
Ouça este conteúdo
Uma gravação de voz pode carregar informações que vão muito além do som produzido pelas cordas vocais. Um novo estudo, publicado em 30 de setembro na revista científica Science Advances, indica que características da fala podem estar associadas à velocidade com que uma pessoa envelhece, incluindo alterações no cérebro, na cognição e em outros sistemas do organismo.
Para investigar essa relação, pesquisadores desenvolveram um modelo de inteligência artificial chamado de “relógio da fala”. A ferramenta foi treinada para estimar a idade cronológica de uma pessoa a partir de centenas de características acústicas e linguísticas presentes em sua fala. A diferença entre a idade real e aquela estimada pelo sistema foi então comparada com diferentes indicadores de envelhecimento.
O estudo analisou 2.928 adultos de língua espanhola da Argentina, Chile, Colômbia, México e Peru. Entre os participantes estavam pessoas saudáveis e indivíduos com comprometimento cognitivo leve, doença de Alzheimer e diferentes formas de demência frontotemporal.
Os resultados chamaram a atenção porque, quanto mais velha a fala parecia em relação à idade cronológica do participante, maiores eram também alguns sinais associados ao envelhecimento cerebral, biológico e cognitivo.
VEJA TAMBÉM:
O que a voz pode revelar sobre o envelhecimento, segundo o estudo?
O modelo não se baseou apenas no tom da voz ou na maneira como uma pessoa pronuncia as palavras. Os pesquisadores utilizaram aprendizado de máquina para avaliar centenas de características relacionadas tanto à forma de falar quanto ao conteúdo produzido.
Entre os aspectos considerados estavam:
- velocidade da fala;
- quantidade e a duração das pausas;
- tom de voz;
- modulação emocional;
- vocabulário;
- precisão semântica;
- quantidade e organização das palavras utilizadas.
Com esses dados, o sistema estimou uma “idade da fala” para cada participante. A comparação com a idade cronológica produziu o chamado intervalo de idade da fala.
Uma diferença maior significava que a fala apresentava características consideradas mais envelhecidas do que seria esperado para aquela pessoa. Essa diferença esteve relacionada a indicadores obtidos por exames de imagem do cérebro e também a marcadores epigenéticos.
Os chamados relógios epigenéticos analisam alterações químicas que ocorrem no DNA ao longo da vida e podem ajudar a estimar a idade biológica de um organismo.
É justamente aí que aparece uma das principais descobertas do trabalho: a voz não parece refletir apenas a passagem do tempo, mas pode carregar sinais relacionados a diferentes dimensões do envelhecimento.
“Nossa voz parece conter muito mais informações sobre o envelhecimento do que reconhecíamos anteriormente”, afirmou Agustin Ibanez, professor de Saúde Cerebral do Global Brain Health Institute e da Escola de Medicina do Trinity College Dublin, na Irlanda, e autor sênior do estudo.
Segundo o pesquisador, a fala pode reunir sinais relacionados à cognição, ao cérebro, à biologia do organismo e até ao ambiente social acumulado ao longo da vida.
Idade cronológica, biológica e cerebral são diferentes
A descoberta ajuda a entender por que uma pessoa pode parecer mais velha ou mais jovem do que indica sua certidão de nascimento. A idade cronológica é simplesmente o número de anos transcorridos desde o nascimento. Já a idade biológica tenta representar o estado de envelhecimento do organismo, que pode variar de uma pessoa para outra.
Uma pessoa de 60 anos, por exemplo, pode apresentar indicadores biológicos semelhantes aos de alguém mais jovem, enquanto outra da mesma idade pode apresentar sinais de envelhecimento mais acelerado. Há ainda a chamada idade cerebral, uma estimativa de quão envelhecido está o cérebro em comparação com o que seria esperado para a idade cronológica.
No estudo, uma fala considerada mais envelhecida esteve associada a uma idade cerebral estimada mais avançada. Também foram observadas relações com alterações estruturais e funcionais identificadas por exames de neuroimagem.
Os participantes com maior idade da fala também apresentaram, em média, pior desempenho em avaliações de cognição global, funções executivas e memória. A associação não apareceu somente em testes relacionados à linguagem: também foi observada em tarefas que avaliavam capacidades não linguísticas.

O padrão foi ainda mais evidente quando os grupos clínicos foram comparados. As pessoas saudáveis apresentaram as menores diferenças entre idade cronológica e idade da fala. As diferenças aumentaram progressivamente entre participantes com doença de Alzheimer e algumas formas de demência frontotemporal.
No caso do Alzheimer, uma maior idade da fala também esteve associada a níveis mais elevados da proteína p-tau217 no sangue, um marcador relacionado à doença. Isso não significa, porém, que uma pessoa cuja voz pareça envelhecida esteja necessariamente desenvolvendo demência.
Voz mais velha não é diagnóstico
Os próprios pesquisadores ressaltam que o “relógio da fala” ainda está longe de ser um exame médico. O estudo identificou associações entre os padrões de fala e diferentes marcadores de envelhecimento, mas não demonstrou que uma voz mais envelhecida seja capaz de prever, sozinha, quem desenvolverá uma doença neurodegenerativa.
Uma das limitações está no próprio desenho da pesquisa. O trabalho foi predominantemente transversal, ou seja, os participantes foram avaliados em determinado momento.
Para saber se a diferença entre a idade cronológica e a idade da fala consegue realmente antecipar o surgimento de declínio cognitivo ou demência, seria necessário acompanhar essas pessoas durante anos.
Além disso, a voz pode ser modificada por uma série de fatores que não têm relação direta com o envelhecimento cerebral. Doenças, alterações nas cordas vocais, problemas respiratórios, perda auditiva, medicamentos, hábitos de vida e até o estado emocional podem interferir na maneira como uma pessoa fala.
Aspectos sociais também apareceram nos resultados. Entre os participantes, o envelhecimento mais acelerado da fala esteve relacionado a um conjunto de experiências acumuladas ao longo da vida, incluindo escolaridade, condições financeiras, insegurança alimentar, acesso aos serviços de saúde e circunstâncias vividas durante a infância.
Por isso, o estudo não permite concluir que a voz determine a idade biológica ou cerebral de alguém. O que ele mostra é que determinados padrões da fala podem funcionar como uma espécie de janela para processos que acontecem simultaneamente em diferentes partes do organismo.
A possibilidade de utilizar a voz como biomarcador de envelhecimento chama atenção justamente pela simplicidade. Um biomarcador é uma característica mensurável que pode fornecer informações sobre um processo biológico ou sobre o estado de saúde.
Hoje, muitas avaliações relacionadas ao envelhecimento dependem de exames de sangue, ressonância magnética, análises moleculares ou avaliações clínicas especializadas.
A fala, por outro lado, pode ser gravada remotamente, repetida ao longo do tempo e analisada por sistemas automatizados. Isso poderia permitir, no futuro, acompanhar mudanças na maneira de falar sem a necessidade de equipamentos sofisticados.
Para os pesquisadores, essa possibilidade é especialmente relevante em regiões com menor acesso a tecnologias médicas avançadas. O fato de o estudo ter reunido participantes de cinco países latino-americanos também contribui para ampliar a diversidade das pesquisas sobre envelhecimento e demência.
Ainda são necessários estudos com acompanhamento de longo prazo, diferentes idiomas e populações e situações mais próximas das conversas cotidianas. Se os resultados forem confirmados, a análise da voz poderá se tornar uma ferramenta complementar para acompanhar o envelhecimento.



