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Móveis para exportação

Polo centenário de móveis de SC quer selo internacional para distinguir madeira maciça de MDF e painéis

Indústria de móveis de madeira maciça, em São Bento do Sul (SC).
Marcenarias se modernizaram nas últimas décadas para atender ao mercado externo. (Foto: Móveis Kratzer/Divulgação)

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A história de um polo industrial raramente se escreve apenas com números de exportação ou metros quadrados de galpão. Em São Bento do Sul, no Planalto Norte de Santa Catarina, ela foi talhada em fibras de pinus e imbuia, lixada por gerações de imigrantes europeus e seus descendentes. Nesta jornada de mais de 100 anos, um novo capítulo se apresenta para legitimar um legado na produção de móveis de madeira maciça.

O Sebrae vem estudando, junto aos empresários da região, a possibilidade de conquistar a certificação de Indicação Geográfica (IG) para o produto feito nas fábricas de São Bento do Sul, Campo Alegre e Rio Negrinho, cidades formadoras do polo centenário — esse processo começou em 2019. Embora reconhecidas nacional e internacionalmente pela qualidade dos móveis, as empresas da região ainda não haviam sido submetidas aos critérios formais de certificação junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi).

A iniciativa, conduzida pelo Sebrae, envolve sindicatos empresariais e a Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc). Segundo o gerente regional Luiz Carlos da Silva, o trabalho passa por sensibilizar os industriais locais sobre a importância da Indicação Geográfica e dar condições para que eles possam se adequar para usarem a certificação como diferencial, principalmente visando o mercado externo.

De acordo com o cronograma, o dossiê com evidências históricas e técnicas deve ser encaminhado ao Inpi até novembro de 2026, e a expectativa do setor é ter a confirmação do órgão até o final do ano que vem. O Sebrae mapeou 100 empresas na região que estariam habilitadas para a certificação.

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O saber fazer: das barricas para erva-mate à mobília para exportação

A relação da região com a madeira remonta ao século XIX, quando a imigração europeia, composta majoritariamente por alemães, poloneses e tchecos, encontrou no Planalto Norte um vasto estoque de florestas nativas. Inicialmente, o ofício da marcenaria era uma ferramenta de sobrevivência, servindo para a construção das moradias e dos itens básicos de subsistência.

A industrialização não começou diretamente para a produção de móveis, mas pela necessidade de escoar a produção de erva-mate por meio de barricas. Foi nesse processo que as técnicas de trabalho com a madeira começaram a ser aprimoradas até a fundação das primeiras serrarias e fábricas da região na virada para o século XX.

Nos anos seguintes, o que era utilitário ganhou contornos de arte e design. Peças inspiradas no acervo do Museu Imperial, no Rio de Janeiro passaram a ser replicadas na região, utilizando a imbuia nativa, madeira que se tornou sinônimo de alta qualidade e durabilidade.

O conceito de "móveis para durar a vida inteira" consolidou-se, tendo como um dos seus maiores expoentes a Móveis Cimo (que encerrou atividades na década de 1980). A fábrica, que chegou a ser uma das maiores do estado e operava como uma engrenagem central da economia local, é simbolizada hoje por sua chaminé remanescente de 45 metros, localizada em São Bento do Sul.

Esse passado artesanal e industrial forneceu a base técnica que permitiu ao polo evoluir para a exportação em larga escala, a partir dos anos 1980, sem abandonar a essência da madeira maciça, mesmo com a transição para o pinus reflorestado por questões ambientais e legislativas. De acordo com dados do Sindicato das Indústrias da Construção e do Mobiliário de São Bento do Sul (Sindusmobil), a venda para exportação de móveis em Santa Catarina, no ano passado, foi de R$ 240 milhões.

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"Regra dos 95%": diferencial técnico separa o polo catarinense

O gerente regional do Sebrae explica que o histórico foi fundamental para o diagnóstico que deu início ao processo da IG. Segundo ele, o estudo de viabilidade apontou que a região preenchia 95% dos quesitos necessários para o reconhecimento de procedência. A avaliação levou em conta critérios como territorialidade, método de produção e governança.

"Trata-se de dar nome e selo a um modelo produtivo que preserva uma lógica própria, distinta do padrão adotado por grande parte do mercado nacional", explica o gestor. Enquanto o cenário moveleiro no Brasil, historicamente, passou a adotar os painéis de madeira processada, como o MDF e o MDP, como base de sua produção, o polo catarinense se manteve fiel ao longo dos anos à madeira em sua forma sólida.

De acordo com Silva, cerca de 95% da produção de outros polos brasileiros utilizam chapas como matéria-prima principal. No Planalto Norte catarinense, os números mostram o inverso: a madeira maciça compõe 95% do que é fabricado, em um encadeamento produtivo que envolve desde a produção renovável da árvore até o design final.

"Tem muita gente no Brasil que vende móvel enganando o consumidor, dizendo que é de São Bento do Sul, porque é uma região famosa pela qualidade. Com a Indicação Geográfica, o mercado vai ter a garantia de que o produto é realmente de origem e tem madeira maciça empregada", comenta.

Para o gestor, a IG também é uma forma de traduzir essa notoriedade histórica em um ativo de mercado que seja facilmente identificado pelo comprador francês, espanhol ou alemão, que já possui o hábito de consumir produtos certificados.

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Indicação Geográfica tem força nas negociações internacionais

A escala de produção do polo industrial demonstra uma transição bem-sucedida para as demandas contemporâneas de volume e competitividade. Diretor da Móveis Katzer, Anor Kratzer conta que sua empresa, nascida nos anos 1970 com a fabricação de parquês de madeira nativa, precisou se reinventar ao longo das décadas para se manter relevante.

Hoje, a fábrica é focada em camas e beliches de madeira de pinus e já figurou no topo do ranking das exportadoras de móveis do país, em 2016. A produção mensal, que chega a 32 mil unidades, abastece mercados exigentes como o europeu e o norte-americano, o que impõe um padrão de qualidade que envolve testes rigorosos e certificações de sustentabilidade.

A dependência do mercado externo, entretanto, traz desafios de natureza geopolítica e econômica que testam a resiliência do setor. A partir da metade do ano passado, o polo sentiu o impacto de barreiras tarifárias nos Estados Unidos, o que reduziu drasticamente o volume de vendas para o país, principal comprador individual da região.

Somente na Móveis Katzer, a participação norte-americana nas vendas caiu de 24% para 5%. "Nós tínhamos um planejamento de aumentar o volume para os Estados Unidos em 2025, mas veio o tarifaço e complicou bastante", lembra Anor.

A situação começou a dar sinais de melhora apenas em fevereiro deste ano, com decisões judiciais nos EUA que aliviaram as taxas e permitiram a retomada de grandes contratos, como com a rede Walmart. É nesse contexto de oscilações que Kratzer acredita que a certificação de Indicação Geográfica ganha relevância como uma ferramenta de diferenciação.

"A IG vai contribuir para o aumento da nossa reputação. Não dá para apostar que isso vai trazer um retorno gigante em valores imediatos, mas sim na propulsão de demonstrar todo o valor que nossa região tem", comenta o empresário.

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Sustentabilidade: do manejo à economia circular

Um dos critérios para a Indicação Geográfica é a relação entre a produtividade e a preservação ambiental, um tema sensível no comércio global. No caso da produção no Planalto Norte de Santa Catarina, a madeira provém de áreas de manejo certificado, garantindo que o ciclo de plantio e colheita seja sustentável e rastreável desde a floresta até o móvel acabado.

"É um negócio bastante tradicional, mas também é moderno. É voltado para uma produção de alta qualidade, com o foco também na sustentabilidade", explica o presidente do Sindusmobil, Luiz Carlos Pimentel.

Indústria moveleira de São Bento do Sul (SC).Setor moveleiro aposta na certificação para despertar o senso de pertencimento nos jovens da região para aumentar mão de obra disponível. (Foto: Sindusmobil/Divulgação)

Além da origem da matéria-prima, o móvel de madeira maciça dialoga com os conceitos modernos de economia circular. Diferente dos painéis de madeira processada, que dependem de resinas químicas para sua sustentação, o móvel de madeira maciça é composto por fibras naturais. Isso permite que a peça seja lixada, repintada e renovada ao longo do tempo.

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Identidade e o novo turismo industrial com o "efeito Corupá"

O exemplo mais emblemático do potencial de uma IG para a região vem de uma cidade vizinha. Silva, do Sebrae, utiliza com frequência o caso da banana de Corupá (SC) para ilustrar como uma certificação de procedência pode alterar a fisionomia de um território. Antes da conquista do selo de "banana mais doce do Brasil", o produtor local muitas vezes carregava um certo estigma em relação ao seu ofício.

A IG mudou essa percepção interna e externa, segundo o gerente do Sebrae. Hoje, a fruta é motivo de orgulho, a iconografia da bananeira está presente na iluminação pública e a cidade viu surgir um novo fluxo turístico baseado na gastronomia e na visitação às propriedades.

Para São Bento do Sul, Rio Negrinho e Campo Alegre, a expectativa é que o selo do móvel gere um impacto similar. Campo Alegre, por exemplo, já observa um crescimento no turismo de natureza e chácaras.

Para Silva, a integração com o roteiro moveleiro poderia consolidar a região como um polo de lazer e negócios. "A partir do momento em que o mercado sabe disso, quanto não vai gerar de turismo? As pessoas vão incorporar o valor desse diferencial", projeta.

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O desafio da sucessão: atrair jovens para a nova marcenaria

Uma das maiores dores do setor reside na mão de obra e na falta de perspectiva na renovação das equipes. Anor Kratzer é enfático ao apontar que o capital humano tornou-se um dos pontos de maior impacto para o crescimento e futuro das empresas.

"Os jovens estão partindo para estudar em outras áreas, trabalhar com tecnologia, e estamos com dificuldade de repor", afirma. Para reverter esse quadro, programas do Sindusmobil trabalham na base, atuando desde o ensino fundamental para demonstrar que a produção contemporânea pouco lembra os galpões inóspitos de décadas atrás.

"Hoje, o setor é movido por automação, robótica e softwares de design de alta complexidade. Queremos aproximar os jovens deste universo, com visitas às fábricas, exibição de vídeos e oficinas", comenta Pimentel.

Para o presidente do sindicato, a Indicação Geográfica vai reforçar o resgate do senso de pertencimento, garantindo que as novas gerações tenham orgulho de carregar o legado de um dos polos moveleiros mais respeitados do mundo.

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