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Escândalo

Oposição explora conexão baiana do caso Master para desgastar Lula nas eleições

Rui Costa minimiza encontro de Lula com Vorcaro
Quando governador da Bahia, Rui Costa, ministro da Casa Civil, criou condições favoráveis para negócios do Banco Master. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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Investigações da Polícia Federal (PF) e da CPMI do INSS apontam governos petistas da Bahia como possível berço político e operacional do escândalo do Banco Master, após a análise inicial de documentos obtidos por meio da quebra de sigilos bancário, fiscal e telefônico de Daniel Vorcaro, controlador da instituição, hoje liquidada.

A oposição explora essa conexão para desgastar Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida eleitoral de 2026, relacionando a expansão inicial do banco à plataforma de crédito consignado CredCesta.

Nascido no aparelho estatal baiano, o cartão CredCesta ganhou importante dimensão rapidamente devido à clara influência de aliados próximos do presidente e continua ainda trazendo fatos suspeitos para líderes petistas.

O deputado Carlos Jordy (PL-RJ) afirma que a instalação de uma CPI para apurar o caso se tornou urgente diante das suspeitas reveladas pelas investigações. Segundo ele, o escândalo tem ramificações empresariais, políticas e até familiares ligadas a personagens do governo.

Jordy sustenta que os indícios já conhecidos justificariam uma investigação parlamentar mais ampla sobre a origem e o crescimento do banco. E um dos episódios mais recentes denunciados pela oposição envolve a empresa BK Financeira, criada em Salvador em 2021.

A companhia tem entre suas sócias uma nora do senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado. A empresa foi contratada pelo Master para prospectar operações de consignado e indicar convênios na modalidade. Para este serviço, recebeu R$ 11 milhões. A revelação foi feita pelo portal Metrópoles.

Em nota à Gazeta do Povo, a assessoria do senador informou que ele “jamais participou de qualquer intermediação ou negociação em favor da empresa citada”. O líder do governo disse confiar na “autonomia da Justiça” e reforçou “que cabe exclusivamente à empresa prestar os devidos esclarecimentos sobre suas atividades e contratos celebrados”.

De acordo com o site da Receita Federal, a BK Financeira (nome fantasia da BN Financeira Ltda) foi criada em 2021, com capital social de R$ 45 mil e sede em Salvador (BA). O advogado Moisés Dantas dos Santos, um dos sócios da empresa, disse ao Metrópoles ser sócio da nora do senador desde 2022 e confirmou a existência do contrato.

Ele destacou que “todos os valores recebidos foram formalizados por meio de nota fiscal e balanços e extratos estão à disposição das autoridades”. A reportagem tenta contato com Moisés Dantas e a nora do senador. O espaço segue aberto para manifestações.

Por indicação de Wagner, o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega prestou consultoria ao Master com salário milionário. Outro ex-ministro de Lula contratado por Daniel Vorcaro foi Ricardo Lewandowski, ex-chefe da pasta da Justiça e Segurança Pública. O banqueiro chegou a se reunir secretamente quatro vezes no Palácio do Planalto, uma vez ao menos com o próprio presidente da República.

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Sócio de Vorcaro é principal elo entre banqueiro e a cúpula do PT baiano

Outro foco das investigações é o empresário baiano Augusto Ferreira Lima. Ex-sócio do banqueiro Daniel Vorcaro, ele é apontado por investigadores como um dos responsáveis por estruturar e expandir o sistema de crédito consignado associado ao banco, especialmente por meio do produto CredCesta.

Criado em 2007 pelo governo da Bahia, o CredCesta surgiu como um cartão de benefícios voltado aos servidores públicos estaduais, inicialmente voltado para a rede de supermercados estatal Cesta do Povo, depois privatizada pelo então governador Rui Costa (PT).

Na prática, o CredCesta funcionava como um “vale-mercado”, destinado à compra de alimentos e itens básicos no supermercado estatal Cesta do Povo, administrado pela Empresa Baiana de Alimentos (Ebal). O modelo tinha caráter social e restrito ao consumo na rede pública, mas começou a mudar de perfil ao longo da década seguinte.

A transformação ocorreu sobretudo após a privatização da Ebal, em 2018, já no governo de Rui Costa (PT). O CredCesta foi transferido à iniciativa privada e passou a operar em parceria com instituições financeiras, como o Banco Master e o Banco Pleno, deixando de ser apenas um benefício atrelado ao abastecimento doméstico para se tornar um cartão de crédito consignado com bandeira internacional.

O cartão permite compras em lojas físicas e online, além de saques em dinheiro e acesso a programas de descontos em serviços de saúde. Apesar de ser apresentado como alternativa de crédito mais barata do que cartões tradicionais, o modelo tem sido alvo de críticas por cobrar juros considerados elevados em comparação com outros consignados públicos.

A posterior liquidação extrajudicial dos dois bancos pelo Banco Central, entre 2025 e 2026, expôs o programa ao escândalo financeiro do Master por envolver personagens em comum.

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Rui Costa deu exclusividade ao Master para operar consignado de servidores

O crescimento do negócio também foi impulsionado por decisões administrativas no governo baiano. Um decreto assinado por Rui Costa em 2022 restringiu a portabilidade dos consignados ligados ao programa, o que na prática ampliou a exclusividade do Master nas operações com servidores estaduais.

Servidores recorreram ao Judiciário para tentar migrar contratos em busca de juros menores. Em ação judicial, o Ministério Público da Bahia também questionou a concentração das operações e pediu investigação sobre o que classificou como atuação monopolizada do banco nesse nicho.

A origem baiana do esquema passou a chamar ainda mais atenção após o avanço das investigações da CPMI do INSS. As mesmas estruturas associativas que aparecem no caso Master surgem também nas apurações sobre descontos associativos irregulares em benefícios previdenciários.

A CPMI incorporou formalmente essa linha de investigação. Em fevereiro, a comissão aprovou convocações e quebras de sigilo envolvendo Augusto Lima e o próprio CredCesta, apontando o empresário como figura central na trajetória operacional do Banco Master.

Gazeta do Povo procurou o Banco Central, Jaques Wagner e Rui Costa, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

A assessoria de Augusto Lima informou à reportagem que o empresário continua acompanhando os desdobramentos dos fatos, sem acrescentar posicionamentos.

De perfil mais comedido que Vorcaro, Lima busca se distanciar da gestão do ex-sócio no Banco Master. Atualmente, ele está sob monitoramento eletrônico (tornozeleira) e teve seus bens bloqueados por determinação do Banco Central e da Justiça.

CPMI tentou ouvir Augusto Lima sobre contratos que continuam em vigor

Augusto Lima chegou a ser convocado para prestar esclarecimentos sobre suspeitas de fraudes em empréstimos consignados a aposentados do INSS. A oitiva acabou esvaziada depois que o ministro André Mendonça o desobrigou de comparecer, mas o foco das investigações sobre o empresário foi mantido.

Outro episódio relevante ocorreu em fevereiro de 2026, quando o Banco Central (BC) decretou a liquidação extrajudicial do Banco Pleno, instituição controlada por Lima e ligada ao Master. A decisão expôs o modelo de negócios, baseado em consignados, que foi estruturado nos anos anteriores.

Apesar da liquidação, os contratos de crédito permanecem válidos e os descontos em folha continuam sendo realizados, agora sob gestão do liquidante nomeado pelo BC. Especialistas recomendam que servidores acompanhem os contracheques e solicitem relatórios detalhados de suas dívidas.

Lula insiste que esquemas do Master começaram no governo Bolsonaro

Enquanto a oposição tenta associar o escândalo ao núcleo político do PT baiano, o Palácio do Planalto reitera que as operações foram regulares e que as investigações devem alcançar todos os envolvidos, independentemente de posição política.

O governo também insiste que irregularidades no Master deveriam ter sido detectadas antes pelo BC durante a gestão anterior. Integrantes do Executivo mencionam que os primeiros indícios surgiram quando a autoridade monetária ainda era presidida por Roberto Campos Neto.

Em recente discurso, Lula rejeitou ser associado aos esquemas e afirmou que "o ovo da serpente" do Master foi colocado por Campos Neto, indicado por Bolsonaro, durante a gestão federal passada.

Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição no Senado, afirma que a rede criminosa de relações entre empresários, políticos e intermediários financeiros precisa ser investigada pelo Congresso.

Para ele, o caso Master deixou há muito de ser só um escândalo bancário e se trata de um sistema de múltiplos desvios, que alcançam consignados públicos, entidades associativas e circulação de créditos no mercado financeiro.

Segundo Juan Carlos Arruda, diretor-geral do Ranking dos Políticos, a instalação da CPI do Master dependerá essencialmente de decisões políticas no Congresso. Caberá aos presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP), garantir ou barrar as investigações.

Arruda afirma que a disputa em torno da CPI deve manter a tensão entre governo e oposição pelos próximos meses. "O caso Master tornou-se um dos principais pontos de conflito político em Brasília e tende a influenciar diretamente a eleição presidencial de 2026", resume.

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