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O que se sabe sobre o espião russo que Lula pode devolver a Moscou

O espião russo Serguei Cherkasov
O espião russo Serguei Cherkasov em um restaurante em 2017, em Moscou, durante uma videochamada descoberta pelo Departamento de Justiça dos EUA (Foto: Reprodução/ Departamento de Justiça dos Estados Unidos )

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A extradição do espião russo Serguei Vladimirovich Cherkasov aguarda uma decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O pedido está sob análise do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, do Ministério da Justiça, mas a palavra final caberá ao Executivo. A informação, revelada pela CNN Brasil, recolocou o caso no centro da agenda diplomática brasileira.

Preso desde dezembro de 2022, Cherkasov deixou de ser um personagem do submundo da espionagem para se tornar um símbolo de como o Brasil passou a integrar, ainda que de forma involuntária, disputas silenciosas entre serviços de inteligência. A expectativa de que ele será devolvido à Rússia cresce em meio à relação política próxima entre o governo Lula e Vladimir Putin, mas a história do chamado “espião trapalhão” é longa, sofisticada e começa mais de uma década antes de sua prisão.

Segundo investigações da Polícia Federal, Cherkasov entrou no Brasil pela primeira vez em junho de 2010, usando seu passaporte russo verdadeiro. A partir daí, iniciou um processo meticuloso de construção de uma identidade falsa: Victor Muller Ferreira, supostamente nascido em Niterói (RJ), em 1989. Com base em uma certidão de nascimento registrada de forma fraudulenta, conseguiu emitir documentos brasileiros autênticos — como RG, CPF, título de eleitor e passaporte —, os quais permitiram que ele levasse uma vida aparentemente comum.

Durante anos, trabalhou formalmente, acumulou registros oficiais e construiu um histórico social consistente. Essa identidade brasileira não era um fim em si mesma, mas a base para uma operação de espionagem de longo prazo, desenhada para lhe permitir circular pelo Ocidente e acessar instituições estratégicas sem levantar suspeitas.

A farsa começou a ruir em abril de 2022, quando Cherkasov tentou ingressar na Holanda para assumir um estágio no Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, justamente no momento em que a corte intensificava investigações sobre crimes de guerra atribuídos à Rússia na Ucrânia.

Barrado pela inteligência holandesa e exposto como agente “ilegal” da agência russa GRU (Glavnoe Razvedyvatel'noe Upravlenie), ele foi deportado e preso ao desembarcar no Brasil. A partir daí, o caso deixou de ser apenas criminal e passou a envolver uma complexa disputa jurídica e diplomática entre Rússia, Estados Unidos e o Estado brasileiro.

Como um falso brasileiro levou o Brasil a um embate jurídico entre Rússia e EUA

A trajetória de Serguei Cherkasov seguiu um roteiro clássico das operações da inteligência russa voltadas à criação de agentes “ilegais” — espiões que atuam sem qualquer cobertura diplomática e vivem por anos sob identidades falsas. Após entrar no Brasil em 2010, ele percorreu diferentes regiões do país, especialmente o Nordeste e o Rio de Janeiro, em um processo conhecido como “lavagem de origem”, destinado a dissociá-lo de sua identidade russa original.

Foi nesse período que obteve, em cartório, uma certidão de nascimento registrada tardiamente, alegando ter nascido em Niterói, filho de uma mãe brasileira já falecida e de um pai desconhecido ou estrangeiro. A partir desse documento, conseguiu emitir toda a cadeia de registros oficiais brasileiros, consolidando a persona de Victor Muller Ferreira.

Entre 2011 e 2013, Cherkasov entrou na fase conhecida como “backstopping”, quando o agente constrói um histórico social e profissional coerente. Trabalhou formalmente em uma agência de turismo, gerando registros de emprego, contribuições previdenciárias e outros rastros administrativos. Anos depois, esse mesmo período seria explorado pela Rússia como base para uma acusação de tráfico de drogas apresentada em 2023, considerada artificial por investigadores brasileiros e vista como um álibi jurídico para sustentar o pedido de extradição.

Com a identidade brasileira consolidada, a operação avançou para fora do país. A partir de 2014, Cherkasov passou a usar o passaporte brasileiro para acessar instituições de elite no Ocidente sem levantar suspeitas. Viveu na Irlanda entre 2014 e 2018, onde cursou Ciência Política no Trinity College, em Dublin, mantendo um perfil discreto, mas social. Professores relataram posteriormente que ele atribuía um sotaque difícil de identificar a uma infância “complexa”.

Em 2018, mudou-se para Washington, nos Estados Unidos, e ingressou na Johns Hopkins School of Advanced International Studies (SAIS), uma das principais escolas de formação de diplomatas e analistas de política externa. Segundo investigações, foi nesse período que intensificou a coleta de informações sobre política externa americana, ampliou sua rede de contatos com futuros quadros do governo e enviou relatórios regulares ao GRU.

O objetivo final da operação começou a se materializar em setembro de 2020, quando Cherkasov iniciou o processo seletivo para um estágio no Tribunal Penal Internacional. A candidatura se arrastou devido à pandemia, mas ganhou importância estratégica no início de 2022, com a invasão da Ucrânia pela Rússia e a abertura de investigações internacionais sobre crimes de guerra atribuídos a Moscou. O acesso ao tribunal passou a ser tratado como um “alvo de ouro” pela inteligência russa.

Convicto de que sua cobertura permanecia intacta, Cherkasov embarcou do Brasil para a Holanda em 31 de março de 2022. No dia seguinte, ao desembarcar no aeroporto de Schiphol, foi barrado pela imigração e exposto pela inteligência holandesa como agente “ilegal” do GRU, em uma ação que contou com alertas de serviços de inteligência americanos. Declarado persona non grata, foi deportado imediatamente.

De volta ao Brasil, entre 3 e 4 de abril de 2022, foi preso pela Polícia Federal por uso de documentos falsos. A partir desse momento, a operação de espionagem deu lugar a uma disputa jurídica e diplomática de grandes proporções.

Em junho de 2022, a Rússia apresentou formalmente um pedido de extradição, alegando que Cherkasov teria sido condenado em Moscou por tráfico de drogas. O pedido passou a tramitar em sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Edson Fachin.

Em março de 2023, Fachin autorizou a extradição, mas com efeito suspensivo: o russo só poderia ser entregue após responder integralmente aos processos em curso no Brasil. Poucos dias depois, o caso ganhou novo contorno internacional, com um pedido de extradição apresentado pelos Estados Unidos. O governo brasileiro negou a solicitação americana em julho de 2023, citando o princípio do ne bis in idem - que impede que uma pessoa seja processada ou punida duas vezes pelo mesmo fato - e a precedência do pedido russo.

No mesmo período, a Justiça reduziu a pena de Cherkasov por falsidade documental de 15 anos para 5 anos e 2 meses, mas manteve sua prisão preventiva diante do risco de fuga. A situação voltou a se complicar em janeiro de 2024, quando surgiram novas suspeitas de lavagem de dinheiro, envolvendo depósitos feitos por funcionários do consulado russo para custear suas despesas na prisão.

Em agosto de 2024, a exclusão de Cherkasov da grande troca de prisioneiros entre Rússia e países ocidentais foi interpretada como um sinal de que Moscou apostava na via jurídica brasileira para recuperar seu agente.

O desfecho começou a se desenhar em 2025, com o arquivamento do inquérito de espionagem no Brasil, sob o entendimento de que seus atos visavam interesses de terceiros, e não diretamente o Estado brasileiro. 

Como agentes russos ainda podem operar no Brasil

O caso de Cherkasov acendeu um sinal de alerta permanente nas forças de segurança brasileiras. A avaliação da Polícia Federal é de que o espião preso em Brasília não atuava de forma isolada e que outros agentes russos podem estar operando no país com métodos semelhantes, explorando fragilidades institucionais e vivendo por longos períodos sob identidades falsas.

Segundo investigadores, o padrão já identificado envolve agentes conhecidos como “ilegais” — profissionais de inteligência que não têm qualquer cobertura diplomática e constroem vidas inteiras como cidadãos comuns. Eles costumam se apresentar como estudantes, pesquisadores, empresários ou profissionais liberais, mantendo rotinas discretas, sem ostentação e sem vínculos visíveis com governos estrangeiros. Em muitos casos, constroem relações pessoais, acadêmicas e profissionais profundas antes de serem ativados para missões específicas.

As suspeitas da PF indicam que o Brasil cumpre um duplo papel estratégico nesse tipo de operação. Além de servir como local de residência de longo prazo, o país funciona como plataforma intermediária, a partir da qual esses agentes podem ser deslocados para destinos considerados sensíveis, como países europeus, os Estados Unidos ou organismos internacionais. O passaporte brasileiro, em especial, facilita a circulação internacional e reduz o nível de desconfiança inicial em controles migratórios.

Outro fator que preocupa as autoridades é o baixo custo operacional para esse tipo de espionagem em território brasileiro. Diferentemente de países com tradição consolidada em contrainteligência, o Brasil historicamente não figura como prioridade nesse campo, o que torna mais difícil a detecção de agentes que não realizam ações ostensivas. A existência de brechas em sistemas de registro civil e a possibilidade de obtenção de documentos legítimos a partir de registros fraudulentos ampliam esse risco.

Para a Polícia Federal, a descoberta de casos como o de Cherkasov — e de outros agentes russos identificados posteriormente — não representa o encerramento do problema, mas apenas a revelação de uma engrenagem mais ampla, construída ao longo de anos. A avaliação interna é que parte desses agentes pode ainda estar em fase de “hibernação”, mantendo suas identidades falsas e aguardando o momento oportuno para atuar, o que mantém o Brasil sob vigilância constante no radar das operações de inteligência estrangeiras.

Quem são os outros espiões russos já identificados no Brasil

Além de Cherkasov, o Brasil registra uma lista crescente de agentes russos que usaram o país como base para operações de inteligência, seja por meio de identidades falsas, atividades comerciais de fachada ou até cobertura diplomática. Investigações conduzidas por autoridades brasileiras, em cooperação com serviços estrangeiros, revelaram um padrão: o país foi usado tanto para a construção de “legendas” quanto como ponto de passagem para missões mais sensíveis no exterior.

Um dos casos mais emblemáticos é o de Mikhail Valeryevich Mikushin, coronel do GRU. Nascido em 1978, ele operava com documentos brasileiros autênticos sob o nome falso de José Assis Giammaria, supostamente natural de Padre Bernardo (GO). Com essa identidade, construiu um currículo acadêmico que lhe permitiu, em 2021, atuar como pesquisador visitante na Universidade do Ártico da Noruega. Preso em outubro de 2022 sob acusação de espionagem, Mikushin acabou admitindo sua verdadeira identidade em dezembro de 2023 e, em agosto de 2024, foi incluído em uma troca internacional de prisioneiros coordenada pela Turquia.

Outro núcleo identificado envolve o casal Irina Alexandrovna Smireva e Artem Shmyrev. No Brasil, Smireva usava o nome de Maria Tsalla e chegou a visitar o país em 2019, com registros fotográficos no Rio de Janeiro, Arraial do Cabo, Petrópolis e Ouro Preto, divulgados em redes sociais. Já Shmyrev viveu por cerca de seis anos no Rio de Janeiro sob a identidade falsa de Gerhard Daniel Campos Wittich, onde administrava uma empresa de impressão 3D e mantinha uma vida aparentemente comum, incluindo um relacionamento com uma brasileira. Investigações posteriores revelaram que ambos eram casados entre si e integravam uma operação sofisticada de inteligência; Shmyrev conseguiu deixar o Brasil antes de ser preso, mas mensagens recuperadas confirmaram sua atuação clandestina.

Há também casos de atuação sob cobertura diplomática. Identificado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Serguei Alexandrovitch Chumilov chegou ao Brasil em 2018 como primeiro-secretário da Embaixada da Rússia em Brasília e representante da Casa Russa (Russky Dom), ligada à agência estatal Rossotrudnichestvo. Segundo a Abin, ele usava sua posição oficial para recrutar brasileiros como informantes, frequentando eventos acadêmicos e oferecendo bolsas de estudo e intercâmbio na Rússia. Após a descoberta de suas atividades, Chumilov deixou o país em julho de 2023, em uma saída negociada para evitar constrangimentos diplomáticos; o caso só veio a público em 2024.

Outro exemplo de agente “ilegal” é Vladimir Aleksandrovich Danilov, que viveu no Rio de Janeiro desde 2016 sob o nome falso de Manuel Francisco Steinbruck Pereira, onde mantinha um comércio de antiguidades na Barra da Tijuca. Ao lado de Yekaterina Leonidovna Danilova, que usava a identidade de Adriana Carolina Costa Silva Pereira, formou um casal que deixou o Brasil em 2018 rumo a Portugal, onde desapareceu. As verdadeiras identidades de ambos foram reveladas posteriormente, com apoio de agências internacionais.

A lista inclui ainda Olga Igorevna Tyutereva, que operou no Brasil sob o nome de Maria Luisa Dominguez Cardozo. Com uma certidão de nascimento brasileira autêntica, conseguiu obter posteriormente um passaporte uruguaio. Sua última localização conhecida foi na Namíbia, e sua identidade real veio à tona em outubro de 2024 após um alerta da Interpol, que a incluiu em um alerta azul para coleta de informações adicionais.

Também foi identificado Aleksandr Andreyevich Utekhin, que se apresentava no Brasil como Eric Lopes, joalheiro e gemólogo. Ele abriu empresas em Brasília e São Paulo e chegou a pagar para ser apresentado como especialista em um programa de televisão em 2021, evitando aparecer diante das câmeras. Antes que medidas fossem tomadas, deixou o país e teria passado pelo Oriente Médio; seu paradeiro atual é desconhecido, embora haja suspeita de retorno à Rússia.

Por fim, Roman Olegovich Koval viveu no Brasil ao lado de Irina Alekseyevna Antonova, ambos sob identidades falsas brasileiras. O casal deixou o país em 2023 em direção ao Uruguai, onde foi identificado pelas autoridades locais. Os dois constam atualmente em alertas azuis da Interpol.

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