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Operação da PF contra aliado de Alcolumbre leva crise do Master para o Senado

Davi Alcolumbre Amapá Banco Master
Davi Alcolumbre, presidente do Senado, enfrenta pressão após operação da PF atingir aliado no Amapá (Foto: EFE/Andre Borges)

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A operação Zona Cinzenta, deflagrada nesta sexta-feira (6) pela Polícia Federal, colocou no centro das investigações o diretor-presidente da Amapá Previdência (Amprev), Jocildo Silva Lemos — indicado ao cargo pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Antes de ser apadrinhado para o comando da autarquia, Lemos já havia atuado como tesoureiro em pelo menos duas campanhas do senador amapaense.

A PF apura aplicações do fundo de previdência de servidores do Amapá feitas em 2024 que somam quase R$ 400 milhões em letras financeiras do Banco Master. A reportagem apurou com uma fonte ligada à investigação que elas foram aprovadas em menos de 20 dias, apesar de o fundo ter recebido alertas de risco do Ministério Público Federal (MPF) e do Tribunal de Contas da União (TCU).

Além disso, dois membros do conselho de investimentos da Amprev foram contrários ao investimento e recomendaram nova consulta ao TCU, segundo atas públicas de reunião analisadas pela Gazeta do Povo.

Davi Alcolumbre não é investigado e seu nome não apareceu até o momento nas investigações. O senador foi procurado nesta sexta-feira (6) pela reportagem e sua assessoria divulgou nota afirmando que ele confia nas instituições e defende apuração com transparência e respeito ao devido processo legal, afirmando esperar que “os verdadeiros culpados sejam punidos na forma da lei”.

O senador não respondeu a questionamentos sobre sua relação pessoal com Jocildo Lemos, presidente da Amprev. No último dia 29, a Gazeta do Povo havia publicado reportagem apontando a ligação de Lemos com Alcolumbre. A assessoria do senador disse na ocasião que não há envolvimento direto dele na indicação ou nas decisões de investimento do fundo. “É falsa e irresponsável qualquer tentativa de vincular o presidente do Senado a essas nomeações ou decisões”, afirmou a assessoria em nota.

A Amprev afirmou se considerar prejudicada pelas irregularidades atribuídas ao Banco Master e disse buscar o ressarcimento integral dos valores investidos. Lemos foi procurado pela reportagem, mas não respondeu aos contatos para se pronunciar.

Alcolumbre não figura entre os investigados, mas o avanço da apuração aproxima o escândalo do Master do Senado e pressiona o presidente da Casa a aceitar a abertura de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre o caso. O parlamentar é responsável por convocar sessões do Legislativo capazes de destravar a instalação da CPMI. Desde o início de fevereiro, Alcolumbre não se manifestou publicamente sobre a CPMI do Master e, segundo interlocutores, tem adiado a decisão para depois do Carnaval.

A oposição sustenta que há uma “operação abafa” em curso. Um requerimento com 281 assinaturas já foi protocolado nesta semana, mas depende de leitura em sessão do Congresso para que a comissão seja instalada. A convocação dessa sessão é uma prerrogativa de Alcolumbre.

O senador Eduardo Girão (CE), líder do Novo no Senado, elevou o tom após a operação no Amapá na manhã da sexta-feira (6) onde Lemos foi alvo de mandado de buscas e teve o telefone celular apreendido.

“Após duas operações no Rio de Janeiro, com direito à prisão do presidente da RioPrev, hoje foi a vez de a Polícia Federal visitar o Amapá, mirando indicado de Alcolumbre na Amprev, que aplicou R$ 400 milhões em letras financeiras do Banco Master”, disse à Gazeta do Povo.

Para o parlamentar, “mais do que nunca”, Alcolumbre, como presidente do Congresso, tem o dever de abrir uma CPI ou uma CPMI sobre a maior fraude do sistema financeiro do país. “Ambos os requerimentos já têm número suficiente há semanas”, afirmou.

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Alvo da PF foi tesoureiro da campanha de Alcolumbre

Nomeado em 2023 pelo governador Clécio Luís (União Brasil), Jocildo Silva Lemos assumiu a presidência da Amprev por indicação direta de Alcolumbre, segundo o próprio Lemos. Alcolumbre nega ter feito a indicação.

“No ano de 2023, seguindo uma política austera, conservadora e, sobretudo, com a consciência de que nós iríamos entregar resultados. Resultado para aqueles que confiaram na gente. E aqui faço um agradecimento especial ao governador Clécio Luís, que fez a nomeação, e, sobretudo, ao senador Davi Alcolumbre, que me convidou para ser o presidente da Amapá Previdência”, disse Jocildo durante uma premiação em 2024. A declaração está registrada em uma página da própria Amprev.

Antes disso, Jocildo Lemos já havia atuado como tesoureiro da campanha de Alcolumbre ao Senado pelo Amapá em 2022. Conforme apurou a reportagem em dados do Tribunal Superior Eleitoral, a relação de ambos seria anterior, com ligações já na campanha de 2018, quando Alcolumbre disputou o governo do estado do Amapá.

Além do indicado de Alcolumbre, a operação da PF desta sexta-feira (6) mirou dois integrantes do Comitê de Investimentos da autarquia que, assim como Lemos, votaram de forma favorável ao investimento no Master. Ambos foram procurados pela reportagem, mas não retornaram os contatos.

A própria sede da Amprev também foi alvo, local onde policiais federais cumpriram quatro mandados de busca e apreensão em Macapá, expedidos pela 4ª Vara Federal.

O deputado estadual do Amapá Errinelson Vieira Pimentel (PL) anunciou que vai encaminhar ao governador do estado um ofício e um requerimento solicitando o afastamento imediato ou a exoneração do diretor-presidente da Amprev, Lemos. Ele também informou que, na próxima semana, apresentará um pedido formal para a instalação de uma CPI na Assembleia Legislativa.

“Os investimentos de R$ 400 milhões no Banco Master, somados à operação da Polícia Federal, são extremamente graves e não podem ser ignorados ou tratados com omissão”, afirmou o parlamentar.

Oposição vê tentativa de Alcolumbre de esvaziar o Congresso

Para o senador Eduardo Girão, existe uma tentativa de esvaziar o Senado para que não haja pressão direta sobre Alcolumbre após a operação da PF no Amapá. Segundo o integrante da oposição, “há pessoas poderosas envolvidas nesse contexto, e tudo precisa ser esclarecido”.

“O Legislativo é um poder maior do que qualquer senador individualmente, e ele [Alcolumbre] tem de respeitar a maioria. Não adianta esvaziar o Senado, como ocorreu nesta semana e parece que vai ocorrer na próxima, para deixar o tempo passar e permitir acordões de bastidores”, completou Girão.

Além da indicação feita por Davi Alcolumbre para a presidência da Amprev, a autarquia mantém ainda no conselho fiscal Alberto Alcolumbre, irmão do presidente do Senado. Ele não está entre os alvos da operação da PF, mas faz parte de um órgão que tinha como obrigação fiscalizar as ações da Amprev. Integrantes da oposição argumentam que a ligação familiar reforça a necessidade de uma investigação parlamentar independente e amplia o constrangimento político para a cúpula do Congresso.

Para o advogado criminalista Jeffrey Chiquini, o avanço da investigação mostra o motivo da resistência política no Congresso em investigar o caso. Para o especialista, “todo mundo está correndo da apuração, porque esse caso [do Master] chega em todo mundo”.

“Isso significa que a PF finalmente, oficialmente, está na cola de Alcolumbre, porque essa previdência do Amapá tem relação direta com ele. Será por isso, então, que Alcolumbre tem resistido tanto para criar a CPI do Banco Master no Congresso? Com certeza é isso”, afirmou Chiquini.

Presidente da Amprev ignorou alertas sobre o Banco Master

Documentos reunidos pela investigação indicam que, em menos de 20 dias, a Amprev aprovou e executou três aplicações sucessivas em letras financeiras do Banco Master, totalizando quase R$ 400 milhões — o equivalente a cerca de 4,7% do patrimônio líquido da previdência estadual.

As decisões foram tomadas em três reuniões ocorridas em julho de 2024, período em que o Banco Master já era alvo de questionamentos em órgãos de controle. De acordo com as investigações, o presidente da autarquia teria articulado os investimentos e minimizado advertências feitas por integrantes do Comitê de Investimentos da Amapá Previdência.

A reportagem apurou que há suspeitas de que, quando as decisões foram tomadas, a Amprev já teria recebido alertas ao menos iniciais do MPF e do TCU sobre possíveis irregularidades ou riscos envolvendo o banco.

Relatórios e comunicações anexados ao inquérito indicariam que tanto o Ministério Público Federal quanto o Tribunal de Contas da União haviam emitido alertas relacionados à situação da instituição financeira e às investigações em curso. Dentro da própria Amprev, ao menos outros dois integrantes do comitê responsável pelas análises técnicas de investimentos registraram ressalvas formais quanto à compra dos títulos, apontando preocupações com exposição excessiva, liquidez e reputação do banco. Eles não são investigados.

Segundo a PF, os pareceres críticos foram vencidos em votações e as aplicações avançaram em ritmo acelerado. Para os investigadores, a sequência curta de decisões, combinada com a existência de advertências documentadas, está entre os elementos para sustentar a apuração dos crimes de gestão temerária e gestão fraudulenta, que estão sob investigação.

Outro ponto analisado é a alta concentração dos investimentos em um único emissor, prática considerada sensível em fundos previdenciários por elevar o risco sistêmico sobre recursos destinados ao pagamento futuro de aposentadorias e pensões. Técnicos ouvidos pela reportagem afirmam que fundos públicos costumam adotar estratégias conservadoras e diversificadas, justamente para mitigar perdas em cenários de instabilidade no sistema financeiro.

Em uma das atas analisadas pela reportagem, membros do comitê de investimentos dizem que o investimento padrão era de R$ 35 milhões. A Amprev investiu cerca de R$ 400 milhões em papéis do Master.

PF apura se houve pressão hierárquica na Amprev

Além das decisões colegiadas, a Polícia Federal apura se houve pressão hierárquica dentro da autarquia para acelerar os aportes e se procedimentos internos de compliance e governança foram contornados ou relativizados. A investigação também tenta reconstruir o fluxo decisório que levou à liberação dos recursos, incluindo a atuação direta do presidente da Amprev nas reuniões e eventuais comunicações com gestores externos.

Em nota, a Amprev afirmou se considerar prejudicada pelas irregularidades atribuídas ao Banco Master e disse buscar o ressarcimento integral dos valores investidos. A autarquia informou ter adotado todas as medidas judiciais cabíveis, incluindo decisões que resultaram no bloqueio de repasses financeiros à instituição bancária.

No comunicado, declarou esperar que “a Justiça seja feita” e que os responsáveis pelos ilícitos sejam responsabilizados. A entidade também ressaltou que os investimentos no banco — previamente validados pelo Banco Central — correspondem a 4,7% da carteira total e que a atual gestão registrou crescimento patrimonial de 41% entre 2023 e 2025, o que, segundo a nota, garantiria o pagamento de aposentadorias e pensões ao menos até 2059.

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