
A PEC que acaba com a escala 6x1 e reduz a jornada de trabalho semanal de 44 para 40 horas precisava de 308 votos para ser aprovada na Câmara dos Deputados, mas passou com muito mais que isso: 472 votos no primeiro turno e 461 no segundo, realizado poucos minutos depois da votação anterior. Era sabido que a esquerda e o Centrão, juntos, conseguiriam o apoio necessário para aprovar a PEC; lamentável foi ver que grande parte da direita, que no discurso se opôs à mudança na escala e à redução da jornada de trabalho, também deu sua contribuição para aprovar o texto – as exceções foram a bancada do Novo, 9 dos 97 deputados do PL, o único deputado do Missão, e alguns “rebeldes” do PP, do PSD, do União Brasil e do MDB.
Curioso – para não dizer vergonhoso – foi o caso da Frente Parlamentar Mista do Empreendedorismo (FPE), que tem 207 deputados, número suficiente para bloquear uma PEC, ainda que por diferença mínima. Mas quase nove em cada dez parlamentares da frente deram seu “sim” à PEC do fim da escala 6x1 e da redução da jornada de trabalho. Não lhes bastou assistir impassíveis aos discursos que demonizavam o empreendedor brasileiro, não lhes bastou ignorar os estudos sobre os efeitos que essa mudança drástica (e repentina, dado o exíguo prazo de transição) terá especialmente sobre os pequenos e médios negócios: eles resolveram endossar tudo isso com seu voto – e, em alguns casos, insultar a inteligência do brasileiro na sequência.
Quem de fato considera populismo a adoção da escala 5x2 e a redução de jornada poderia simplesmente ter votado “não”
O argumento mais estapafúrdio usado por esses parlamentares foi uma defesa retórica de uma medida ainda mais radical: a escala 4x3, com três dias de folga por semana. “‘Vamo, bora’ colocar a escala 4x3 e quebrar o Brasil rapidinho para depois catar e refazer. Não dá, pessoal, chega de populismo. Vamos lá, escala 4x3, eu sou a favor”, afirmou Paulo Bilynskyj (PL-SP). Um discurso que até como exagero retórico é irresponsável, pois é muito fácil falar em fomentar “quebradeira” quando não é o próprio ganha-pão que está em jogo – e os próprios deputados admitem que a “quebradeira geral” serviria apenas para acelerar a catástrofe para antes de outubro, de forma que o eleitor pudesse defenestrar a esquerda e eleger a direita ainda este ano. Como os quebrados se reergueriam depois? Isso seria problema deles.
Não bastasse a irresponsabilidade, ela ainda é o clássico caso de non sequitur, a falácia em que a conclusão não deriva das premissas. Só porque o Congresso não quis analisar a possibilidade de implantar a escala 4x3 (e felizmente isso não passou pela cabeça dos congressistas, embora houvesse parlamentares da esquerda radical seriamente comprometidos com a ideia), isso não explica a opção pelo voto “sim” dos deputados da direita e da FPE. Quem de fato considera populismo a adoção da escala 5x2 e a redução de jornada poderia simplesmente ter votado “não” – seria um protesto muito mais direto, ainda que acabasse derrotado.
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O que parece implícito, embora não se queira admitir, é que a motivação real era o medo de acabar rotulado como “inimigo dos trabalhadores” durante a campanha graças a um eventual voto “não”. O que eles não sabem é que a pecha virá, independentemente do que tivessem votado na quarta-feira, porque é assim que a esquerda funciona. O irônico é que a covardia de quem era contra a PEC, mas votou pela sua aprovação, tem tudo para se voltar contra eles como um bumerangue. “A gente quer mostrar que, quando der m..., a culpa é deles”, afirmou Nikolas Ferreira (PL-MG). Não é mais verdade: quando as empresas que não conseguirem se adaptar tiverem de demitir ou subir preços, a culpa não será só “deles”, mas de todos e cada um dos que apertaram o botão de “sim” no plenário da Câmara.



