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Ao classificar como violação de soberania a operação dos Estados Unidos que resultou na retirada do ditador Nicolás Maduro do poder na Venezuela, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entrou em rota de tensão diplomática e reabriu um debate sobre legitimidade do poder e alinhamento estratégico. Para analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, a posição do Planalto ignora a ilegitimidade do regime chavista, reforça a aproximação com ditaduras e pode isolar o Brasil em um momento em que os Estados Unidos retomam o protagonismo na América Latina.
As manifestações do governo brasileiro evidenciam o alinhamento com governos que se opõem às estratégias adotadas pelos Estados Unidos sob o governo do presidente Donald Trump. Em nota e em pronunciamentos na ONU, representantes do governo Lula classificaram a ação como violação da soberania venezuelana e alertaram para a criação de um suposto “protetorado americano” na América Latina. A leitura, no entanto, é contestada por especialistas em política internacional, que veem inconsistências e riscos diplomáticos na postura brasileira.
Na avaliação do doutor em Filosofia e mestre em Relações Internacionais Cezar Roedel, a manifestação do embaixador brasileiro na ONU foi “desastrosa” e pode empurrar o Brasil para uma rota de colisão com Washington, com impactos diretos em negociações econômicas, tarifárias e de cooperação em segurança.
“O Brasil terá de decidir se permanece na esfera de influência americana ou se insiste na narrativa do "Sul Global" alinhada a ditaduras. As duas coisas ao mesmo tempo não são possíveis”, afirma.
Roedel lembra ainda que o próprio governo brasileiro intensificou operações contra o crime organizado justamente quando o destacamento militar americano avançava em direção ao Caribe, o que sugere negociações paralelas ainda pouco transparentes.
O advogado e consultor estratégico Antônio Fernando Pinheiro Pedro, membro do Centro de Estudos Estratégicos da Iniciativa DEX, também avalia que o cenário atual torna inevitável um choque entre Washington e governos latino-americanos desalinhados da política regional americana. “Os Estados Unidos não irão tolerar regimes desalinhados com sua política regional”, afirma.
Para ele, o governo Lula integra hoje um grupo cada vez mais restrito de lideranças de esquerda na América do Sul. “Lula e Gustavo Petro [presidente da Colômbia] são os últimos esquerdistas do Grupo de Puebla na região”, diz Pinheiro Pedro. Ele define o Grupo de Puebla como uma reconfiguração do antigo Foro de São Paulo, formado por partidos de esquerda da América Latina.
Essa visão é reforçada também pela recente manifestação do governo brasileiro durante a reunião extraordinária da Organização dos Estados Americanos (OEA), na terça-feira (6), em Washington, na qual classificou como “sequestro” a captura do ditador da Venezuela pelos Estados Unidos. “Os bombardeios no território da Venezuela e o sequestro de seu presidente ultrapassam um limite inaceitável”, afirmou o representante permanente do Brasil na OEA, embaixador Benoni Belli, de acordo com a Agência EFE.
Segundo Pinheiro Pedro, trata-se de um alinhamento ideológico, que tende a entrar em choque direto com a atual estratégia americana para o hemisfério ocidental, que busca conter a influência chinesa, russa e de regimes autoritários na América Latina.
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Segundo o doutor em Filosofia e mestre em Relações Internacionais Cezar Roedel, a crítica do governo brasileiro parte de uma premissa equivocada ao tratar Maduro como líder legítimo. “A eleição foi fraudada. Na teoria geral do Estado, soberania é delegação de poder. O povo venezuelano não delegou poder a Maduro, mas a Edmundo González, que hoje está exilado na Espanha”, sustenta.
O doutor em Ciência Política e coordenador do curso de Relações Internacionais do IBMEC, Adriano Gianturco, salienta que o posicionamento do governo Lula no caso da Venezuela se soma a outros que mostram alinhamentos com ditaduras. “Vejo isso como mais um passo numa linha já clara: ser contra os Estados Unidos, contra o Ocidente e se alinhar à China, Venezuela, Rússia, Cuba, Irã”, avalia.
Segundo Gianturco, a atual postura reforça uma orientação já consolidada ao longo dos últimos anos, o que reduz o impacto diplomático imediato, mas aprofunda o distanciamento do Brasil em relação às democracias ocidentais.
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Na leitura dos analistas, o episódio na Venezuela é um capítulo de uma disputa mais ampla, que envolve a contenção da China, a guerra na Ucrânia, a instabilidade no Oriente Médio e a redefinição do papel das potências regionais.
“Em política internacional, todo vácuo é preenchido. Os Estados Unidos decidiram preencher o da América Latina”, resume Roedel.
Diante desse cenário, especialistas alertam que a retórica política adotada pelo governo Lula pode custar ao Brasil não apenas capital diplomático, mas também relevância estratégica em um sistema internacional cada vez mais competitivo e polarizado.
Além das repercussões externas, Roedel avalia que o episódio pode ter efeitos inéditos no cenário político doméstico.“Talvez seja a primeira vez na história recente do Brasil em que uma eleição seja fortemente influenciada por política externa. Um discurso antiamericano infantil pode custar caro ao país”, diz.
Para ele, a oposição tende a explorar o tema, alinhando-se à nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, enquanto o governo Lula corre o risco de associar o Brasil a um eixo formado por regimes autoritários em um mundo cada vez mais dividido em zonas de influência.





