflar o papel de quem era encarregado de fazer o trabalho sujo, como nos planos de “moer” uma empregada ou “quebrar os dentes” do jornalista Lauro Jardim, de O Globo. Um dos membros da “Turma” conseguia acessar os sistemas da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e até da Interpol.
Não há absolutamente nada na história do Master que não desperte suspeita e não mereça todo o esforço das instituições para esclarecer quem ajudou Vorcaro, de que forma e por quais motivos
Diante disso tudo, é assombroso que a Procuradoria-Geral da República tenha considerado que não havia urgência para a prisão de Vorcaro e vários de seus cúmplices, como o cunhado Fabiano Zettel, o “sicário” Luiz Phillipi Mourão e o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. Ainda que as tais agressões desejadas por Vorcaro não tenham se concretizado, era gritante o risco de mantê-los todos soltos, até porque outras atividades ilícitas estavam em curso (como o acesso aos sistemas dos órgãos de investigação). Se tudo o que a PF encontrou no celular de Vorcaro não configurava urgência aos olhos da PGR, difícil imaginar o que mais seria necessário para o Ministério Público endossar o pedido de prisão.
A PGR, neste caso, pode até ter considerado que agia com prudência, mas na verdade foi tíbia, omissa, covarde. E este é o maior risco para o Brasil neste momento crucial. O escândalo do Banco Master pode ganhar dimensões iguais ou maiores que o mensalão ou a Lava Jato, se não nos valores movimentados, certamente na forma como o esquema se entranhou nos círculos do poder em Brasília e na oportunidade de, com o perdão do clichê, “passar o Brasil a limpo”. As conversas de Vorcaro também evidenciam sua proximidade com figuras graúdas do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, sua influência em órgãos como o Banco Central, a “compra de consciências” no jornalismo. O banqueiro jamais teria chegado aonde chegou, fazendo o que fazia, sem uma multidão de cúmplices e de omissos.
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Se antes já era muito difícil para o presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre, e para o presidente da Câmara, Hugo Motta, justificarem a não abertura de uma CPI ou CPMI do Banco Master, já se passaram horas suficientes desde a prisão de Vorcaro e a divulgação de conversas do banqueiro para que essa recusa ganhe ares de prevaricação. Mas Brasília anda com medo do que mais pode aparecer, de quem mais pode ser citado, de que outras amizades ou favores podem ser expostos. Se há instituições fazendo o seu trabalho, há outras que estão paralisadas, cientes de que “se ele [Vorcaro] fizer uma delação premiada, meia República vem abaixo”, como disse o senador Jorge Kajuru.
O timing e o conteúdo das conversas (incluindo aquelas com Moraes no dia em que Vorcaro foi preso pela primeira vez), a maneira como Dias Toffoli tentou esconder do país sua sociedade em uma empresa que fez negócios com Vorcaro e como ele tentou impor sigilo total às investigações, os contratos multimilionários sem explicação, a tentativa bizarra do Tribunal de Contas da União de desqualificar o Banco Central – não há absolutamente nada na história do Master que não desperte suspeita e não mereça todo o esforço das instituições para esclarecer quem ajudou Vorcaro, de que forma e por quais motivos. Todos – Congresso Nacional, PF, PGR, STF, BC, TCU – devem isso ao Brasil, e é imperativo que, em meio aos covardes e aos cúmplices, haja gente de valor em todas essas instituições que esteja disposta a não deixar nada passar em branco.







