
Sempre atrás de mais dinheiro do consumidor brasileiro para conseguir financiar a gastança – que, em ano eleitoral, deve ser ainda maior –, o governo federal, que tanto reclamou do tarifaço alheio, resolveu instituir o próprio tarifaço. No início do mês, o vice-presidente Geraldo Alckmin, que acumula o cargo de ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, assinou uma resolução elevando o Imposto de Importação (II) de mais de mil produtos dos setores de telecomunicações, informática e bens de capital como máquinas e equipamentos. Fernando Haddad, ministro da Fazenda, jura que o objetivo da medida é puramente regulatório, mas o governo estima que o aumento das alíquotas fará entrar nos cofres públicos R$ 14 bilhões, o equivalente a 40% da meta de superávit primário para 2026, que é de 0,25% do PIB.
Além de consumidores e empresas, que terão de pagar mais pelos produtos importados – e a promessa de alíquota zero para produtos que não tiverem similar produzido no Brasil não serve de consolo –, as grandes perdedoras são a competitividade e a produtividade brasileiras. Segundo dados de 2025 da Organização Mundial do Trabalho, o trabalhador brasileiro já produz, em média, muito menos que o de países desenvolvidos: são US$ 21,20 por hora, menos até que um cubano (US$ 22,60/hora); bem longe de norte-americanos (US$ 81,80/hora) e japoneses, os menos produtivos dentro do G7 (US$ 52,70/hora); e muito longe dos campeões do ranking, os irlandeses (US$ 164,70/hora).
O Brasil precisa de maior abertura ao comércio exterior e maior facilidade para a absorção de tecnologia e inovação, e não de protecionismo
As razões para a baixa produtividade do brasileiro são muitas e variadas, mas incluem o baixo acesso ao que há de mais avançado em termos de tecnologia. O caminho natural, portanto, seria maior abertura ao comércio exterior e maior facilidade para a absorção de tecnologia e inovação, trazendo para o Brasil o que de melhor está sendo feito fora dele. Esse movimento já estava em curso: segundo o Ipea, de janeiro a novembro de 2025 os investimentos em máquinas e equipamentos nacionais caíram 3%, enquanto subiram 23,2% no caso das máquinas e equipamentos estrangeiros, na comparação com o mesmo período de 2024. A participação de bens de capital importados subiu de 33,6% em 2017 para 45% em 2025; no ano passado, as importações de máquinas e equipamentos somaram US$ 28,8 bilhões, contra US$ 11,5 bilhões em exportações. Isso deveria ser visto como bom sinal de modernização do parque fabril nacional, mas o governo só enxergou uma ameaça.
O tarifaço brasileiro foi comemorado pelos produtores nacionais de máquinas, bem como pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) – que, aparentemente, preferiu olhar para apenas um setor, sem considerar os gastos adicionais impostos a outros ramos da indústria, como a metal-mecânica, automotiva, química ou de alimentos. É verdade que empreender e produzir no Brasil é tarefa hercúlea, mas trocar a pressão contra os fatores que encarecem o produto nacional (dos impostos à infraestrutura deficiente de transporte) pelo lobby protecionista sempre se revelou um tiro no pé no médio e longo prazo. A Lei de Informática não fez do Brasil uma potência do setor – para ficar em apenas um exemplo de políticas desenhadas para “incentivar a indústria nacional” que jamais atingiram seus objetivos.
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O tarifaço de Lula, Alckmin e Haddad ainda deve afetar os setores de energia (geração, transmissão e energias renováveis), de mineração, óleo e gás, e também o agronegócio, além de outros ramos mais específicos e muito dependentes de atualização tecnológica constante. Eles terão de escolher entre continuar trazendo do exterior o que houver de mais avançado, mas pagando um preço mais alto (e repassando-o ao consumidor final, ao contrário do que promete Haddad), ou contentar-se com bens de capital de qualidade inferior e/ou preço maior que os importados. É assim que atraso brasileiro vai se perpetuando.







