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Lares solos

Curitiba registra alta de moradores sozinhos e impulsiona imóveis compactos

O crescimento dos moradores sozinhos impulsiona a construção de apartamentos compactos e redefine o mercado imobiliário de Curitiba.
O crescimento dos moradores sozinhos impulsiona a construção de apartamentos compactos e redefine o mercado imobiliário de Curitiba. (Foto: Gilson Abreu/Governo do Paraná)

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Morar sozinho deixou de ser exceção em Curitiba. Segundo dados do Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de um em cada quatro domicílios da capital é ocupado por apenas uma pessoa. O percentual (25%) é superior ao registrado no Paraná (21,5%) e no Brasil (22,6%).

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A mudança também aparece no mercado imobiliário. Levantamento da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná (Ademi-PR), elaborado pela Brain Inteligência Estratégica, mostra que quase 70% dos lançamentos verticais realizados em Curitiba no primeiro trimestre de 2026 foram estúdios e apartamentos compactos.

Os números mostram uma mudança que já pode ser percebida na cidade. Por trás deles estão jovens que deixaram o interior em busca de oportunidades, pessoas que adiaram o casamento, idosos que optaram por manter a independência e moradores que passaram a valorizar mais a autonomia.

Para o cientista social Cezar Bueno de Lima, professor do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Políticas Públicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o fenômeno reflete mudanças importantes na sociedade.

Segundo o pesquisador, as pessoas estão se casando e tendo filhos mais tarde, além de buscarem mais autonomia. O envelhecimento da população e as mudanças nos relacionamentos também ajudam a explicar o crescimento dos lares com apenas um morador. “O modelo tradicional de família nuclear deixou de ser a referência exclusiva de organização familiar”, explica o cientista social.

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Independência impulsiona jovens a morar sozinhos

Aos 23 anos, Ana Luiza Mayumi Taguti deixou o interior para estudar e buscar melhores oportunidades profissionais em Curitiba. Morar sozinha fazia parte do plano. “Eu sabia que, se quisesse um estudo melhor e mais oportunidades de trabalho, precisaria sair de casa mais cedo”, disse.

Ela conta que a adaptação financeira foi o principal desafio nos primeiros meses. Com o tempo, porém, aprendeu a se organizar e passou a enxergar a experiência como um processo de amadurecimento. “Acho que a maior vantagem é ter mais independência e, de certa forma, criar mais maturidade”, explicou a jovem.

Experiência semelhante vive Guilherme Marcelino Luiz, de 27 anos. Morando sozinho desde os 19 anos, ele descreve a experiência como uma oportunidade de crescimento pessoal. “Vejo como um fortalecimento interno e uma preparação para construir relações domésticas de forma mais madura no futuro”, destacou.

Especialistas separam vida solo e sentimento de solidão

Embora muitas pessoas associem a vida solo à solidão, especialistas afirmam que as duas situações não são necessariamente a mesma coisa. Segundo Wallisten Passos Garcia, professor de Psicologia da PUCPR, existe uma diferença importante entre viver sozinho e sentir-se sozinho.

“Viver sozinho é uma condição objetiva. Já a solidão é uma experiência subjetiva, relacionada à forma como a pessoa percebe suas relações e sua conexão emocional com os outros”, disse o especialista.

Ele explica que uma pessoa pode morar sozinha e manter uma vida social ativa, cercada por amigos, familiares e relações significativas. Da mesma forma, alguém pode estar rodeado de pessoas e ainda assim sentir solidão.

A aposentada Vânia Lucia, de 72 anos, é um exemplo disso. Há quase seis anos vivendo sozinha, ela mantém uma rotina intensa de atividades. Entre hidroginástica, pilates, cursos, palestras, filosofia e meditação, dificilmente fica parada.

“Você começa uma atividade e, a partir dela, surgem novas amizades, novos interesses e novas oportunidades”, contou a aposenta. Para ela, a rotina ativa ajuda a preservar a autonomia, ampliar os vínculos sociais e garantir qualidade de vida.

Mercado imobiliário acompanha avanço da vida solo

Se o número de pessoas morando sozinhas cresce, o mercado imobiliário também se adapta. Em Curitiba, incorporadoras passaram a investir cada vez mais em apartamentos compactos, voltados a moradores que priorizam localização, praticidade e mobilidade urbana.

Para Gabriel Falavina, diretor executivo da Altma Incorporadora e vice-presidente da Ademi-PR, a mudança acompanha o novo perfil dos moradores.

“Quando muda quem mora, muda o que se constrói. O mercado imobiliário acompanha as transformações da sociedade. Se cresce o número de pessoas morando sozinhas, de casais sem filhos e de moradores que buscam mais praticidade no dia a dia, naturalmente surgem produtos pensados para atender essas demandas”, explicou Falavina.

Segundo ele, estudantes, jovens profissionais, pessoas divorciadas e moradores que vivem sozinhos passaram a buscar imóveis menores, mas com melhor localização e mais serviços agregados. “O compacto é a tradução arquitetônica dessa nova demografia”, concluiu.

A tendência se reflete nos números do mercado. Levantamento da Ademi-PR realizado pela Brain Inteligência Estratégica mostra que os imóveis compactos representam cerca de 38% do estoque imobiliário disponível na capital. Segundo dados das duas entidades, as vendas desse tipo de imóvel cresceram 210% entre 2015 e 2024 em Curitiba.

Para Falavina, Curitiba vive hoje um dos mais intensos ciclos de compactação imobiliária do país. “Proporcionalmente, Curitiba é a capital brasileira que mais lançou imóveis compactos nos últimos anos”, disse.

Além das mudanças no tamanho dos imóveis, os empreendimentos passaram a incorporar áreas compartilhadas, lavanderias, coworkings, academias, espaços de convivência e outros serviços voltados a moradores que buscam praticidade no dia a dia.

Para Alexandre Frankel, CEO da Housi, a popularização dos lares unipessoais está ligada a uma mudança mais ampla na forma como as pessoas escolhem onde viver.

Hoje, afirma o executivo, a decisão de moradia deixou de estar centrada apenas na metragem e passou a considerar fatores como localização, mobilidade, acesso a serviços e qualidade de vida.

“Na prática, as pessoas estão comprando tempo. Um imóvel bem localizado entrega mais qualidade de vida do que um apartamento maior distante dos principais polos urbanos”, avaliou Frankel.

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