Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Op. Compliance Zero 3

Como “a turma” de Vorcaro planejou atacar jornalistas e autoridades públicas

Daniel Vorcaro
O banqueiro Daniel Vorcaro, do liquidado Banco Master. (Foto: Márcio Gustavo Vasconcelos/Wikimedia Commons)

Ouça este conteúdo

Apuração em andamento

A mais recente decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, no âmbito da Operação Compliance Zero, descreve um cenário que, nas palavras do magistrado, apresenta métodos típicos de “milícia urbana”. No documento, Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, aparece no centro do caso, apontado como líder de uma estrutura que não se limitaria a supostas fraudes financeiras bilionárias, mas que teria mantido um aparato paralelo de vigilância, inteligência clandestina e coerção privada. 

Mendonça aponta que o grupo estruturou um braço operacional informal denominado “A Turma”, destinado à obtenção ilegal de informações sigilosas, ao monitoramento de jornalistas e autoridades e à intimidação de críticos do conglomerado.

Quatro pessoas constam na decisão de Mendonça como monitoradas pela quadrilha, mas o número de alvos pode passar de 20, segundo apurou a reportagem. O empresário destinaria R$ 1 milhão por mês para financiar as atividades do grupo.

Embora planos envolvendo agressões físicas, simulações de crimes e até hipóteses de sequestro tenham sido discutidos nas comunicações interceptadas, os atos mais extremos não chegaram a se concretizar, conforme descrito nos autos. 

VEJA TAMBÉM:

A representação da Polícia Federal aponta que a organização funcionava com divisão clara de atribuições, remuneração mensal e uso de pessoas jurídicas para dar aparência formal a repasses financeiros. No centro operacional estava um homem identificado nas mensagens pelo codinome “Sicário”, que mantinha comunicação direta com Vorcaro. 

De acordo com as investigações, "Sicário” exercia papel central na coordenação da “Turma”, sendo responsável direto por executar atividades de monitoramento, coleta de dados e “neutralização” de adversários e críticos. As mensagens analisadas pela PF indicam que o operador organizava tanto ações de campo quanto iniciativas digitais voltadas à proteção dos interesses do grupo. 

Após a divulgação da decisão, a defesa de Vorcaro negou categoricamente as alegações atribuídas a ele, por meio de nota à imprensa. O comunicado da defesa afirma ainda que “confia que o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta”. “Reitera sua confiança no devido processo legal e no regular funcionamento das instituições”, encerra a nota. 

Capangas de Vorcaro seguiram alvos e planejaram agressão 

A atuação da “Turma” não se restringia ao ambiente digital. Mensagens interceptadas após a quebra de sigilo de aparelhos apreendidos revelam ordens para acompanhamento presencial de alvos. 

A reportagem apurou com fontes ligadas à investigação que os capangas de Vorcaro seguiram e observaram presencialmente alguns de seus alvos.

Uma das mensagens trocadas por celular entre Vorcaro e Sicário, que consta na decisão de Mendonça, dá a entender que um desses alvos, o jornalista de O Globo, Lauro Jardim, segundo apurou a reportagem, foi um dos monitorados. Sicário diz que o jornalista vai todos os domingos a determinado lugar (que não foi revelado no processo).

Na conversa com Sicário, Vorcaro manifesta desejo explícito de violência contra o jornalista: “Esse [nome do jornalista censurado no documento] quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”.

O interlocutor responde de forma afirmativa e se dispõe a colocar a equipe para seguir o profissional e mapear sua rotina. 

A análise jurídica do ministro André Mendonça aponta que a intenção seria simular um crime comum, como um assalto, para intimidar o jornalista e produzir efeito dissuasório sobre outros profissionais da imprensa. Em outro diálogo, há ordem para “levantar tudo” sobre alvos considerados problemáticos — incluindo endereços e telefones. 

A estrutura conhecida como “A Turma” era organizada especificamente para atividades de vigilância e levantamento de informações, conforme o despacho de Mendonça.

A logística dessas operações seria profissional. O grupo contava com o apoio de um policial federal aposentado que utilizava sua experiência na carreira policial para realizar atividades de vigilância, localização de indivíduos e levantamento de informações estratégicas para neutralizar riscos às atividades do grupo. O homem chamado de Sicário era o coordenador operacional, responsável por mobilizar mais pessoas para o monitoramento presencial e o acompanhamento desses alvos.

VEJA TAMBÉM:

Intimidação de colaboradores e círculo íntimo 

A decisão também registra mensagens com teor agressivo direcionadas a pessoas do círculo interno do banqueiro. Ex-empregados e colaboradores sob suspeita de terem feito “gravações indesejadas” teriam sido alvo de ordens de intimidação. 

Em um dos diálogos transcritos, Vorcaro afirma: “O bom de dar sacode no chef de cozinha primeiro. O outro já vai assustar”. Até mesmo uma funcionária doméstica aparece como alvo após supostas ameaças. Em mensagem reproduzida nos autos, o banqueiro Daniel Vorcaro ordena providências e solicita levantamento de endereço, em tom considerado intimidatório pela investigação. “Empregada [nome da funcionária] me ameaçando. É mole? Tem que moer essa vagabunda”, disse Vorcaro. Ao ser questionado pelo interlocutor sobre “o que é para fazer”, Vorcaro teria ordenado o levantamento. 

Para a Polícia Federal, os registros evidenciam um padrão de uso da intimidação como instrumento de gestão de conflitos, inclusive no âmbito privado. 

Além de milícia digital e manipulação de narrativa, “Projeto DV” mobilizou influenciadores digitais 

Paralelamente à vigilância física, o grupo teria operado o que a investigação descreve como uma espécie de milícia digital. O objetivo seria derrubar links de páginas de internet negativos associados ao caso Master e inundar a rede com conteúdos positivos, além de simular solicitações oficiais para obtenção de dados ou remoção de perfis em plataformas digitais. A decisão não esclarece como isso era feito.

As mensagens indicam estratégia coordenada para controlar danos reputacionais e pressionar atores considerados hostis. A convergência entre monitoramento presencial, coleta clandestina de informações e manipulação digital compunha, segundo os investigadores, uma atuação integrada. 

A estrutura também foi mobilizada para o chamado “Projeto DV”. Após a revogação de prisões em fases anteriores da operação, o grupo teria intensificado a contratação de influenciadores digitais para atacar a reputação do Banco Central do Brasil e de autoridades envolvidas na liquidação do Master. 

O movimento ocorreria em paralelo à análise, pelo Tribunal de Contas da União, de decisões regulatórias que impactavam o banco. Segundo o ministro André Mendonça, a estratégia buscava influenciar a opinião pública e enfraquecer a credibilidade institucional de órgãos de controle, criando ambiente favorável à continuidade das atividades investigadas. 

“Turma” teria recebido cerca de R$ 1 milhão por mês 

A manutenção da “Turma” demandava fluxo contínuo de recursos. Há indícios, segundo a decisão do STF, de que o operador identificado como “Sicário” recebia cerca de R$ 1 milhão por mês. Os pagamentos teriam sido operacionalizados com o uso de pelos menos cinco empresas para formalizar contratos e viabilizar repasses. 

A investigação aponta que para isso, o grupo utilizava uma estrutura sofisticada de lavagem de dinheiro e ocultação de bens para viabilizar o pagamento de propinas a servidores públicos e custear as atividades ilícitas da "Turma".

Entre as empresas mencionadas na decisão está a Moriah Asset, da qual o cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, aparece como sócio. Zettel foi um dos alvos de mandado de prisão emitidos nesta quarta-feira (4). A reportagem da Gazeta do Povo tentou contato com a empresa, mas não obteve retorno até o fechamento. A defesa de Zettel disse que o acusado "se apresentou mesmo sem a defesa ter tido acesso prévio ao objeto da investigação".  

A investigação aponta ainda a atuação de operadores financeiros ligados ao núcleo de Vorcaro, responsáveis por estruturar movimentações e ocultar a origem dos valores, em dinâmica associada ao custeio da estrutura paralela. 

“Turma” teve acesso ilegal a sistemas, incluindo a Interpol 

Um dos pontos mais sensíveis da decisão envolve o acesso indevido a bases de dados restritas. Segundo a Polícia Federal, o operador contratado pelo grupo realizava consultas e extrações de dados utilizando credenciais funcionais de terceiros. 

A investigação aponta que houve acesso irregular a sistemas vinculados à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal, além de referências a organismos internacionais como a Interpol. O conjunto de informações permitiria à organização monitorar autoridades públicas e antecipar movimentos de investigações em curso. 

Para a PF, tratava-se de uma engrenagem de contrainteligência privada, com potencial de interferir na instrução de procedimentos oficiais e de comprometer a segurança institucional. A decisão destaca que a audácia do esquema teria alcançado o núcleo das estruturas estatais responsáveis pela persecução penal. 

Mendonça determinou prisões e apontou risco à ordem pública 

Ao decretar a prisão preventiva de Vorcaro, de operadores apontados como integrantes centrais da engrenagem e de um policial federal aposentado identificado como apoio logístico da “Turma”, o ministro André Mendonça destacou que a liberdade dos investigados representaria risco concreto à ordem pública e à integridade de servidores da Polícia Federal, do Ministério Público e do próprio STF. 

A decisão menciona ainda a continuidade da ocultação de recursos, incluindo o bloqueio de R$ 2,2 bilhões em janeiro de 2026 na conta do pai de Vorcaro. Para o magistrado, a demora na adoção de medidas cautelares seria “extremamente perigosa para a sociedade”, diante da capacidade demonstrada pelo grupo de se infiltrar em sistemas estatais e utilizar mecanismos de coerção como ferramenta de defesa de interesses privados. 

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.