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Após encerrar os trabalhos em 2025, a CPMI do INSS deve ganhar novo impulso político em 2026 após a Polícia Federal (PF) informar ao Supremo Tribunal Federal (STF) que vai investigar a relação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o lobista Antônio Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, um dos principais investigados no roubo dos aposentados.
Para o relator da comissão, Alfredo Gaspar (União-AL), os fatos recentes reforçam que o Congresso tem a obrigação institucional de aprofundar as apurações sobre o esquema bilionário de descontos ilegais em aposentadorias e pensões.
A nova frente de investigação não se refere diretamente à autoria das fraudes no INSS, mas à suspeita de que Lulinha possa ter mantido relação empresarial com Antunes e com a empresária Roberta Luchsinger. Lulinha não é investigado pelas irregularidades na Previdência. Segundo a Polícia Federal, o objetivo é apurar se o filho do presidente atuou como “sócio oculto” em negócios ligados ao grupo investigado, a partir de materiais já coletados na operação.
“O fato é gravíssimo: o filho do presidente da República mantém relacionamento com o maior operador do roubo dos aposentados e pensionistas do Brasil. Era amizade desinteressada? De jeito nenhum; eram interesses financeiros mútuos", afirmou Gaspar.
A reportagem procurou a Polícia Federal e o advogado Marco Aurélio de Carvalho, que defendia Lulinha, para se pronunciarem oficialmente sobre a apuração, mas não obteve retorno. Ao jornal O Estado de S. Paulo, Carvalho afirmou que o filho do presidente “nunca teve relação direta ou indireta com o INSS” e classificou as citações como “ilações”.
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Blindagens, STF e esvaziamento marcaram primeira fase da CPMI
A deflagração de uma nova fase da Operação Sem Desconto, em dezembro do ano passado, também trouxe de volta ao centro do debate personagens que a CPMI tentou ouvir, mas foi impedida por sucessivas derrotas impostas pela base governista.
A inclusão do senador Weverton Rocha (PDT-MA) — vice-líder do governo no Senado — entre os alvos da investigação no dia 18 de dezembro agravou o cenário para o Palácio do Planalto e reforçou a tese de blindagem institucional denunciada pelo relator, Alfredo Gaspar, ao longo dos trabalhos.
"Tem muita coisa podre ainda a ser exalada, mas isso depende de não haver blindagem. E eu tenho visto uma organização muito grande para se blindar determinados personagens”, disse.
Durante os trabalhos no último ano, o colegiado também trombou em habeas corpus do STF, manobras regimentais e blindagens explícitas, especialmente quando as apurações apontaram para núcleos mais sensíveis como o irmão e o filho de Lula.
Apesar das derrotas políticas, Gaspar sustenta que a CPMI conseguiu reconstruir a engrenagem do esquema, mapear vínculos pessoais e familiares entre operadores e rastrear o caminho do dinheiro.
Segundo ele, dois fatores atrapalharam diretamente o avanço das investigações: a atuação de partidos para barrar requerimentos considerados sensíveis e decisões do STF. “Cada depoente chega com um habeas corpus diferente. Uns não vêm, outros vêm e não falam. Isso atrapalha muito”, afirmou.
CPMI expôs caminhos da investigação
O presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), afirmou que a comissão expôs ao público todos os caminhos da investigação e que a responsabilidade sobre os bloqueios será julgada nas urnas. “Aqui tudo foi colocado às claras. Se votam contra requerimentos, isso é decisão de cada um. O julgamento será feito pela população”, afirmou.
Viana criticou mais uma vez a concessão de habeas corpus a depoentes estratégicos, o que permitiu que investigados fossem à CPMI sem obrigação de responder às perguntas. “É mais uma interferência do STF em uma investigação que é independente”, disse.
Apesar das derrotas em plenário, Viana garantiu que a CPMI continuará avançando pela via documental. “Mesmo sem aprovação de requerimentos, eu posso requisitar qualquer inquérito à Polícia Federal e ao próprio Supremo. A verdade não será calada”, afirmou.
O senador também revelou pressão direta de bancos para evitar convocações, especialmente de instituições que concedem crédito a juros elevados para aposentados. “Se em dezembro já houve pressão, imaginem em fevereiro. A pressão será gigantesca”, alertou.
Ao longo dos trabalhos, a CPMI analisou quase 5 mil documentos, aprovou 73 requerimentos de informação e 48 quebras de sigilo. As investigações apontaram mais de 100 empresas suspeitas e movimentações financeiras superiores a R$ 1,2 bilhão. O relator estima que os descontos indevidos possam ter alcançado R$ 10 bilhões.
O padrão identificado incluiu associações lançando mensalidades sem autorização, call centers operando em massa, servidores do INSS liberando lançamentos, empresas de fachada recebendo recursos e lavagem em camadas sucessivas, inclusive com uso de criptomoedas.
O deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) afirma que a CPI patinou por resistência de grupos políticos. “Há muitos parlamentares que nem sequer assinaram a CPI e estão atrapalhando as investigações ao blindar pessoas que deveriam vir”, disse.
Ele cita a tentativa de barrar a convocação de Daniela Fonteles, do irmão do ex-presidente Lula (Frei Chico) e do “Careca do INSS”. “Nós vamos continuar batendo nessa tecla. Não se pode blindar ninguém”, afirmou.
Sistema fraudulento revelado pelo relator
Entre os avanços, os membros da CPMI citam a exposição do sistema fraudulento que desviava recursos de aposentadorias. As quebras de sigilo bancário, fiscal e contábil permitiram enxergar o fluxo do início ao fim.
Análises técnicas do Tribunal de Contas da União (TCU) e da Controladoria-Geral da União (CGU), além dos cruzamentos com operações policiais permitiram ao relator descrever o mecanismo que sustentava a fraude:
- associações e sindicatos lançavam mensalidades sem autorização;
- call centers executavam a operação em massa;
- servidores do INSS liberavam os lançamentos;
- empresas recém-criadas ou de fachada recebiam os repasses;
- lavagem em camadas sucessivas, com parte do dinheiro migrando para criptomoedas.
O caso mais emblemático foi o do ex-coordenador de pagamentos e benefícios do INSS preso em flagrante após contradições sobre sua atuação em liberações técnicas contestadas. Ele foi solto após pagar fiança. Além dele, a CPMI também fez outra prisão em flagrante por falso testemunho.
Outras prisões ocorreram como parte da Operação Sem Desconto da Polícia Federal, que deflagrou o sistema fraudulento do INSS. As ações miraram o "núcleo principal" do esquema bilionário, com destaque para a prisão do ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, além de outros servidores de alto escalão, empresários-chave como Antônio Camilo Antunes (o "Careca do INSS"), e dirigentes de confederações associativas. As detenções atingiram dezenas de pessoas em diversas fases da operação, buscando desarticular a rede criminosa responsável pela inserção de dados falsos e desvios de R$ 6,3 bilhões dos aposentados.
Como governistas barraram o avanço das investigações
A “tropa de choque” do governo Lula na CPMI do INSS, composta por nomes como o ex-ministro Paulo Pimenta (PT-RS), além dos senadores Omar Aziz (PSD-AM) e Randolfe Rodrigues (PT-AP), atuou de forma decisiva para blindar aliados e evitar o desgaste político do Planalto, especialmente barrando requerimentos de convocação considerados excessivos ou impertinentes pela base governista.
Os requerimentos de convocação de aliados de Lula - como o Lulinha, o Frei Chico, e o advogado-geral Jorge Messias - foram todos rejeitados com margem de sobra.
As táticas governistas para exercer esse controle incluíram a retirada de pauta de quebras de sigilo consideradas “altamente sensíveis”, o adiamento reiterado de depoimentos de figuras com potencial impacto político, o esvaziamento de sessões e o uso do quórum para derrubar requerimentos, além da resistência explícita à convocação de presidentes de bancos e dirigentes de órgãos federais, como o do advogado-geral da União, Jorge Messias.
Embora o nome do Messias tenha sido uma das tentativas recentes da oposição, a atuação da "tropa" foi mais notória ao rejeitar a convocação de José Ferreira da Silva, o "Frei Chico", irmão do presidente Lula e vice-presidente de um dos sindicatos envolvidos nas denúncias.
Os governistas alegam que a articulação tem sido para manter o foco das investigações em gestões passadas, especialmente no governo Bolsonaro. Além disso, eles reforçam a narrativa de que apenas o Lula teve a capacidade de investigar as fraudes no INSS.
“Foram decretos, MPs e autorizações do governo Bolsonaro que abriram caminho para entidades fantasmas roubarem quem realmente precisava do INSS. Agora, como de costume da extrema-direita, tentam criar factoides para desviar o foco”, disse Paulo Pimenta.
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Próximos passos da CPMI têm foco no consignado
Com o encerramento da primeira etapa, os integrantes da CPMI já admitem que o grosso do trabalho ficou para 2026. O senador Carlos Viana antecipou que a próxima fase vai mirar diretamente o sistema financeiro — onde se concentram operações de empréstimos consignados que somam quase R$ 500 bilhões em cinco anos.
Segundo Viana, o volume de documentos, a necessidade de novas quebras de sigilo e a convocação de dirigentes de grandes instituições financeiras tornam “materialmente impossível” concluir o relatório no prazo atual. Por isso, o colegiado decidiu pedir prorrogação por mais 60 dias, abrangendo abril e maio, tendo em vista o encerramento no dia 28 de março.
“Agora começa a parte que mais vai doer. Até aqui lidamos com R$ 10 bilhões em descontos indevidos. Na próxima fase, vamos mexer em um mercado de R$ 500 bilhões. Precisamos de tempo — e de coragem — para ir até o fim”, escreveu nas redes sociais.
O presidente do colegiado adiantou também que o relator deve apresentar um relatório preliminar em fevereiro, assim o colegiado deve se reunir para avaliar o documento parcial e definir os próximos passos da investigação.
Com isso, a CPMI entra em 2026 com a etapa mais pesada pela frente: desvendar a participação das instituições financeiras no esquema que começou com associações e terminou em alta engrenagem bancária.
Na avaliação do professor de Ciência Política Nauê Bernardo Azevedo, do Ibmec Brasília, a CPMI do INSS terminou esvaziada pelo contexto político nacional. “A avalanche de eventos políticos que ocorreu no Brasil acabou tirando o espaço da comissão na mídia. O andamento da CPMI não despertou o interesse esperado”, afirma.
Para ele, os resultados dificilmente irão além do que já foi obtido pela Polícia Federal, ao menos até o momento. Ainda assim, a comissão teve papel relevante ao revelar partes importantes da engrenagem do esquema fraudulento, o que pode ter impacto direto no campo político. “Esse mapeamento ajuda na busca por responsabilização dos agentes e na construção de soluções institucionais para o caso”, afirma.






