
Já em campanha aberta para a reeleição, o presidente Lula conta com a aprovação do projeto de lei que acaba com a chamada “jornada 6x1” – de preferência, com a redução do número de horas semanais, de 44 para 40, e sem redução corresponde no salário, como afirmou o ministro do Trabalho, Luiz Marinho. A ideia tem recebido apoio até mesmo de setores de oposição ao governo Lula – não tanto por convicção, mas justamente por se tratar de uma época em que o receio de desagradar potenciais eleitores fala mais alto.
Não negamos que se trata de um discurso que soa, à primeira vista, atraente para muitos brasileiros. Afinal, não há quem não gostaria de ter mais tempo para a própria família, para o descanso e o lazer, para cultivar seus hobbies, praticar um esporte, aprender algo novo. Este anseio é totalmente natural. Mas, ao contrário do que tem sido propagandeado pelo governo, essa diminuição, da forma como está sendo proposta, não será vantajosa, nem atende a uma outra expectativa fundamental das pessoas.
A verdadeira empatia com o trabalhador não está em prometer menos horas, mas em criar condições para que ele ganhe mais e prospere
As evidências mais robustas e o consenso majoritário dos melhores economistas apontam para a falsidade da ideia segundo a qual a diminuição das horas trabalhadas poderá levar a um aumento da produtividade – que, no Brasil, recorde-se, é muito baixa – e do aumento de vagas. Há, também, questões de princípio: nunca é saudável limitar a liberdade, incluindo a liberdade econômica e a de empreender, por meio de restrições que não sejam estritamente exigidas pela dignidade da pessoa humana. No entanto, não é nosso objetivo, no momento, apresentar essas objeções; pretendemos, sim, relembrar uma outra realidade, de cunho sociológico e até mesmo antropológico; ela pode ser a peça que falta no quebra-cabeças, ajudando entidades e parlamentares a escapar – e ajudar outros a sair – da armadilha da opinião pública na qual sentem-se presos.
A grande verdade é esta: o brasileiro, na sua grande maioria, é alguém que gosta de trabalhar. A ideia do brasileiro preguiçoso e indolente, um verdadeiro Macunaíma, pode até ser popular, mas é falsa. Tão falsa quando a ideia de que a jornada 6x1 ou as 44 horas semanais sejam em si excessivas ou abusivas, onerando excessivamente o trabalhador. Nosso país é feito de pessoas que entendem a necessidade de aproveitar as oportunidades de crescer, de proporcionar uma vida melhor para si mesmos e para suas famílias, e também de contribuir para o bem comum.
No momento atual do país, a prioridade não é trabalhar menos, mas produzir mais e criar condições para que o país deslanche economicamente. Nenhum trabalhador se contenta em seguir vivendo de um mês para outro, simplesmente garantindo que o salário chegue ao fim do mês (making ends meet, na expressão em inglês); todos sonham em prosperar e proporcionar melhores condições de vida para sua família – inclusive para que possam desfrutar melhor os momentos de folga e lazer. Esses são os verdadeiros anseios, interesses e prioridades dos brasileiros, mas a redução de jornada de trabalho feita por meio da imposição e da canetada – e aqui temos um aspecto crucial, pois a lei já permite que patrões e trabalhadores negociem livremente a jornada, desde que não se abra mão do mínimo necessário, como o repouso semanal – apenas dificultaria que esses interesses fossem atendidos.
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Se uma redução de jornada imposta ao setor produtivo por força legal não leva ao aumento da produtividade, nem ao aumento das vagas de trabalho, ela se tornará um peso indevido e irracional, colocado sobre os ombros de qualquer pessoa ou organização que contrate trabalhadores, que gere emprego e renda, ajudando a desenvolver o país.
O trabalho pode, de fato, ser desgastante, ou mesmo frustrante, quando é algo diferente ou distante do que uma pessoa desejaria para si mesma. Mas a jornada de 44 horas semanais, em si mesma, não é desumana. E o amor pelo trabalho, diga o oposto quem disser, é uma característica do brasileiro. O trabalho continua sendo a grande oportunidade de dar o melhor de si mesmo, ganhar o pão de cada dia e forjar uma comunidade. A verdadeira empatia com o trabalhador não está em prometer menos horas, mas em criar condições para que ele ganhe mais e prospere.
É fácil defender uma ideia simpática, ignorando que ela não entregará o que promete. Difícil é defender o que é responsável, ainda que desagrade. O empenho de todos – formuladores de políticas públicas, parlamentares, setor produtivo, opinião pública – deveria estar na melhoria contínua da maneira como o brasileiro trabalha, com mais investimento em formação, educação e treinamento, com a aquisição de novas habilidades e a absorção de novas tecnologias, de forma a elevar a produtividade média e, assim, gerar riqueza e prosperidade. O momento pede mais oportunidade, não menos.







