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Editorial

Um cessar-fogo frágil e o dilema dos Estados Unidos

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Foto de 2019 mostra petroleiro navegando pelo Estreito de Ormuz. (Foto: ChatGPT sobre foto de Mehdi Dehdar/EFE/EPA)

Ao contrário de outras ocasiões, em que os recuos de Donald Trump fortaleceram valentões como Vladimir Putin, desta vez foi melhor para o mundo todo que o presidente norte-americano não tenha cumprido uma ameaça. E pouco importa se a retórica sobre “uma civilização inteira morrer hoje à noite” era apenas bravata para arrancar concessões, ou se havia uma intenção concreta de agir em larga escala contra o Irã: a realização dessa promessa seria uma catástrofe de enormes proporções. Mas o cessar-fogo costurado pelo Paquistão é tão frágil que já corre o risco de naufragar antes mesmo das negociações previstas para ocorrer no fim de semana.

Basta ver o que ocorreu com o Estreito de Ormuz nas últimas horas. A reabertura total do estreito, por onde passa parte significativa da produção mundial de petróleo, era parte do acordo, mas os iranianos já retomaram as restrições devido à continuação da campanha israelense contra os terroristas do Hezbollah (apoiados pelo Irã) no Líbano. O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, afirmou na terça-feira que o cessar-fogo incluía o Líbano, o que foi negado tanto por Israel quanto pelos Estados Unidos – os israelenses ainda afirmaram ter interceptado mísseis iranianos depois do anúncio da trégua.

Há dois objetivos na campanha militar norte-americana e israelense cuja sensatez até os críticos de Trump hão de aceitar: o fim do programa nuclear iraniano e o fim do financiamento dos aiatolás ao terrorismo internacional. A corrida iraniana por uma bomba atômica e as ações dos proxies iranianos no Oriente Médio – como o Hamas, o Hezbollah e os houthis do Iêmen – são fatores de desestabilização na região; esta é a melhor chance em muito tempo para colocar um fim nas ambições de Teerã, e os Estados Unidos estariam errados se não insistissem nesses dois pontos.

Não é absurdo imaginar que os iranianos só concordem em normalizar a navegação em Ormuz em troca da aceitação da continuidade de seu programa nuclear

O governo iraniano, no entanto, parece disposto a manter seu enriquecimento de urânio, a ponto de ter incluído esse item na lista prévia de dez reivindicações enviada aos norte-americanos – veículos de imprensa afirmaram que este item específico estava na versão em farsi, mas não na versão em inglês divulgada pela imprensa estatal iraniana. Já os Estados Unidos teriam recusado essa primeira proposta do Irã, aceitando outra mais condensada, mas sem dizer o que ela continha. Este impasse é parte do grande dilema em que se colocou não apenas Trump, mas o Ocidente democrático e, no fim das contas, toda a comunidade internacional que depende do petróleo que transita pelo Golfo Pérsico.

O controle da navegação em Ormuz tem dado aos iranianos um poder de barganha considerável. A capacidade de causar uma disrupção global no mercado de petróleo é uma arma preciosa para a teocracia islâmica e uma fraqueza para o mundo ocidental e especialmente para os Estados Unidos – recorde-se, por exemplo, o recuo de Trump em seu tarifaço depois que o aumento no preço de produtos importados criou pressão inflacionária interna. Não é absurdo imaginar que os iranianos só concordem em normalizar a navegação em Ormuz em troca da aceitação da continuidade de seu programa nuclear. E isso limitaria as alternativas norte-americanas.

Um recuo, para evitar um agravamento das consequências econômicas em ano de eleições para o Congresso, seria a desmoralização dos Estados Unidos e uma vitória não apenas para o Irã, mas também para Rússia e China, que sorriem ao ver as rusgas entre Trump e seus aliados da Otan, que não desejam (e nem são obrigados a) participar de uma guerra que não provocaram – e da qual nem foram avisados, como admitiu o próprio Trump. Uma ação terrestre maciça para retirar os iranianos das proximidades do estreito teria consequências imprevisíveis, além de Trump sempre ter feito campanha rejeitando a ideia de “botas no solo” e criticando o uso de tropas norte-americanas em governos democratas.

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Outra opção seria continuar a campanha militar nos moldes atuais, com bombardeios que debilitariam ainda mais a infraestrutura militar iraniana. Essa opção, no entanto, pode não resolver o problema de Ormuz, nem levar à queda do regime dos aiatolás, apesar da incerteza atual sobre o paradeiro do novo líder supremo, aiatolá Mojtaba Khamenei – e, ainda que ele acabe morto, um substituto surgirá rapidamente. Além disso, não há como saber se (ou em que grau) os bombardeios norte-americanos e israelenses conseguiriam retardar o programa nuclear iraniano. Um prolongamento dessa campanha sem resultados definitivos ainda aumentaria o desgaste de Trump dentro e fora dos Estados Unidos.

O Irã quer se tornar um Estado nuclear, filoterrorista e chantagista, e é preciso encontrar o melhor meio de freá-lo sem trazer mais instabilidade – um objetivo difícil, mas não impossível. Certo é que tal meta não será atingida com ameaças (apocalípticas ou não) na internet; é urgente trocá-las por mais clareza estratégica – definir, afinal, o que os EUA querem no Irã e agir de acordo com esse plano – e pressão para que os iranianos não se sentem à mesa tendo as melhores cartas na mão. Que as negociações previstas não descarrilem antes mesmo de começar e que a comunidade internacional também esteja disposta a se engajar na construção de um acordo que torne o Oriente Médio e o mundo mais seguros.

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