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Planalto em crise

Como o caso de Marcola, ex-assessor de Lula, cruza com a investigação sobre Lulinha no STF

Corrupção PT
Investigação inclui ex-assessor e filho de Lula em um memso inquérito. (Foto: André Borges -EFE)

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Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, homem de confiança e ex-chefe de gabinete pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que pediu para sair da coordenação da campanha à reeleição nesta semana, e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, são alvos de um mesmo inquérito da Polícia Federal recém-instaurado no Supremo Tribunal Federal (STF), segundo fontes ligadas às investigações.

Trata-se de um inquérito aberto contra o filho do presidente, datado da última semana, por suspeita de tráfico de influência, sob relatoria do ministro André Mendonça. O crime consiste em solicitar, exigir, cobrar ou obter, para si ou outra pessoa, vantagem ou promessa de vantagem, a pretexto de influir em ato praticado por funcionário público no exercício da função. A pena prevista é de dois a cinco anos de prisão e multa.

O inquérito foi autorizado por Mendonça para apurar possíveis irregularidades ligadas à tentativa de viabilizar a comercialização de cannabis medicinal. No parecer favorável à abertura da investigação, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, mencionou que a PF pretendia apurar suspeitas envolvendo um assessor do gabinete presidencial e um servidor do Ministério da Saúde, sem identificá-los nominalmente.

Segundo investigadores, esse assessor seria Marcola. A PF diz não comentar eventuais investigações em curso. A trama reúne na mesma apuração, além de Lulinha e Marcola, a lobista Roberta Luchsinger e o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS".

A investigação começou a se desenhar a partir das investigações sobre as fraudes em descontos associativos de aposentados e pensionistas do INSS, conduzidas na Operação Sem Desconto.

Antunes é apontado pela PF como um dos operadores centrais do esquema de descontos indevidos no INSS. Lulinha e Marcola não são investigados nesse inquérito e não há nenhum indício de que tenham alguma relação com os descontos irregulares nos benefícios de aposentados e pensionistas.

Mas, durante essas apurações, os investigadores encontraram indícios de que o "Careca do INSS" também tentava, paralelamente, fechar um contrato milionário com o Ministério da Saúde para fornecer medicamentos à base de canabidiol pelo SUS. Ou seja, a investigação mira o suposto tráfico de influência dentro do governo federal.

As tratativas ocorreram em 2024 e 2025, mas o contrato não chegou a ser assinado, e as negociações foram interrompidas quando a Operação Sem Desconto, que mirou os descontos indevidos do INSS, veio a público.

Foi nesse contexto que o nome de Lulinha apareceu. Segundo a defesa do filho do presidente, ele viajou a Portugal em novembro de 2024 ao lado de Antunes para conhecer uma fazenda produtora de canabidiol, um encontro que, segundo os advogados, não gerou vínculos comerciais.

Já uma testemunha ouvida pela CPMI do INSS afirmou que o "Careca do INSS" teria supostamente contratado o lobby do filho do presidente justamente para ajudar a destravar o contrato com a Saúde – versão negada pela defesa de Lulinha.

A ponte feita por Roberta Luchsinger

A lobista Roberta Luchsinger é descrita pela PF como peça-chave da articulação. Ela é investigada na Operação Sem Desconto. Amiga de Lulinha e apontada por ela mesma como responsável por apresentá-lo a Antunes, Luchsinger prestava consultoria a empresas que buscavam contratos com o governo federal e mantinha trânsito frequente na Esplanada dos Ministérios.

Foram identificadas ao menos oito agendas dela no Palácio do Planalto e cerca de 30 visitas a ministérios, como Saúde e Desenvolvimento Social, além do BNDES.

Um áudio obtido pelos investigadores mostra Luchsinger explicando a Antunes, no início de 2025, que um contrato com o Ministério da Saúde poderia ser fechado por dispensa de licitação, amparado pela nova lei de licitações e por um cenário de emergência.

A mesma testemunha disse à CPMI do INSS que Lulinha receberia, a partir de Roberta, uma espécie de mesada do "Careca do INSS" para um suposto tráfico de influência no governo.

Ela negou ter repassado a Lulinha qualquer valor recebido de Antunes e afirmou que os pagamentos feitos pelo "Careca do INSS" eram referentes ao seu próprio trabalho de consultoria.

E também foi uma conexão financeira que levou o nome de Marcola às investigações. Fontes ouvidas sob reserva reforçam que a PF apurou que o ex-assessor de Lula teria recebido recursos diretamente de Luchsinger enquanto ainda ocupava o cargo de chefe de gabinete pessoal de Lula, posição de confiança que incluía administrar a agenda do presidente, participar de reuniões privadas e até atender ao celular.

Em nota, o ex-chefe de gabinete da Presidência afirmou ter recebido com surpresa a repercussão do que seria um empréstimo pessoal firmado com a empresária Roberta Luchsinger. Segundo ele, a operação financeira foi de caráter exclusivamente privado, já foi integralmente quitada e não teve qualquer relação com as funções que exercia no governo.

Marcola também declarou que jamais praticou qualquer ato ilegal durante sua atuação na Presidência da República e criticou o tratamento dado ao caso. O ex-assessor sustentou que um empréstimo particular está sendo apresentado como se configurasse irregularidade. Ele não revelou o valor dessa operação de crédito.

Ex-assessor de Lula deixou o cargo uma semana antes de abertura de inquérito

O ex-assessor e homem de confiança de Lula deixou o cargo em 21 de julho para integrar a coordenação da campanha à reeleição do presidente, uma saída que, segundo relatos de bastidores de integrantes do PT, teria sido antecipada como forma de proteger o presidente antes que o caso ganhasse repercussão pública. Mas, com a repercussão do caso, ele também pediu para deixar a campanha de Lula.

Uma semana depois de sua exoneração, seu nome teria sido incorporado às investigações. Dentro do Palácio do Planalto, a leitura seria de que a crise já era esperada. Ainda assim, a rapidez da saída de Marcola despertou desconfiança na oposição.

O Partido Liberal vai pedir ao STF a apuração de um possível vazamento de informações sigilosas da PF ao governo, na hipótese de o desligamento ter sido motivado pelo conhecimento prévio do andamento das investigações.

A reportagem pediu o posicionamento do Palácio do Planalto sobre as questões citadas na matéria, mas não houve retorno. Se o posicionamento do governo federal foi enviado, a matéria será atualizada.

O que a PF já sabia sobre o grupo e o que se pretende apurar

Mensagens obtidas pelos investigadores mostrariam Luchsinger, em abril de 2025, avisando Antunes de que teria sido encontrado um envelope com o nome de "nosso amigo" durante uma das buscas da Operação Sem Desconto. Para membros da CPMI do INSS, seria uma possível referência a Lulinha.

Na conversa a lobista orientava o "Careca do INSS" a se desfazer de aparelhos telefônicos. Em depoimento à PF, ela disse que o alerta tinha como motivação apenas a preocupação com vazamento de dados pessoais, e afirmou que, naquele momento, ainda não sabia do envolvimento de Antunes no esquema do INSS.

Em decisão sobre o caso, Mendonça descreveu Luchsinger como alguém que se apresentava como capaz de influenciar decisões políticas e que teria papel relevante na ocultação de patrimônio e na movimentação de recursos ligados ao grupo de Antunes. A defesa de Roberta nega.

A defesa de Lulinha tem classificado a sequência de inquéritos, já são três instaurados em poucos dias, como uma tentativa da PF de testar diferentes frentes de investigação até encontrar algum elemento que sustente as suspeitas, chamando de "pesca probatória".

Segundo os advogados, a corporação estaria repetindo pedidos semelhantes na esperança de que algum prospere e defendeu que Lulinha não deveria receber tratamento mais rigoroso apenas por ser filho do presidente, mas também não deveria ser tratado com menos rigor do que qualquer outro cidadão.

Sobre o inquérito, a PF foi procurada por e-mail pela reportagem na terça-feira (4), mas até a publicação da reportagem não havia se manifestado.

A defesa de Antunes disse no início da semana que ainda não teve acesso aos autos envolvendo Marcola e Lulinha e, por isso, não se manifestaria.

A defesa de Luchsinger não comentou o desdobramento mais recente, mas, em depoimento à PF, ela negou irregularidades e disse ter sido "criminalizada" por sua proximidade com o filho do presidente.

O pano de fundo institucional e uma nova crise para o governo

O surgimento do nome de Marcola em um inquérito que investiga condutas de um dos filhos do presidente Lula ocorre em meio a um cenário de tensão entre a PF e o STF na condução dos casos que envolvem Lulinha. Os inquéritos apuram, entre outros pontos, a suspeita de tráfico de influência.

Os dois primeiros ficaram sob relatoria de Mendonça, que também conduz o inquérito principal sobre as fraudes do INSS. O terceiro procedimento investigativo, no entanto, está com Flávio Dino, sem vinculação automática ao gabinete de Mendonça, estratégia que juristas apontam como tentativa de afastar parte das apurações da condução do magistrado.

"Como não conseguem mudar o relator do caso, tentam instaurar novos inquéritos na expectativa de que parte das apurações não seja conduzida por Mendonça", avalia o constitucionalista André Marsiglia.

Some-se a isso a substituição de ao menos três delegados na equipe responsável pelo caso e o acionamento inédito da Advocacia-Geral da União (AGU) pela PF contra decisões do próprio Mendonça, movimentos que, segundo especialistas, alimentam a percepção de disputa institucional em torno do ritmo e do alcance das investigações.

Com o nome de Marcola ligado ao inquérito que apura contratos, não realizados, sobre cannabis medicinal, a expectativa é de que a PF aprofunde a apuração sobre os pagamentos recebidos por ele de Luchsinger e sobre eventual papel do ex-assessor na tentativa de viabilizar o contrato entre o grupo de Antunes, o Ministério da Saúde e um possível papel de Lulinha na articulação que não avançou com a pasta.

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