
Ouça este conteúdo
Chegar aos 100 anos já é uma marca rara. Ultrapassar os 110, porém, coloca uma pessoa em uma categoria ainda mais excepcional: a dos supercentenários. O termo é usado para quem alcança ou supera essa idade e, justamente por isso, esses indivíduos despertam o interesse de pesquisadores que tentam entender por que alguns organismos resistem por tanto tempo aos efeitos do envelhecimento.
O caso mais recente a chamar atenção é o de Ethel Caterham, britânica que completou 117 anos em 21 de agosto e é reconhecida pelo Guinness World Records como a pessoa viva mais velha do mundo.
Nascida em 1909, em Hampshire, na Inglaterra, ela assumiu o título em 2025, depois da morte da brasileira Inah Canabarro Lucas, aos 116 anos. Caterham também está entre as pessoas mais idosas a sobreviver à Covid-19, depois de contrair a doença em 2020, aos 110 anos.
A trajetória da mulher mais velha do mundo atravessa mais de 11 décadas de transformações. Ethel trabalhou como babá na Índia, viveu em Hong Kong, onde criou uma escola infantil, teve duas filhas e perdeu o marido em 1976. Uma das irmãs, Gladys, também alcançou a longevidade centenária, vivendo até os 104 anos.
Ao falar sobre a própria idade, Caterham atribui sua longevidade a uma regra simples: evitar discussões, ouvir os outros e fazer o que gosta. A explicação pessoal, porém, está longe de representar uma resposta científica para a longevidade extrema.
VEJA TAMBÉM:
O que muda no organismo depois dos 110 anos?
Para a geriatra e professora de pós-graduação da Afya Educação Médica Curitiba Andressa Dias da Rocha, o diferencial dos supercentenários não está apenas na quantidade de anos vividos. “Eles não apenas vivem mais, mas envelhecem de forma qualitativamente diferente da maioria”, afirma.
Segundo a especialista, essas pessoas podem apresentar o fenômeno conhecido como compressão da morbidade, no qual doenças crônicas associadas ao envelhecimento surgem mais tarde ou têm menor impacto durante a vida.
Entre as características biológicas que podem estar associadas a esse processo estão mecanismos mais eficientes de reparo do DNA, preservação dos telômeros e melhor funcionamento do sistema imunológico, com níveis mais baixos de inflamação crônica.
“O que observamos nessas pessoas é uma resistência biológica coordenada, e não apenas um envelhecimento mais lento”, explica Andressa. Ela aponta que, nos supercentenários, mecanismos anti-inflamatórios compensatórios podem atuar com maior eficiência, enquanto o sistema imunológico se mantém mais adaptado.
A especialista também cita o que chama de um processo de “limpeza” celular mais ativo, além de reparo do DNA, microbioma intestinal e características genéticas favoráveis à longevidade como possíveis componentes dessa resistência.
Um estudo com outra mulher que viveu 117 anos ajuda a mostrar como essa combinação pode aparecer no organismo. A espanhola Maria Branyas morreu em agosto de 2024 e foi submetida a uma análise detalhada de diferentes camadas biológicas.

A pesquisa, liderada por Manel Esteller, do Instituto de Pesquisa da Leucemia Josep Carreras, na Espanha, reuniu dados genômicos, proteômicos, epigenômicos, metabolômicos e microbiômicos para investigar o envelhecimento extremo.
O resultado foi uma combinação aparentemente contraditória. Branyas tinha telômeros muito curtos, sinais inflamatórios no sistema imunológico e células de defesa envelhecidas, características compatíveis com a idade avançada.
Ao mesmo tempo, apresentava níveis baixos de inflamação, características associadas à proteção do cérebro e do coração, microbioma intestinal com predominância de bactérias consideradas benéficas e idade biológica epigenética inferior à cronológica.
O estudo reforça, assim, a ideia de que o envelhecimento não acontece de maneira uniforme. Diferentes sistemas do organismo podem envelhecer em ritmos distintos, permitindo que marcas de desgaste coexistam com mecanismos de proteção.
No caso de Branyas, a ausência de doenças graves também permitiu aos pesquisadores observar o processo com menos interferências.
Genética tem papel importante na longevidade
A genética é uma das principais frentes para explicar por que algumas pessoas chegam a idades tão avançadas. Para Andressa, seu peso tende a ser ainda maior quando se analisa especificamente a longevidade extrema.
“Não existe um ‘gene mágico’ único, e sim uma herança poligênica”, afirma a geriatra. Ou seja, não seria uma única alteração genética responsável pela capacidade de viver mais, mas a combinação de diferentes características herdadas.
Entre os genes relacionados pela especialista está o APOE. Segundo Andressa, uma variante considerada protetora aparece com frequência entre supercentenários e está associada à proteção contra doenças cardiovasculares e Alzheimer. Outro gene citado é o FOXO3, relacionado à resposta do organismo ao estresse celular.
A especialista afirma ainda que estudos recentes sugerem que a contribuição genética para a longevidade pode ser maior do que se estimava anteriormente, chegando a cerca de 55% quando são isoladas causas externas de morte.
Essa estimativa, porém, não significa que seja possível prever a idade que uma pessoa alcançará apenas a partir do DNA.
Na prática, a longevidade é resultado da interação entre diferentes fatores. “Além da genética, o que realmente faz a diferença na longevidade extrema é um conjunto cumulativo de escolhas e um ambiente favorável”, diz Andressa.
Entre os comportamentos associados a melhores condições para envelhecer, ela destaca nunca ter fumado, manter atividade física e adotar uma alimentação diversificada, preferencialmente baseada em vegetais. A preservação da força muscular, da independência funcional e da saúde cognitiva também aparece como elemento importante.

Os vínculos sociais completam esse conjunto. Segundo a geriatra, os supercentenários “quase sempre possuem fortes vínculos sociais e comunitários”.
No caso de Ethel, as informações divulgadas sobre sua rotina mostram convivência com familiares e amigos, além de atividades de que gosta, como ouvir música clássica e observar os pássaros no jardim.
Isso, contudo, não significa que esses hábitos sejam responsáveis isoladamente pela idade alcançada por Caterham. Os próprios pesquisadores que estudaram Maria Branyas alertam que ainda não é possível relacionar diretamente os resultados biológicos encontrados a comportamentos específicos.
Alimentação, relações sociais e ausência de hábitos de risco aparecem como possíveis fatores, mas não como uma fórmula comprovada.
Viver mais não significa necessariamente viver com saúde
Outro ponto importante é diferenciar longevidade de envelhecimento saudável. “Viver muito, o que chamamos de longevidade, e envelhecer com saúde não são a mesma coisa”, ressalta Andressa.
Para a especialista, Ethel representa um caso de longevidade extrema e bem-sucedida. Mas a avaliação do envelhecimento saudável depende também de quanto tempo a pessoa conseguiu preservar sua independência física e cognitiva.
A ciência ainda não encontrou uma fórmula capaz de produzir supercentenários. “Não existe um ‘segredo’ único para a longevidade extrema”, afirma Andressa.
Segundo ela, chegar a idades tão avançadas depende de uma interação complexa entre genética, estilo de vida, ambiente e o que a medicina chama de “estocasticidade biológica”, relacionada ao papel de acontecimentos aleatórios nos processos do organismo.
“Viver mais de cem anos exige uma base genética favorável, escolhas contínuas de saúde e também uma boa dose de sorte”, resume a geriatra.
É por isso que a história da mulher mais velha do mundo não pode ser transformada em uma receita de longevidade. Mesmo pessoas que adotam hábitos considerados saudáveis podem não chegar aos 100 anos, enquanto casos excepcionais como o de Ethel permanecem difíceis de prever.
Caterham também está distante do recorde absoluto de longevidade humana verificada. A francesa Jeanne Calment morreu em 1997, aos 122 anos e 164 dias, e continua reconhecida pelo Guinness World Records como a pessoa que viveu por mais tempo.
Os casos de Ethel Caterham e Maria Branyas, portanto, não encerram a discussão sobre os limites da vida humana. Ao contrário, ajudam a explicar por que os supercentenários são tão importantes para a pesquisa.
O objetivo não é simplesmente descobrir como chegar aos 117 anos, mas entender como alguns organismos conseguem preservar determinadas funções enquanto outras marcas do envelhecimento já estão profundamente presentes.



