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Mensagens identificadas pela Polícia Federal no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro mostram executivos do Banco Master descrevendo a advogada Dalide Corrêa como "sócia" do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, enquanto pressionavam pela liberação prioritária de pagamentos milionários ao escritório dela.
Em uma das trocas de mensagens, um diretor jurídico do banco cobrou de Vorcaro autorização para pagar uma fatura relacionada a precatórios e justificou a urgência afirmando que a destinatária era "sócia do GM stf", numa referência ao ministro.
Em outra conversa, um diretor financeiro do Master orientou a área de tesouraria a efetuar o repasse classificando o escritório de Dalide como um "canal direto com o STF".
Segundo apurações da PF a partir de uma auditoria interna do Banco Regional de Brasília (BRB) sobre a fracassada tentativa de aquisição do Master, o escritório de Dalide teria recebido R$ 33 milhões da instituição de Vorcaro somente em 2024.
Tanto o gabinete de Gilmar Mendes quanto a advogada negaram qualquer sociedade entre os dois, classificando a associação feita pelos executivos do banco como "falsa".
Em nota, o gabinete do ministro disse que Dalide ocupou apenas um cargo técnico de direção-geral no instituto de ensino fundado por Gilmar, do qual se desligou há quase uma década. A advogada reforçou que jamais manteve sociedade com o magistrado e que sua atuação se limitou a processos judiciais movidos em primeira e segunda instâncias, nunca perante o Supremo.
As declarações vieram em resposta a documentos e conversas encontrados pela PF no primeiro celular de Vorcaro, apreendido em novembro do ano passado, que revelam como a cúpula do banco tratava a advogada e a prioridade dada aos repasses ao seu escritório. A advogada e o ministro não são alvos das apurações.
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O que os diálogos revelam
O material apreendido pela PF mostra um diretor jurídico do banco pressionando Vorcaro a autorizar pagamentos ao escritório de Dalide, sempre citando sua suposta proximidade com o STF como argumento para acelerar a liberação dos valores.
Em dezembro de 2024, ao cobrar do chefe a autorização para uma fatura, o diretor escreveu que o repasse dizia respeito a "precatórios" e que a destinatária seria "sócia do GM stf", nas mensagens, "GM" era usado como referência a Gilmar Mendes.
O mesmo diretor ainda alertou sobre a complexidade de outro sócio do escritório de Dalide, apontado como um operador do banco BTG Pactual, instituição vista internamente como principal concorrente do Master.
Não foi a única vez que o nome de Dalide apareceu associado à urgência financeira. Em agosto daquele ano, o mesmo diretor já havia pedido a Vorcaro que desse "ok com certa urgência" à liberação de uma fatura de R$ 15 milhões, alegando que "a turma na outra ponta" cobrava com insistência.
Questionando sobre o que se tratava, o ex-banqueiro recebeu a resposta de que o valor era destinado à advogada e estava vinculado a uma vitória obtida no processo envolvendo uma usina do setor sucroalcooleiro no estado de Pernambuco.
O que são precatórios e por que o Master dependia deles
Precatórios são ordens judiciais de pagamento emitidas contra a União, estados ou municípios depois que esses entes públicos perdem uma ação na Justiça e são condenados a indenizar a parte vencedora, um processo que costuma levar anos, às vezes décadas, para ser efetivamente quitado pelos cofres públicos.
O modelo de crescimento acelerado do Master dependia desse mercado, segundo rastreamento das investigações. A instituição comprava precatórios de terceiros por valores muito abaixo do total devido, apostando na diferença entre o preço pago e o montante que seria recebido quando o Estado finalmente liberasse o dinheiro.
O problema, segundo apontam as investigações, é que o Master não apenas inflacionava artificialmente esses ativos em seu balanço contábil, como também os tratava como créditos de recebimento garantido, o que não correspondia à realidade, já que o pagamento de precatórios está sujeito a prazos incertos e disputas judiciais.
Em 2024, precatórios e direitos creditórios chegavam a representar quase metade da carteira de ativos do Master. Parte desses papéis, além disso, teria sido revendida a fundos da gestora Reag por valores superfaturados, numa engrenagem que investigadores apontam como suposto mecanismo de desvio de recursos do próprio banco.
Os precatórios do setor sucroalcooleiro na mira do STF
As disputas que levaram o nome de Dalide a circular internamente no Master tinham origem específica. Uma série de ações bilionárias movidas por usinas de açúcar e álcool contra a União, relacionadas ao tabelamento de preços imposto pelo governo federal ao setor nas décadas de 1980 e 1990.
São processos que se arrastam há mais de 30 anos e que, por envolverem valores expressivos, eram acompanhados de perto pelo Master, dono de créditos ligados a diferentes usinas. Foi justamente um processo envolvendo uma dessas usinas que levou Vorcaro a buscar uma aproximação direta com Gilmar Mendes.
Em abril de 2024, o ministro recebeu o ex-banqueiro e advogados do Master em seu gabinete no STF para tratar do caso. A reunião foi confirmada pelo próprio gabinete do decano que, no entanto, afirma que Dalide não esteve presente e que o ministro terminou votando contra os interesses do Master e de Vorcaro. Segundo o STF, essa não teria sido uma decisão isolada de Gilmar.
Em todos os processos do setor sucroalcooleiro que julgou, o ministro teria votado de forma contrária aos interesses do Master, muitas vezes sendo voto vencido na Corte.
Por que a advogada era vista como "ponte" com o Supremo
O que intriga investigadores não é apenas o valor recebido pela advogada, mas o vocabulário usado internamente pelos executivos do Master para justificar a prioridade nos repasses.
Ao chamá-la de "sócia" de Gilmar Mendes e de "canal direto com o STF", os dirigentes do banco davam a entender que a contratação de Dalide facilitaria o trânsito de interesses do Master na Corte, particularmente em processos de precatórios sob relatoria ou voto do próprio ministro, condição negada categoricamente pela advogada e pelo ministro.
A ligação entre os dois vem de décadas. Eles se conheceram quando Gilmar era advogado-geral da União, no governo Fernando Henrique Cardoso, e ela atuava no jurídico da Caixa Econômica Federal. Mais tarde, Dalide chegou a ocupar a direção-geral do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), faculdade fundada por Gilmar Mendes e hoje comandada por um de seus filhos. O ministro exerceu a função por quase uma década até se desligar em 2016, em meio a desentendimentos sobre a gestão da instituição.
Apesar do rótulo interno usado pelo Master, a PF não encontrou nas conversas analisadas até o momento qualquer menção direta a Gilmar Mendes tratando pessoalmente de precatórios com Dalide, nem evidências de que o ministro tenha se beneficiado ou influenciado o resultado dos julgamentos em favor do banco.
Também não foi identificada, nas mensagens, qualquer contrapartida explícita relacionada à intermediação alegada pelos executivos do banco. Nenhuma diligência específica foi realizada sobre a legalidade do contrato entre o Master e o escritório de Dalide, e a própria PF ainda não produziu avaliação conclusiva sobre a natureza dos serviços prestados.
O episódio integra um conjunto de contratos entre Vorcaro e escritórios de advocacia com algum grau de proximidade a ministros do STF, amigos e familiares, que já provocou tensão interna na Corte depois da revelação de contratos com bancas ligadas indiretamente a ministros do Supremo.
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O que dizem Gilmar Mendes e a advogada Dalide Corrêa
O gabinete do ministro Gilmar Mendes negou qualquer vínculo societário com a advogada e disse que ela nunca foi sócia do IDP, tendo ocupado apenas cargo técnico de diretora-geral, do qual se desligou em novembro de 2016.
O gabinete classificou como falsa a afirmação atribuída aos executivos do Master, negando que o ministro tivesse conhecimento de qualquer atuação da advogada em processos ligados a precatórios do setor sucroalcooleiro.
O gabinete reforça que Gilmar votou contra os interesses do Master em todos os julgamentos do setor que analisou, dando como exemplo uma ação que discutia a liberação de mais de R$ 5 bilhões em precatórios.
O escritório de Dalide informou que sua atuação se restringiu a processos judiciais conduzidos originalmente em favor de empresas que venderam créditos ao Master e que depois foram sucedidas pelo banco nessas ações, sempre em primeira e segunda instâncias, nunca no STF.
A nota diz que a advogada jamais manteve sociedade com Gilmar Mendes, esclarece que ela não possui relação com o BTG Pactual e afirma não ter contato com o ex-cunhado do ministro, Chiquinho Feitosa, há muitos anos.
Chiquinho Feitosa é um empresário e ex-senador pelo Republicanos que, à época dos fatos registrados nas mensagens, era cunhado de Gilmar Mendes. Segundo mensagens obtidas pela PF no celular de Vorcaro, foi ele quem teria, em abril de 2024, articulado o encontro de Vorcaro com o ministro no STF para tratar do tema.
As mensagens indicariam que Chiquinho mantinha um contrato de consultoria com o Master, tendo ele próprio admitido ter firmado um acordo de curto período com uma empresa ligada ao ecossistema do banco, sem detalhar valor ou escopo do serviço prestado.








